Ao escrever sobre os diversos aspectos relacionados a medidas e sensações de tempo, lembrei-me de como iniciei meu interesse sobre o assunto. Trabalhando no laboratório de desenvolvimento de uma indústria de telecomunicações, eu e meus colegas tínhamos a missão de combinar quatro sequências de dados de menor velocidade de transmissão em uma única, de maior velocidade.
Para isso, era necessário que os inícios e finais das sequências ocorressem em instantes bem determinados e sincronizados entre si. Era o começo da era das comunicações digitais no nosso país e a primeira oportunidade que tive de pensar com alguma profundidade no significado do termo sincronismo, tão corriqueiro na natureza e no cotidiano.
A vida profissional diária das telecomunicações e a necessidade de resolver o problema eletrônico levaram-me à obra de Willian C. Lindsey (1942), cujo livro Synchronization Systems in Communication and Control, publicado em 1972, é, até hoje, o texto mais completo e profundo sobre a eletrônica dos sinais de relógio e sobre como projetar dispositivos e circuitos de precisão em regimes ruidosos e com perturbações aleatórias.
Estávamos em meados da década de 1980 e o problema que eu enfrentava na bancada tinha relevância para ser tratado em um programa de doutoramento e, para mim, isso foi uma excelente combinação: o acadêmico e o industrial complementando-se.
Conforme já relatei, meu orientador de doutorado era o Jô (professor Jocelyn Freitas Bennaton), pesquisador com forte formação em Matemática e doutorado no Imperial College em equações diferenciais estocásticas.
Com muito esforço, embrenhei-me pela teoria dos sistemas dinâmicos e consegui o que o Jô chamava de “importante contribuição local”, estudando o sincronismo eletrônico com modelos envolvendo bifurcações e caos.
Eu gosto até hoje de ter meu trabalho qualificado como local, sem custos para nossas agências de fomento, multiplicado por estudantes que passaram por nossa graduação e pós-graduação. O uso das teorias de bifurcação e caos em engenharia, corriqueiro nos centros de referência internacionais, ganhou corpo por aqui e grupos de pesquisa se desenvolveram.
A abordagem de Lindsey, vista pelos olhos da dinâmica de sistemas, levou-me à literatura relativa às equações diferenciais não lineares, cujas obras clássicas concentram-se no estudo de oscilações mecânicas, ressaltando que a ideia física de sincronismo e seu estudo analítico têm origem nas observações experimentais de Christiaan Huygens (1629-1695).
Huygens, que é mais conhecido pelos seus trabalhos em óptica e pela construção de telescópios e relógios, observou o fenômeno de sincronização entre dois relógios de pêndulo montados sobre o mesmo suporte, constatando que suas oscilações coincidiam perfeitamente. Essa descoberta foi feita durante experimentos para determinação de longitudes, sendo decisiva para o incremento da precisão das medidas de tempo.
A primeira menção dessa descoberta parece ter sido feita em uma carta de Huygens para seu pai, datada de 26 de fevereiro de 1665, relatando observação feita enquanto estava acamado por alguns dias, atento aos dois relógios de parede. Huygens usou o termo le phénoméne de la symphatie des horloges e proporcionou uma explanação qualitativa brilhante do efeito de sincronização mútua.
Ao término do doutorado, por conta do apelo que a popularização do conceito de caos em sistemas dinâmicos produziu na época, pude interagir com grupos acadêmicos de outras áreas que trabalhavam diretamente com sincronização em fenômenos diversos.
Em medicina, a estimulação periódica de células de marca-passos atriais; na natureza, o sincronismo de sons emitidos por grilos; em cronobiologia, a sincronização de ritmos circadianos; em química, as oscilações na reação de Belousov-Zhabotinsky são alguns exemplos da importância e da universalidade do fenômeno da sincronização.
Meu primeiro trabalho de orientação de pós-graduação levou-me a conhecer o grupo de Cronobiologia, liderado pelo professor Luiz Mena-Barreto, na época, sediado no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.
Orientado por esses colegas, conheci The Geometry of Biological Time, livro seminal de Arthur T. Winfree (1942-2002), que me permitiu protagonizar dois trabalhos dos quais me orgulho. O primeiro, Ontogênese do ciclo vigília-sono, dissertação de mestrado da professora Ana Amélia Benedito Silva, que observou a sincronização do ciclo-vigília no sono dos bebês com a alternância circadiana de 24 horas, a partir de dados das crianças cuidadas na creche de nossa universidade.
Na época desse trabalho, a multidisciplinaridade não era popular pelas nossas bandas e alguns conselheiros do departamento sede do programa de mestrado achavam que o termo “ontogênese” era do escopo da biologia e, nas engenharias, poderia soar estranho. Um dicionário considerado confiável resolveu a questão, convencendo a todos da adequação do termo.
O outro, Ritmos biológicos observados em insetos cavernícolas, tese de doutorado da professora Gisele Akemi Oda, orientada pelo professor Iberê Luis Caldas no Instituto de Física (IF-USP), verificou, no Museu de Zoologia da USP, o estabelecimento de ritmos circadianos na oviposição de insetos, mesmo privados de incidência de luz.
Hoje, Ana Amélia é professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP e Gisele, do Instituto de Biociências da USP, ambas com histórico de liderança científica. Em seus trabalhos, a curiosidade e a competência de conectar conhecimentos aparentemente distintos criam maneiras diferentes de interpretar o conhecimento.
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