quarta-feira, maio 13, 2026
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notas de um dia ordinário – Jornal da USP


Em razão disto é ir à luta e garantir os nossos espaços que, evidentemente, nunca nos foram concedidos.
Lélia Gonzales

Este ensaio-reflexão parte de um recorte autobiográfico para propor uma crítica às formas contemporâneas de produção de conhecimento baseadas na extração de dados e na estetização técnica da desigualdade. A partir de experiências cotidianas de trabalho precarizado, mobilidade urbana e participação em eventos acadêmicos, tensiono o papel da universidade na legitimação de epistemologias que tratam corpos e territórios como repositórios de informação a serem minerados. A narrativa se ancora em uma etnografia de si, posicionada e insurgente, situada entre o pop periférico e o TED Talk do Norte Global, com notas críticas sobre duas palestras que aconteceram quase que simultaneamente e, principalmente, sobre um projeto de mapeamento de favelas.

Um dia ordinário, atravessado pelo campo

Acordar às 5h30 para um exame de sangue depois de 12 horas de jejum na UBS São José. Atualizar o Cadastro Único no CRAS, para reforçar o lugar que ocupo neste país cheio de desigualdades. Passar por um bairro onde a arquitetura do privilégio esconde o que os dados não mostram, Jockey Clube, do nome do bairro aos residenciais que lá habitam os enclausurados ricos de São Carlos. Almoçar na universidade, participar de duas palestras e depois trabalhar como garçom free-lancer em uma lanchonete que paga menos da metade de um salário mínimo quando trabalhamos um mês inteiro. Esse foi o dia 23 de maio de 2025.

Mais que rotina, esse dia condensou camadas do campo onde achei que minha pesquisa se inscrevia. As palestras não atravessaram meu campo de investigação, mas me afetaram antes mesmo que eu pudesse perceber isso. Em minha pesquisa (e venho falando disso em meu processo terapêutico), tenho refletido sobre o conceito de “ser afetado”, como propõe Jeanne Favret-Saada, e tentado praticar o exercício de “escrever afetado”, assim, escrever este texto é também escrever contra: contra a neutralidade dos dados, contra a higienização da linguagem científica, contra a extração silenciosa de territórios e vivências.

Racismo ambiental e performance insurgente

Na semana da Engenharia Ambiental da Escola de Engenharia de São Carlos da USP, a palestra do “Chavoso da USP”, Thiago Torres, lotou o auditório. Tema: racismo ambiental. Um conceito que nasce nos EUA nos anos 1980, na luta dos movimentos negros, e ganha forma teórica nas mãos de Robert Bullard. Mas, como Torres bem pontuou, a importação acrítica do termo gerou críticas tanto à direita quanto à esquerda brasileiras, ainda que, como ele argumenta, os efeitos do racismo no território sejam visíveis e mensuráveis, atingindo com mais força as populações marginalizadas e racializadas.

Até aí, um conteúdo denso. Mas o que me chamou a atenção foi a performance. Ovacionado ao entrar, algo que raramente se vê em mesas universitárias. Thiago usava um conjunto de bermuda e camiseta polo com colares típicos da quebrada. Parecia deslocado para os padrões estéticos da universidade, e talvez por isso fosse o mais apropriado para aquele espaço: a estética marginal se tornava política. Como vem dizendo Erika Hilton, é preciso tornar pop a presença dos corpos marginalizados nos espaços de poder. O público lotava o auditório por ele, não pelo tema. A mesa anterior estava vazia, como comentou informalmente a estudante à minha frente. A universidade, nesse momento, foi atravessada pela rua e vibrou.

A estetização técnica do urbano

Corte para o Auditório Luiz Antônio Fávaro, bloco 4 do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP. Nova palestra, outro público. Tema: dados, design e tecnologia: novas formas de pensar o urbano. Divulgação ampla, estética clean, paleta bege-cinza de Ted-Talk formatado. O palestrante, ex-aluno do campus da USP São Carlos, hoje pesquisador no MIT, vestia-se como se se camuflasse entre os organizadores: camisa social verde-hospital, calça verde-musgo, sapato sério demais. Uma presença apagada, ainda que falasse de tecnologias de ponta.

Ele nos apresentou uma sequência de projetos baseados na coleta massiva de dados: rastreamento de celulares em Boston, monitoramento de táxis em Nova York, rastreadores em bicicletas roubadas em Amsterdã. Em comum, a lógica da “otimização” urbana e a estética sedutora dos dados visualizados com apelo gráfico. Um dos termos que nomeava esses processos, “dados oportunistas”, escancarava o cinismo epistemológico da captura de vidas ordinárias como matéria-prima para o brilho acadêmico de centros do Norte Global.

Favela 4D: dados para o bem de quem?

O projeto Favela 4D – Data for Good propunha escanear tridimensionalmente favelas cariocas com laser e blockchain. A promessa: garantir direitos de propriedade a moradores por meio de “tecnologia de ponta”. Mas a pergunta persiste: dados para o bem de quem?

Entre a extração e a estetização, a palestra silenciava o que os corpos sentem quando vivem nas margens do mapeamento. A promessa de visibilidade é, muitas vezes, apenas o prelúdio de uma nova forma de vigilância. Uma fala inquietante ecoa: a justificativa para o projeto era dar endereço às pessoas para que possam conseguir emprego (sic). O argumento foi suavemente criticado pelos interlocutores locais, pela gente da quebrada: “Esse é um problema que pessoas privilegiadas pensam que temos”, e, penso, eles não estão errados de tudo.

A favela, como lembrou Thiago Torres, não é um acidente geográfico, mas a consequência direta da ausência de reforma agrária. Toda vez que se discute o tema no Brasil, sofremos um golpe: da princesa Isabel a Jânio Quadros. O que está em jogo nesse tipo de pesquisa? O que se faz com esses dados depois que os drones recolhem, os lasers escaneiam e os softwares processam as comunidades em modelos tridimensionais?

Dados, colonialidade e legibilidade imperial

A resposta talvez esteja na crítica que Sherry Turkle, pesquisadora do próprio MIT, desenvolve em Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. A obsessão pelo dado como substituto da experiência, a coleta como fim em si mesma, o distanciamento humano em nome da precisão digital. Turkle aponta que, quanto mais sofisticada a tecnologia, mais nos isolamos. O que ela talvez não tenha dito com todas as letras é que essa lógica também serve a projetos de dominação. O mapeamento das favelas brasileiras não é uma forma de dar visibilidade aos invisíveis, mas de tornar o território legível aos olhos do império. E o império, sabemos, lê para controlar.

Quando o li pela primeira vez em 2016, na disciplina Sociologia Digital, com o professor Richard Miskolci, ainda não tinha noção dos efeitos da técnica sobre o sensível. Relê-lo agora, mesmo que pelas margens da memória e das anotações resgatadas, me devolve perguntas mais do que certezas. Como estamos nos relacionando com as máquinas e como elas nos estão ensinando a desaprender a relação com os outros e conosco?

Ela nomeia como “intimidade artificial” esse estranho conforto em confiar em robôs, aplicativos, assistentes, em vez de aceitar o trabalho árduo de sustentar relações humanas reais. E aqui, algo me atravessa: o quanto esse conforto técnico é também um projeto político? Um tipo de pedagogia do afeto moldada pela lógica neoliberal, que quer tudo rápido, bonito e funcional, inclusive nas representações dos mapeamentos apresentados.

Quando Turkle mostra que agora esperamos mais das máquinas do que das pessoas, não consigo esquecer o garçom que sorri sem direitos, do motorista de aplicativo cujo trajeto é otimizado por algoritmos que o tornam quase um espectro movendo-se sem lugar. Tampouco deixar de pensar nas favelas escaneadas em 4D, nos corpos mapeados por celulares em Boston ou bicicletas rastreadas em Amsterdã. Dados oportunistas. Esse nome que me doeu tanto. A palavra “oportuno” não deveria carregar cinismo.

Quando os dados deixam de ser usados para garantir direitos e passam a ser matéria-prima para alimentar bancos de dados globais, não estamos diante de uma inovação: estamos diante de uma nova forma de colonialismo. A favela se torna um objeto de análise para alimentar papers publicados em revistas de alto impacto, que circulam entre universidades do Norte Global e pouco, ou nada, retornam aos sujeitos que foram objeto da pesquisa.

Assimetrias performáticas e epistemológicas

Enquanto Thiago Torres é recebido como um popstar, mas sem divulgação oficial da universidade, o evento do MIT tem ampla propaganda institucional. A assimetria não é apenas estética, é política. A universidade brasileira ainda hesita em reconhecer o saber que emerge da periferia, mas corre para aplaudir o pesquisador estrangeiro, mesmo quando ele reduz o território à abstração de pixels.

É irônico, ou revelador, que, enquanto se mapeia favelas com tecnologia de ponta, os EUA coloquem o Brasil na rota geopolítica do combate ao Hezbollah, como denunciado em recente matéria da Carta Capital. A mesma mão que coleta o dado aponta o alvo. Até quando vamos aceitar ser matéria-prima para o avanço do Norte Global?

A estética performática de Thiago, o colar da quebrada, a gíria e a crítica afiada colocaram em xeque não apenas os limites do conceito de racismo ambiental, mas também a própria estrutura colonial da universidade. O que está em jogo não é só quem fala, mas de onde se fala e para quem.

Nada nos foi dado

O Chavoso da USP relembrou uma fala de Angela Davis em visita ao Brasil: quando questionada sobre sua influência sobre os movimentos decoloniais latino-americanos, ela respondeu, com honestidade e humildade, que quem a ensinou foi Lélia Gonzalez.

Esse gesto, esse reconhecimento, carrega uma inversão fundamental: por que seguimos buscando no Norte Global os instrumentos para resistir, quando as ferramentas, os pensamentos, os afetos e os corpos sempre estiveram aqui?

Isso se impõe com ainda mais força diante da palestra do ex-aluno: uma sequência de projetos que fazem do dado uma mercadoria, da favela um laboratório, do mapeamento um espetáculo. A favela como recurso, o corpo como sinal, a vida como flecha em movimento, para alimentar grandes revistas científicas do Norte.

Quando Angela Davis diz que aprendeu com Lélia, ela desmonta essa arquitetura extrativista do saber. E nos convida, como nos ensina Lélia, a construir desde o nosso lugar, com nossas dores, alegrias e, sobretudo, com nossas epistemologias e estéticas insurgentes.

Terminei o dia trabalhando como garçom, escrevendo no celular enquanto limpava mesas. Alone together, conectado à lógica da produtividade até mesmo na produção de saber. Mas também escrevendo contra ela. Essa escrita é minha desobediência. É meu mapeamento insurgente. É ciência que se recusa a ser neutra, porque o campo nunca foi.

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