A palavra “demais” pode representar excesso – exagero – ou demasia – intensidade. Quando o sentido que damos à expressão “pensar demais” parte do excesso, ele pode receber e revelar um tom negativo de algo que requer atenção. Mas quando significamos a partir da demasia, entendemos a importância de “pensar demais”. Afinal, pensar em autoconhecimento sob a perspectiva da Filosofia e da Psicanálise é “pensar demais”, visto que sugere pensar intensamente e sobre um raciocínio que, em sua totalidade, não tem fim.
Segundo André Oliveira Costa, “‘o pulso ainda pulsa’. Estamos o tempo todo em movimento, sem cessar. O autoconhecimento nunca vai se fechar”. O professor convidado do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFSM é autor do artigo “A construção do Eu nas narrativas de vida”, com participação de Karen Worcman. Na pesquisa, o foco é a constituição do Eu e o modo como a produção de uma narrativa de vida pode significar, para quem narra, o exercício de construção.
Ao analisarem relatos, os autores não colocam o “fato” por trás da história narrada como ponto principal. O foco é o próprio indivíduo e a forma como lida com sua memória e produz o seu relato individual a partir dela. O que importa é a organização e tradução que se faz, para o outro, daquilo que se viveu e conheceu. Além da pesquisa minuciar ainda mais a construção do Eu, ela também conversa, de certo modo, com as perspectivas de Marcelo Fabri e Paulo Gleich, ao passo que destaca a importância do diálogo.
Para Marcelo Fabri, a vida implica o contato entre os sujeitos, que gera o diálogo e o confronto necessários para tentar responder à questão “quem é o homem?”. O contato que Paulo Gleich considera importante nesta busca é, em especial, o da análise, através da fala e da escuta que, com tempo, atenção e dedicação, trazem efeitos à descoberta pessoal. Refletir, questionar e dialogar. Essas são as principais palavras para ressignificar o “pensar demais” e, também, para considerar o autoconhecimento – ou autodesconhecimento.
A lente de aumento colocada sobre o Eu, durante a pandemia, permitiu que muitos saíssem da distração para a atenção e, assim, dessem o primeiro passo em direção a uma busca por um entendimento de si. Sem fim, o autoconhecimento também não se limita a esse período, mesmo que represente uma maneira de atravessá-lo.
Contemplar perspectivas que sugerem reflexão, como as que André Costa, Marcelo Fabri e Paulo Gleich expressam – do contato com a Filosofia e a Psicanálise – pode originar uma série de descobertas. Essas, por sua vez, não dizem só sobre o presente, mas sobre o passado e, de certo modo, influenciam o futuro. Segundo Paulo Gleich: “Sei, pelos testemunhos de muitos colegas e pela minha própria prática clínica, que muitas pessoas procuraram ajuda nesse momento. Embora algumas delas tenham alegado as questões da pandemia, com um tempo de trabalho [de análise] elas vão poder se ocupar das questões que, na verdade, já estavam lá muito antes, mas que a situação de isolamento empurrou para um aumento de sintomas”.
O recolhimento e o conhecimento interno não prometem estancar sofrimentos, mas possibilitam encontrar interpretações mais preparadas para lidar com os antigos, presentes e futuros sentimentos e necessidades. Aqui, considerando em especial aqueles que foram, estão sendo ou serão despertados durante a pandemia. Logo, esses movimentos podem ser alternativas para responder, inclusive, a uma das estratégias de enfrentamento dos impactos negativos do distanciamento social elencadas pela Fiocruz, que consiste em dar atenção a si e observar limites e angústias com o fim de aliviamento. Outras recomendações da instituição envolvem realizar exercícios cognitivos, cursos online e leitura, buscar conteúdos e práticas que reestabeleçam a confiança em si mesmo, realizar exercícios físicos e de relaxamento, participar de grupos de apoio online ou buscar apoio especializado.
Enquanto a pandemia de Covid-19 ainda é uma realidade, as ruas não perdem por completo o verbo “dispersar” – afinal, o sentido de “espalhar” (o vírus) permanece presente. Porém, reconhecer a importância de se manter atento já é uma forma de contrariar o sentido de “distrair” – e, com isso, permitir a entrada de uma série de importantes percepções e interpretações sobre o Eu e sobre o mundo.



