A forma de diabetes relacionada à desnutrição foi descrita pela primeira vez em 1955 na Jamaica, e posteriormente em países da África Subsaariana e Ásia, com dados de prevalência na Índia, à época, de 23% dos casos. Essa forma de apresentação é reconhecida por afetar principalmente jovens magros, com histórico de desnutrição crônica na infância, que apresentam características clínicas distintas das formas clássicas de diabetes, como o tipo 1 e 2, com menor capacidade de produção de insulina, sensibilidade à insulina preservada e rápida necessidade de insulinização. No entanto, mesmo sendo reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1985, foi posteriormente retirada das classificações oficiais, em parte, devido à escassez de estudos específicos.
Vale ressaltar, no entanto, que pesquisas epidemiológicas, como as lideradas pelo epidemiologista David Barker, já evidenciavam que a exposição à insegurança alimentar grave, especialmente durante a gestação e a infância, estava associada a maior risco de desenvolvimento de doenças metabólicas, incluindo diabetes, na vida adulta. No Brasil, por exemplo, dados nacionalmente representativos indicaram que os participantes que relataram ter passado fome na infância, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, apresentaram 20% mais chances de desenvolver diabetes na idade adulta.
Diante disso, é possível entender que estamos posicionados em um cenário preocupante. Dados pós-pandemia de covid-19 estimaram que mais de 33 milhões de pessoas haviam passado fome recentemente, com quase 59% das famílias em algum grau de insegurança alimentar e pelo menos 15,5% em situação de insegurança alimentar grave no Brasil. Em 2024, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua estimou que pelo menos 27,6% dos domicílios permaneciam em situação de insegurança alimentar. Paralelamente, o País é o sexto no mundo em número de casos de diabetes, com cerca de 16,6 milhões de pessoas vivendo com a doença em 2024.
Assim, é possível que a experiência histórica e persistente da fome no Brasil possa estar contribuindo para o aumento dos casos de diabetes, não apenas pelo diabetes tipo 2 relacionado à obesidade, mas também pelo DM5, cuja prevalência no País ainda é desconhecida. Esse cenário reforça a necessidade de se incluir, como parte do processo diagnóstico do diabetes, indicadores socioeconômicos e nutricionais que possam contribuir com a identificação desses casos e aprimoramento do manejo clínico, como relato de baixo peso ao nascer e de insegurança alimentar grave na infância, bem como baixa estatura na idade adulta.
O reconhecimento do DM5 pela IDF também abre caminho para a reformulação de políticas públicas de saúde no Brasil, especialmente aquelas voltadas para a proteção da gestação e da primeira infância, períodos críticos para a prevenção da desnutrição e suas consequências metabólicas de longo prazo. Fortalecer programas que garantam segurança alimentar e nutricional durante esses períodos pode romper ciclos intergeracionais de pobreza, fome e adoecimento, promovendo equidade em saúde e enfrentando as desigualdades sociais estruturais que marcam historicamente o País.
Além disso, a adoção de ferramentas como a Triagem para o Risco de Insegurança Alimentar (Tria), recentemente incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS), pode contribuir com a identificação precoce de famílias em situação de insegurança alimentar, possibilitando intervenções direcionadas. O desenvolvimento de diretrizes diagnósticas e terapêuticas específicas para o DM5, bem como a criação de registros nacionais de casos, são passos essenciais para ampliar o conhecimento e o enfrentamento dessa condição no Brasil. Essa mudança de paradigma é fundamental para avançar na prevenção e controle do diabetes, especialmente em populações vulneráveis, e para garantir o direito humano à alimentação adequada como um pilar essencial da saúde e do bem-estar da população brasileira.
* Membros do INCT Combate à Fome: estratégias e políticas públicas para a realização do direito humano à alimentação adequada – Abordagem transdisciplinar de sistemas alimentares com apoio de Inteligência Artificial. E-mail do INCT: inctcombatefome@usp.br
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