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aliança estratégica para o progresso do Brasil – Jornal da USP


Neste momento em que está sendo materializada a Aliança Estratégica entre a Universidade de São Paulo (USP) — uma potência nacional em pesquisa e ensino de excelência e integrante do conjunto das Melhores do Mundo — e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) — líder na educação profissional e tecnológica do Brasil e uma das principais instituições educacionais do Hemisfério Sul, num cenário onde a lacuna entre formação acadêmica, técnica e tecnológica e as demandas industriais é crescente, essa parceria se mostra absolutamente crucial para o desenvolvimento do Estado de São Paulo e do País.

No dia 16 de julho de 2025, a Universidade de São Paulo e o Senai-SP terão a honra de inaugurar o Espaço Inovação Senai-SP USP, sediado no Centro de Inovação da USP (InovaUSP). Esse projeto, de grande relevância estratégica, simboliza a necessária e cada vez mais urgente integração entre a academia e a indústria, reunindo competências complementares em prol da inovação, do desenvolvimento tecnológico e da formação de excelência.

Este momento simbólico reforça a importância de rememorar a trajetória de criação do Senai e de reconhecer seu vínculo histórico com a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, evidenciado pela atuação decisiva do professor Roberto Auguste Edmonde Mange.

Roberto Mange – Foto:

No início de 1930, a indústria brasileira estava crescendo ligeiramente em novos tempos, em que chegavam da Europa muitos imigrantes visionários formando colônias na região Sul e Sudeste. Eram pessoas que acreditavam no potencial do desenvolvimento do Brasil e no crescimento de oportunidades de trabalho na cidade e já percebiam que o cenário econômico, político e social do Brasil estava mudando para melhor, e muito rápido.

Nas indústrias, a maioria dos trabalhadores possuía apenas instrução primária, uma realidade que há muito tempo preocupava os empresários do setor. Entre 1940 e 1942, essa preocupação mobilizou o professor da Escola Politécnica da USP, Roberto Auguste Edmonde Mange, juntamente com dois importantes líderes industriais: o engenheiro Roberto Cochrane Simonsen, então presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), e o engenheiro Euvaldo Lodi, presidente da Confederação Nacional das Indústrias (CNI). Juntos, estudaram as melhores formas de criar uma escola voltada à formação de jovens e adultos da classe trabalhadora, uma prática já consolidada com êxito em diversos países.

Com essa visão estratégica, esses idealizadores articularam, junto a líderes do governo Vargas, a criação do Senai, oficialmente instituído pelo Decreto-Lei nº 4.048, de 22 de janeiro de 1942. Nesse mesmo ano, Roberto Mange tornou-se o diretor do Departamento Regional do Senai de São Paulo e foi colocado como referência nacional em se tratando do Senai.

À época, ele elaborou princípios e táticas para a educação industrial, introduziu inovações e as transformou em padrões pedagógicos, além de as difundir pelos outros departamentos regionais do Senai que estavam sendo fundados nos estados brasileiros. Exerceu com dedicação e excelência esse cargo até seu falecimento, em 31 de maio de 1955, deixando um legado extraordinário para a formação do ensino técnico e industrial brasileiro.

Roberto Auguste Edmonde Mange, de origem suíça, iniciou sua formação escolar em Portugal, concluiu-a na Alemanha e obteve o diploma de engenheiro pela Escola Politécnica de Zurique em 1910, uma universidade pública de pesquisa pioneira na Europa e no mundo.

Chegou ao Brasil em 1913, aos 28 anos de idade, a convite do engenheiro Antônio Francisco de Paula Souza, diretor da Escola Politécnica de São Paulo, passando assim, a integrar a Escola Politécnica de São Paulo. Lecionando a disciplina de Engenharia Mecânica durante 40 anos até se aposentar, foi condecorado Professor Emérito da Escola Politécnica da USP em 1953. Em 1939 foi naturalizado brasileiro e passou a ser Roberto Mange.

Importante observar que a Escola Politécnica de São Paulo foi fundada pelas leis estaduais nº 26 e nº 64, em 1893, antecedendo em 41 anos a criação da Universidade de São Paulo.

Ao longo de sua carreira, Roberto Mange também atuou como superintendente da Escola Profissional de Mecânica do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e foi responsável pela organização do Serviço de Ensino e Seleção Profissional da Estrada de Ferro Sorocabana. Em 1931, fundou o Instituto de Organização Racional do Trabalho (Idort), por meio do qual difundiu os princípios da administração psicológica do trabalho, com base nas ideias tayloristas que tinham por princípio o aumento da produtividade do trabalhador. Sua atuação no Idort foi decisiva para a concepção do Senai como uma instituição voltada à formação técnica e profissional de qualidade, alinhada às necessidades da indústria. Roberto Mange também foi um dos protagonistas na articulação do primeiro acordo entre o Brasil e os Estados Unidos para a formação de professores voltados ao ensino industrial, reforçando sua influência na consolidação da educação profissional no País.

Roberto Mange era um intelectual orgânico, uma vez que suas propostas e suas ações eram comprometidas com instituições do mundo industrial, com a sociedade ou com o Estado.

A decisão de Antônio Francisco de Paula Souza ao convidar Roberto Mange, com a posterior aceitação deste, a vir ao Brasil representou uma contribuição monumental em diversas áreas. Esse movimento foi fundamental para transformar o ensino profissional, estimular a pesquisa e ampliar as aplicações da ciência e da tecnologia, acelerando significativamente o processo de modernização do parque industrial brasileiro.

Em resumo, Mange, Simonsen e Lodi, cada um com sua expertise e área de atuação, foram figuras centrais na fundação do Senai, contribuindo decisivamente para sua concepção, estruturação, articulação política e implantação. Contudo, é fundamental destacar que foi Roberto Mange, com suas qualificações, múltiplas competências e visão estratégica para a educação profissional, o agente primordial que orientou e transformou o Senai em um marco fundamental para o desenvolvimento da educação profissional no Brasil.

Dessa forma, o Senai consolidou-se como o braço direito da indústria brasileira, capacitando profissionais para atuarem em um setor em constante expansão. Com a fundação da nova capital, Brasília, o presidente Juscelino Kubitschek acelerou o processo de industrialização, período em que o Senai já estava presente em quase todo o território nacional e iniciava projetos para buscar conhecimentos no exterior, com o objetivo de aplicá-los em suas escolas.

Concomitantemente, a Universidade de São Paulo, fundada em 25 de janeiro de 1934, se consolidou como uma instituição de ensino e pesquisa de excelência e é reconhecida mundialmente. Investe intensamente na área de inovação, atuando de forma próxima à sociedade e ao setor produtivo brasileiro em praticamente todas as suas áreas. Sua forte presença se estende também ao interior do Estado de São Paulo, reforçando também seu compromisso com o desenvolvimento regional.

Atualmente, o Senai em São Paulo possui 90 unidades educacionais fixas e 78 unidades móveis distribuídas em todo o Estado de São Paulo e atende um total de mais de um milhão de matrículas/ano. Além disso, nas áreas técnicas e tecnológicas, o Distrito Tecnológico Senai-SP oferece serviços de assessoria especializada, visando a soluções tecnológicas e inovação para aumentar a competitividade das empresas para as áreas de: Metalmecânica; Metalurgia; Têxtil, Moda e Confecção; Construção Civil; Tecnologia da Informação e Comunicação; Meio Ambiente; Eletrônica e Automação; Couro e Calçados; e Alimentos e Bebidas, localizadas no Distrito Tecnológico Senai-SP (no município de São Bernardo do Campo-SP). Já o Instituto Senai de Tecnologia Assistiva está localizado na unidade de Itu-SP.

O Distrito Tecnológico Senai-SP oferece também P&D avançados para a indústria, visando a soluções tecnológicas e inovação para aumentar a competitividade das empresas nas seguintes áreas: Manufatura Avançada; Materiais Avançados; Biotecnologia e Alimentos; Sistemas de Energia; e Sustentabilidade e Meio Ambiente; além de Empreendedorismo Industrial e Novos Negócios.

É nesse contexto que surge o novo Espaço Inovação Senai-SP USP, com a missão de operacionalizar atividades colaborativas relacionadas ao desenvolvimento de projetos de P&D com empresas industriais, a promoção do empreendedorismo e a criação e desenvolvimento de startups focadas em projetos industriais, bem como a prospecção de jovens talentos visando à conexão entre Universidade e empresa para incentivar o desenvolvimento tecnológico da indústria.

Essa aliança estratégica estabelece o Programa USP & Senai-SP de Ligação Industrial, com o objetivo de promover a inovação tecnológica, o empreendedorismo e a competitividade de indústrias e empresas de base tecnológica. Trata-se, portanto, de um marco significativo para a USP e para o Senai-SP, registrando um ponto de inflexão com benefícios concretos para ambas as instituições.

Essa sinergia se desdobra em diversas frentes de atuação:

• UpLab – Focado no apoio a empresas nascentes, o UpLab atua na mentoria para modelagem de negócios, na oferta de treinamentos, cursos, workshops e materiais de capacitação, bem como no lançamento de chamadas específicas para o desenvolvimento tecnológico de startups. O programa também promove parcerias estratégicas com a indústria para enfrentar desafios reais do setor e conecta essas iniciativas aos ambientes de inovação da USP, como o Cietec e o Supera. O objetivo central é identificar startups com soluções industriais promissoras no ambiente universitário e integrá-las aos programas de desenvolvimento tecnológico e de negócios do Senai-SP.

• Programa Seleção de Talentos – Voltado à identificação e captação de talentos, o programa estrutura ações de apoio às iniciativas Inova Talentos, ao Centro de Desenvolvimento de Competências (CDC) e à seleção de bolsistas para atuarem em projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) do Senai-SP.

• Escritório Avançado do Distrito Tecnológico Senai-SP – Com a missão de articular e integrar as competências técnicas e acadêmicas da USP e do Senai-SP, esse escritório busca fomentar o desenvolvimento conjunto de projetos de PD&I em parceria com indústrias paulistas e brasileiras.

• Acesso à pós-graduação na USP pelo corpo técnico do Senai-SP – Visa estruturar e implementar mecanismos que permitam o ingresso de profissionais do Senai-SP nos programas de pós-graduação e pós-doutorado da USP. Essas iniciativas serão alinhadas aos projetos estratégicos e às áreas prioritárias de interesse do Senai-SP e da USP.

Os benefícios dessa colaboração são numerosos: estudantes e profissionais recebem uma formação mais abrangente e competitiva no mercado de trabalho; a indústria passa a contar com mão de obra qualificada e inovações tecnológicas mais ágeis; e, simultaneamente, ambas as instituições fortalecem suas missões estratégicas.

Para o Brasil, essa sinergia impulsiona o desenvolvimento econômico, contribui para mitigar o déficit de talentos e fortalece a competitividade das indústrias em âmbito local, regional e global.

As perspectivas futuras são promissoras, a exemplo da expansão nas áreas estratégicas como inteligência artificial e sustentabilidade. Dessa forma, essa aliança estratégica entre Senai-SP e USP pode servir de modelo para futuras parcerias institucionais no País.

Consolida-se, portanto, um ciclo virtuoso: o Senai, impulsionado originalmente por Roberto Mange, professor da Escola Politécnica da USP, se firma agora como parceiro estratégico da Universidade de São Paulo.

Essa colaboração une passado e futuro em prol do desenvolvimento socioeconômico do Brasil, consolidando-se como uma força motriz essencial para a construção de um país mais inovador, qualificado e próspero.

* Marcelo Knörich Zuffo, professor da Escola Politécnica da USP e coordenador do InovaUSP – Complexo São Paulo, Tito José Bonagamba, professor do Instituto de Física de São Carlos da USP e coordenador do InovaUSP – Complexo São Carlos, e José Roberto Cardoso, professor da Escola Politécnica da USP e diretor do I3 – Instituto Internacional de Inovação da USP

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