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Concursos para ingresso docente nas universidades públicas e as grandes redes de colaboração – Jornal da USP


Sou professora e pesquisadora em Química. Recentemente meu nome foi cogitado para participar em bancas de concurso para ingresso docente tanto na USP quanto em duas universidades federais (UFSCar e UFG). No primeiro caso, mais de 70 inscritos para uma vaga, não pude participar pois tinha uma publicação em que um dos candidatos era coautor. Na UFSCar, mais de 180 inscritos para sete vagas em três subáreas da química. Novamente tinha artigo publicado com candidato. Justa a interdição. Em ambos, havia candidatos da minha própria unidade.

Então chega o convite para a banca na Universidade Federal de Goiás. Nenhum artigo com nenhum inscrito (mais de 30). Porém, há um resumo de congresso com um dos candidatos que, na prática, eu não conheço bem e com quem não tenho nenhuma relação estreita que configure conflito de interesse. Minha colaboração é com o docente que foi orientador do candidato. A dinâmica já é bem conhecida: temos uma colaboração consolidada com um certo grupo de pesquisa; amostras são enviadas para que determinadas medidas sejam feitas. Ora, dificilmente o docente fará as medidas diretamente. As amostras então são encaminhadas para as mãos de um orientando. Por vezes o docente solicitante não conhece o aluno que efetivamente faz o trabalho experimental. Naturalmente o nome dessa pessoa será incluído em toda e qualquer produção que derive do experimento.

Temos uma série de regulamentos e um rito a seguir em todos os concursos. Que, inclusive, têm formatos diferentes nas universidades estaduais paulistas e nas universidades federais. Entre inúmeros controles, as dimensões da transparência desses ritos e garantia de isenção e imparcialidade das bancas são centrais. Possivelmente as mais importantes.

Sou docente contratada na USP em 2005. Após meu doutoramento, prestei dois concursos na USP, um no início e outro no fim de 2004, tendo passado nesse segundo. Esses dois episódios são exemplares sobre como eram, em média, os concursos de ingresso na USP há 20 anos: relativamente poucos inscritos, não raro menos do que quinze, em uma época em que o volume das interconexões de pesquisa entre os grupos era menor. De forma que não era realmente difícil organizar bancas de especialistas experientes e de alto nível.

A questão que coloco é: em tempos de grandes redes de colaboração, nacionais e internacionais, e concursos com um número alto de candidatos, como garantir bancas isentas, porém competentes e suficientemente experientes, para arbitrar e decidir a contratação de docentes que ficarão na universidade por algo em torno de 30 anos, provavelmente mais?

Atualmente muito se fala sobre a “qualidade” dos candidatos. As formas de fazer pesquisa e produzir conhecimento mudaram nos últimos 20 anos. De modo que, para deleite de uns e desespero de outros, “as qualidades” se deslocaram em relação ao perfil médio dos candidatos de 20 anos atrás. Sem contar outras dimensões como questões políticas e econômicas (atualmente, quão atraente é ser docente na universidade pública e na particular?). Há inclusive docentes engajados na discussão sobre o formato dos concursos de ingresso.

Há questões práticas que merecem atenção, como por exemplo o elevado número de inscritos que impõe dificuldades em manter uma banca presencial constituída por muitos dias; a possibilidade de realizar partes do concurso de forma remota etc. Me parece, contudo, que o ponto de partida para a reflexão sobre os concursos de ingresso e propostas de reformulação de seu formato é, para além de questões estritamente práticas, a mudança no perfil dos candidatos. Então discute-se muito se deve ou não haver uma prova escrita eliminatória; se a etapa eliminatória poderia ser a arguição de memorial; se concursos que valorizem mais (ou só) títulos e indicadores de produção e internacionalização seriam melhores, mais dinâmicos, mais modernos, mais alinhados com procedimentos adotados no exterior; e assim por diante.

Penso que devíamos também considerar a questão das bancas. Será que as muitas interconexões entre candidatos e potenciais avaliadores não têm pressionado e distorcido o perfil das bancas? Será que as bancas atuais tenderiam a ser compostas, por exemplo, de docentes em começo de carreira e, então, potencialmente pouco experientes? Podemos olhar a questão de forma otimista e concluir que a consequência das muitas interconexões entre candidatos e potenciais avaliadores areja as bancas, deslocando sua constituição de docentes com perfis mais consolidados, e por vezes com visões anacrônicas, dando oportunidade de participação para um número maior e mais variado de perfis docentes.

Seja sob uma ou outra perspectiva, creio que é premente reavaliar as definições do que configura conflito de interesse no eixo das produções científicas. Seriam resumos em congresso um caso? Publicações? Coparticipação em projetos de pesquisa? Sugiro a discussão da aplicação de um recorte temporal: resumos e publicações nos últimos cinco anos? Ou, talvez, um critério de frequência: a partir de um certo número de resumos, em um determinado recorte temporal, a conflito de interesse ficaria configurado.

Não tenho a resposta pronta. Mas deixo a provocação para uma reflexão mais detida sobre o tema.

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