domingo, março 15, 2026
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Em meio à emergência climática, o que pode ser considerado progresso? – Jornal da USP


Economistas e intelectuais debatem alternativas à lógica da acumulação com decrescimento econômico e desacoplamento

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Imagem de um grande incêndio em área verde.
Ter como objetivo constante o lucro imediato, obtido pela exploração de recursos finitos, ignora os limites materiais do planeta – Foto: Mayke Toscano/Secom-MT
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O que é progresso em um planeta à beira do colapso? Esta é a questão-chave de um debate que não perpassa apenas o campo ambiental, mas que atravessa o modo como a economia é pensada e praticada. A crítica à lógica do chamado crescimento econômico vem ganhando força entre intelectuais e economistas que buscam alternativas a um modelo de produção baseado na exploração contínua de recursos naturais finitos.

Quem inicia a reflexão é Jean Tible, professor de Ciências Políticas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “O cerne do capitalismo é crescer, acumular. E isso tem um custo que não é levado em conta na produção econômica — o custo do planeta”, afirma. Para ele, a continuidade de formas de vida na Terra está ameaçada pela essência predatória do sistema: “A continuidade disso é o inferno, são as chamas e uma degradação mais forte ainda com alguns sinais de que a classe dominante prefere dobrar a aposta”.

O decrescimento econômico

Jean François Germain Tible – Foto: fflch.

A perspectiva do decrescimento econômico, segundo Tible, não é nova. Desde a Conferência de Estocolmo da ONU, em 1972, quando surge a ideia de desenvolvimento sustentável, a noção de limites dos recursos naturais começa a se radicalizar: “Acho que, como desdobramento, vem essa ideia do decrescimento. O planeta visivelmente já não aguentava o sistema de produção. Ou seja, não aguentava o capitalismo”.

O professor aponta a contradição central da organização econômica atual: ter como objetivo constante o lucro imediato, obtido pela exploração de recursos finitos, ignorando os limites materiais do planeta. “Usa-se o que demorou milhões de anos para se formar, sem nenhum discernimento, como se a natureza fosse infinita. E isso se mostrou um equívoco grave e escancarado”, afirma. A ideia de crescimento permanente, segundo ele, esconde um empobrecimento real — do solo, do ar, da água, do trabalho e da própria vida.

Nesse sentido, Tible amplia a crítica ao mostrar o impacto sobre a vida humana: “É um sistema que oferece uma certa abundância relativa para um número limitado de pessoas, mas que mantém uma tragédia social de exploração. Mesmo hoje, uma das principais pautas colocadas é o fim da escala 6×1.” A crítica, que remonta a Karl Marx e sua denúncia da lógica da acumulação, mostra como o vínculo entre progresso e crescimento quantitativo agrava desequilíbrios. “Keynes achava que ninguém precisaria trabalhar mais de três ou quatro horas por dia, dado o avanço da produtividade. Mas o que aconteceu? Como há uma guerra de classes, o ganho foi para o lado dos poderosos. Trabalhamos mais hoje do que talvez na época dele”, observa.

Para Tible, o decrescimento não significa um retorno ao passado, mas a criação de novos modos de vida que rompam com a fantasia do produtivismo. “É uma proposta generosa de salvar a vida, a habitabilidade do planeta. Trabalhar menos e se dedicar às atividades coletivas talvez seja um caminho. Exemplos de outras sociedades — indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, agricultura familiar — oferecem inspirações possíveis.”

Essa inspiração, diz ele, está presente nas sociedades ameríndias que, com seus modos milenares de organização, representam a verdadeira vanguarda desse movimento. Ele lembra que a emergência climática, tema cada vez mais central, já é denunciada há séculos por xamãs, intelectuais e líderes indígenas. “Se a gente olhar o mapa do Brasil, há uma coincidência entre terras indígenas e preservação ambiental”, destaca.

O desacoplar

José Eli da Veiga – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Se Tible vê o decrescimento como ruptura, o economista José Eli da Veiga, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, prefere falar em reformulação profunda do pensamento econômico. Para ele, o problema não é o crescimento em si, mas a ausência de critérios sobre o que deve ou não crescer. “O que eu tenho que ver é o seguinte: o que merece e precisa crescer — e o que, na economia, precisa decrescer”, afirma.

Autor do livro O Antropoceno e o Pensamento Econômico, ele propõe uma nova leitura do desenvolvimento, com uma economia que incorpore os estudos das ciências naturais. Sua crítica se inicia na base dos estudos econômicos: “A primeira coisa que um economista aprende é um diagrama em que você tem as famílias, os mercados, as empresas. É um círculo fechado. Não entra nada, nem sai nada”. O professor critica esse raciocínio por ignorar as formas de energia que sustentam a vida e sua dissipação: “A luz do sol, que garante tudo, não entra no sistema econômico. E tudo o que fazemos gera sobras, que são descartadas no meio ambiente”.

Nesse sentido, Eli da Veiga destaca a importância de incorporar à economia o conceito de entropia: toda produção consome energia e materiais, parte dos quais é perdida de forma irrecuperável. “Isso significa que, um dia, a humanidade vai ter que se desenvolver sem crescer.” Em vez do decrescimento global, ele propõe o desacoplamento: fazer com que o crescimento econômico não dependa da exploração de recursos finitos. A ideia exige distinguir o que deve deixar de crescer — como o uso de combustíveis fósseis — e o que precisa se expandir — como as energias renováveis. “Você pega uma economia que sempre cresce impulsionada pelo desmatamento. Toda vez que há crescimento, aumenta o desmatamento também. Se concluímos que isso é ruim para o meio ambiente, precisamos desligar uma coisa da outra. É isso que o desacoplamento quer dizer.”

Centralidade do debate

A disputa central não é entre crescimento e estagnação social, mas sobre a redefinição do que se entende por desenvolvimento, diante dos limites ecológicos do planeta. A crítica à lógica da acumulação põe em xeque um modelo que dissocia progresso e sustentabilidade, ignorando os custos irreversíveis da destruição ambiental.

Entre o decrescimento e o desacoplamento, o debate contemporâneo aponta para a necessidade de reorganizar a economia com outras bases — em que crescer não seja sinônimo de esgotar. No fundo, a pergunta é menos semântica e mais estrutural: o que significa “progresso” num planeta à beira do colapso? Crescer até o fim? Ou parar antes do abismo?


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