domingo, março 15, 2026
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Jean-Claude Bernardet, um crítico visceralmente anticonformista – Jornal da USP


Em 1992, Bernardet contribuiu para a edição de 30 de março do Jornal da USP com o artigo No Mundo Inteiro o Cinema Está-se Transformando. Trata-se de uma análise da situação do cinema brasileiro no contexto da extinção da Embrafilme, em 1990, durante o governo Collor.

No artigo, o professor reconhecia a necessidade do financiamento público para produção nacional e apontava caminhos alternativos, como a presença dos grupos televisivos no cinema, algo que não existia na época. Mas, além disso, Bernardet afirmava que as reservas de mercado praticadas pelo poder público eram também um fator para distanciar realizadores e público, agravando a crise pela qual o cinema passava no início dos anos 1990.

“No meu entender, essa situação impediu que os cineastas ou parte deles se tornassem uma força social na sociedade brasileira. ‘Força social’ não remete aqui à temática dos filmes, mas à intensidade na relação com um público ou públicos”, escreveu Bernardet. “Um dos obstáculos da produção cinematográfica brasileira é que hoje, atrás dos cineastas, não há nada nem ninguém, estão isolados.”

Para o crítico, essa situação fez com que os realizadores se preocupassem muito com suas próprias produções, em um corporativismo responsável por deixar a relação com a sociedade em segundo plano. “A comunicação com o público acabou se colocando antes a um nível de desejo, de vontade ou mesmo de autojustificação, mas sem muita repercussão a nível da produção, dos temas, das formas de linguagem”, analisa Bernardet. “Pode-se dizer que o cineasta considerava ter vencido a parada desde que tinha conseguido produzir seu filme e tinha chegado à primeira cópia.”

Esse modelo, para o professor, havia alcançado seu auge nos anos 1970 e 1980, e sua crise ajudava a explicar o momento pelo qual o cinema nacional vivia. Diante disso, Bernardet acreditava que não bastava a volta de reservas de mercado ou financiamento público para tirar a produção brasileira da crise. Era preciso uma transformação da mentalidade dos próprios cineastas e das funções sociais dos artistas e de suas formas de produção. 

Como sempre, uma análise que mostrava uma realidade muito mais complexa do se gostaria à primeira vista.



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