No prefácio de Pele Negra, Máscaras Brancas — Editora da Universidade Federal da Bahia —, o filósofo americano Lewis R. Gordon escreveu: “houve uma época [durante as décadas de 1960 e 1970] em que um professor universitário norte-americano que tentasse abordar a obra de Frantz Fanon em um ambiente acadêmico estaria sujeito a perder o emprego”. Foi também no final dos anos 1960 que esse mesmo livro foi traduzido em Portugal, e circulou por um curto período de tempo antes de ser sumariamente censurado pela ditadura fascista portuguesa da época. Enfim, a França e outros grandes centros de poder nunca foram receptivos ao pensamento de Fanon.
No final de 2019, Priscilla visitou, primeiro, Paris, para onde retornaria quatro anos depois, em busca de rastros do psiquiatra — prontuários de hospitais onde trabalhou na Argélia ou na Tunísia. Procurando por acervos como o do Institut Mémoires de l’édition contemporaine (IMEC), ela encontrou, na verdade, muito pouco.
“Na França, Fanon é apagado e negligenciado. Primeiro, porque ele foi tomado durante muito tempo como filósofo ou autor da violência. E aí a gente tem que qualificar o que é violência, e ele faz isso no trabalho dele. Fanon aponta a importância da violência revolucionária e os limites dessa violência, ele faz uma compreensão do germe, da origem dessa violência dentro de um território colonial”, pontua a estudiosa.
Fanon escreveu extensamente sobre como, por exemplo, a linguagem era importante para a constituição do sujeito, tanto na posição de colonizador, como de colonizado. Quando se aprende uma linguagem, como ele aponta, também se aprende uma cultura.
“O que é importante entender nessa relação é: se a linguagem que nos humaniza nos torna humano, — vai dizer símbolos daquilo que a gente, pensando mais cotidianamente, vai amar, vai odiar, — como se faz essas marcas da linguagem na humanidade, ou em cada humano, quando se é profundamente atravessado por posições e relações sociais?”, explica a pesquisadora.
“O Fanon vai dizer que, se o negro existe, foi porque o branco criou, e no momento que ele cria o negro, ele cria o branco, ou seja, ele cria essas duas posições alienantes também. Para poder pensar o quanto isso faz com que você, no caso da criação do racismo, tenha que desumanizar o outro para se afirmar humano”, diz.
“O Fanon vai dizer, se o negro tem essa síndrome de inferioridade, então o branco tem uma neurose de superioridade”, completa.



