segunda-feira, março 16, 2026
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Da consistência lógica à paralógica da intuição criativa – Jornal da USP


Há 35 anos tive o privilégio de descobrir a noção de paralógica do matemático da USP Newton da Costa, quando organizava o Primeiro Seminário Transdisciplinar e a Crise de Paradigmas na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP). Ao visitá-lo em sua unidade acadêmica para preparar o encontro com outros pesquisadores de várias áreas de conhecimento e preparar o debate que se realizaria na ECA-USP, recebi do cientista que perdemos em abril de 2024, aos 94 anos, uma contribuição que havia repercutido internacionalmente e que, em resumo muito resumido, anunciava para além da lógica consistente, a paralógica das contradições na matemática. Por sinal, antes de morrer em Curitiba no ano passado, esse legado na voz viva do autor foi fixado em um documentário, O espírito das contradições (que se encontra na internet).

Se já me valia da produção simbólica dos cotidianos afetivos e da produção artística, plenos de sentidos paralógicos, foi para mim e para os grupos de pesquisa com os quais atuo, um acréscimo inestimável reconhecer a força da paraconsistência nos estudos e labores epistemológicos. O primeiro registro da coleção de livros que seguiu o seminário de 1990 na série Novo Pacto da Ciência, com doze títulos publicados, seminários nacionais e no exterior, ensaios e entrevistas que cultivam a transdisciplinaridade, certamente guardam a memória e a homenagem ao consagrado matemático brasileiro.

Nas trilhas do Saber Plural, três décadas de interrogantes, em e-book pela ECA-USP de 2022, retoma a contribuição de Newton dos Santos , já então retirado em Curitiba, que em 1953, ao lado do lógico polonês Stanislaw Jaskowski, em 1948, sem se conhecerem, caminharam na mesma direção da lógica paraconsistente. E na altura do primeiro contato em 1990, no seu gabinete da USP, o matemático brasileiro acrescentou com humildade que mesmo em Aristóteles já se vislumbrava a possibilidade de tal lógica.

No campo das humanas, então, como não reconhecer a legitimidade das contradições, ou melhor, do fértil campo em que as lógicas consistentes (necessárias ao conhecimento do conhecimento ou das epistemologias) se abra a compreensão também para as lógicas paraconsistentes. Nos cotidianos que palmilhamos e dessa observação-experiência em que colhemos símbolos, não há como negar as surpresas da criatividade intuitiva sem que seja freada pela escolaridade lógica. Aí quero chegar à historinha que me moveu para este texto na segunda semana de julho de 2025.

Assim: vou à ECA-USP encontrar orientandos de mestrado e doutorado, passo pela secretaria do Departamento de Jornalismo e Editoração e encontro uma pesquisadora amiga que não via há muito tempo. Abraços e conversas, recordações da Coordenaria (hoje Superintendência) de Comunicação da USP – no início do século Lígia Trigo dirigia a Rádio e eu era a coordenadora —, enfim atualizamos as vivências e eu não resisti de mostrar as fotos no celular de meu primeiro bisneto. Ao ver a mãe de Arlo, minha neta Alice, que vive aos 32 anos com seu companheiro belga na Europa, minha amiga imediatamente se espanta com os tempos de permeio e logo passa a narrar uma história que sempre repete em seus círculos. Vira para Fábio Quintino, o secretário que nos atende, e encena com graça o enredo que ouviu de mim quando Alicinha, de quatro para cinco anos, descendo com os avós para o litoral paulista ficou curiosa com os carros todos parados na estrada e o avô explicou que aquilo era um comboio para segurar o trânsito devido a algum problema mais adiante na Imigrantes. Aí na viagem seguinte para Mongaguá, no começo da rodovia, a menina perguntou: vô, hoje vamos descer com boio ou sem boio?

Damos boas risadas e logo dispara em mim o encanto da intuição criativa paralógica, nas crianças ou na arte, imprevisível. Já nas escolaridades e gramáticas lógicas nem sempre se permite a fruição do inventivo. Claro, é preciso reconhecer que as lógicas consistentes são conquistas contínuas do conhecimento e que o diga a mesma jovem mãe Alice Medina Ximenes, hoje graduada e pós-graduada nas academias europeias, profissional de uma empresa norueguesa de economia circular e às voltas com os oito meses do bebê Arlo. Por certo a sistematização do dia a dia na casa da Bélgica e na circulação profissional lhe exige lógicas consistentes diárias. Mas entre esses afazeres, muitos sujeitos hoje à parceria da IA, aí vai meu íntimo desejo: que haja janelas abertas para o respiro intuitivo-criativo da paralógica, com boio ou sem boio.

Mas quero voltar a Newton da Costa em outra atualização que ocorreu no ano passado, quando sugeri para uma oficina de Narrativas da Contemporaneidade online com o grupo 60+ escrevermos memórias da infância à idade madura em que há inúmeros exemplos da paraconsistência. O livro que reúne essa lembranças lúdicas contempla, no título, a inspiração do matemático: Criatividade nos cotidianos escolares – da consistência disciplinar à paraconsistência intuitiva, título lançado em 2025 pela Portal Edições. Estava às voltas com o término dessa coletânea, quando, em abril do ano passado, Newton da Costa nos deixou. A ele dedicamos o livro de 414 páginas que exalam uma inspiração nascida há 35 anos. Pena que, digo eu na dedicatória, ele não está mais aqui, “se estivesse entre nós, ouviríamos seu parecer sobre nossas narrativas ensaísticas da paraconsistência que neste livro lhe dedicamos”.

Também no ano passado, o homenageei num curso de curta duração na pós-graduação da ECA-USP, aí já depois de sua morte no segundo semestre. Foi gratificante debater com jovens mestrandos e doutorandos, com uma pós-doutoranda, os riscos da Inteligência Natural (IN) perante a invasão neural da Inteligência Artificial (IA) e mais ainda, a possível autonomia da IA Generativa. Mais uma vez aportamos em interrogantes: será a tecnologia avançada do século 21 capaz de ir além do acúmulo de dados consistentes para navegar em nuvens paraconsistentes? Ou será que a nova noção de neurocapitalismo colonizará e deserdará nossas intuições criativas?

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