quinta-feira, maio 14, 2026
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Lula reforça polarização nas redes para encobrir economia



Após ver frustradas as tentativas de recuperar sua popularidade com propagandas focadas em avanços econômicos e sociais, o PT e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificaram a campanha “Defenda o Brasil” – que acusa Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados de incitarem o presidente americano Donald Trump a aumentar a taxação de produtos brasileiros nos Estados Unidos. A ideia do PT é apostar em ataques visando um aumento da rejeição a candidatos da direita – que perdure até 2026, segundo analistas ouvidos pela reportagem.

Mas uma das peças de propaganda petista virou alvo de risos e críticas de aliados de Bolsonaro: um vídeo de uma das netas do presidente, Bia Lula, que de forma desastrada tentou imitar o estilo de comunicação do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) para defender o Pix (veja mais abaixo).

O PT e o governo lançaram nas redes sociais a campanha “Defenda o Brasil” no início do mês para tentar livrar Lula da responsabilidade sobre a ameaça de aumento de 50% das tarifas americanas de comércio e atribuir a culpa a Bolsonaro e seus aliados. Segundo analistas, a taxação está relacionada muito mais ao posicionamento antiamericano e de apoio a ditaduras adotado por Lula do que à influência da família Bolsonaro na Casa Branca.

Em uma dos mais recentes vídeos produzidos pelo Partido dos Trabalhadores para as redes sociais, o Brasil é retratado como um navio que “enfrentou muitas tempestades”, mas que “sempre seguiu em frente”. Com o uso de inteligência artificial para mostrar um rosto parecido ao de Bolsonaro, a campanha diz que há quem queira furar o casco para afundar o navio e jogar milhões ao fundo só para o “ex-capitão escapar” – em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O vídeo também mostra “os bilionários que acham que vão escapar” tomando champanhe e sorrindo.

Outra peça publicitária mostra os Estados Unidos como o “lobo mau” que tenta destruir a casa dos três porquinhos, que é feita com Pix. Ela é uma crítica a Washington ter aberto investigação sobre o sistema de pagamentos eletrônicos do Banco Central do Brasil, que concorre localmente com o sistema mundial de operações bancárias SWIFT. Há ainda um vídeo dizendo que patriotas “batem continência para outra bandeira e bajulam Trump”.

“O governo não tem histórico de defesa de tons patrióticos ou de ideologia de soberania nacional. A esquerda, historicamente, sempre foi internacionalista e considerou o nacionalismo uma afetação burguesa que servia aos propósitos de dominação da classe dominante. Isso é um ponto que eles não têm como sustentar por muito tempo”, ressaltou o cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI).

Segundo o especialista, o ponto forte dessa estratégia está em tentar enfraquecer Bolsonaro e seus aliados para as próximas eleições. “Essa campanha tem mais sucesso em aumentar a rejeição de Bolsonaro ao associá-lo a Trump, que é visto como alguém que pode prejudicar a economia brasileira com tarifas de 50% e outras sanções. Mas é uma estratégia cujo benefício tende a ser decrescente com o tempo”, destacou.

Em paralelo aos vídeos, Lula continua criticando os Estados Unidos por meio de declarações em eventos e entrevistas. Em discurso durante um evento na cidade de Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, Lula afirmou que Trump está blefando, uma estratégia comum no jogo do truco – quando um jogador finge que tem cartas boas para intimidar o adversário.

“Ele nos deu até o dia 1º. Se não dermos uma resposta, vai taxar nosso comércio em 50%. Contar uma coisa para vocês: não sou mineiro, mas sou bom de truco; se ele estiver trucando, vai tomar um seis. O Brasil está acostumado a negociar. Já tínhamos feito 10 reuniões com os EUA”, disse Lula na quinta-feira (24).

A estratégia anterior para alavancar a popularidade do governo era investir nas entregas da gestão Lula, como os programas “Fé no Brasil” e “Mais dinheiro no bolso”, lançados entre 2023 e 2024. Contudo, as iniciativas não conseguiram convencer o eleitorado moderado nem o setor produtivo, deixando o governo exposto a críticas por falta de resultados concretos.

Apenas após intensificar o enfrentamento político contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Lula voltou a registrar melhora de aprovação, indicando que o petista ainda depende da radicalização para reativar sua base mais fiel.

Segundo o levantamento mais recente, do Ipespe, o chefe do Executivo é desaprovado por 51% da população brasileira. Em comparação com o levantamento de maio, houve uma queda na desaprovação, que antes era de 54%. A aprovação do governo pelos brasileiros foi de 43%, em comparação com os 40% registrados na pesquisa de maio.

Ao todo, 2.500 pessoas foram entrevistadas entre os dias 19 e 22 de julho, com idade a partir de 16 anos, em todas as regiões do país. A margem de erro da pesquisa é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95,45%.

Neta de Lula foi ridicularizada nas redes sociais por gafe com informação histórica

A crise do Pix e o escândalo de fraudes do INSS mostraram que um deputado federal como Nikolas Ferreira (PL-MG) obtinha mais força política do que as campanhas do Executivo nas plataformas. Nikolas obteve milhões de visualizações no início do ano explicando como o monitoramento do Pix pelo governo poderia dar margem a uma elevação na cobrança de imposto de renda pela Receita Federal e Lula teve que recuar

Nesse contexto, o vídeo publicado por Bia Lula, neta de Lula, é avaliado como uma tentativa dos apoiadores do atual presidente de se posicionarem entre os jovens sem orientação política definida. Com uma roupa simples e um fundo preto, semelhante aos vídeos feitos por Nikolas, a jovem de 29 anos publicou uma gravação na terça-feira (22) criticando os Estados Unidos e colocando o governo Lula como defensor do Pix contra Washington. No entanto, a gafe cometida pela jovem foi o que mais se destacou no meio digital.

Na gravação, ela afirma que os Estados Unidos exploram o Brasil há 500 anos, mas o país ficou independente em 1776 e tem, portanto, 249 anos. “Gente, o Pix foi criado pelo Banco Central, por técnicos brasileiros. E sabe quem está defendendo o Pix agora? Quem está enfrentando Trump para mantê-lo gratuito? É o Lula. Porque o Bolsonaro já teria entregado tudo de bandeja para os americanos. Eles não suportam ver o Brasil livre. Por 500 anos, nos escravizaram, nos exploraram, nos mantiveram de joelhos, e agora que levantamos a cabeça, eles querem nos quebrar”, disse a neta de Lula. O erro fez ela sofrer ataques nas redes que relacionavam seu nível de conhecimentos ao de Lula.

Comparando a atuação de Nikolas e Bia, o cientista político Adriano Cerqueira, professor do Ibmec de Belo Horizonte, afirmou que o sucesso político nas redes não se resume apenas à estética, mas sim à capacidade de repassar o discurso que engaja. Na avaliação dele, o deputado mineiro sai em vantagem por entender esse princípio.

“Não é só uma questão de saber usar redes sociais. O Nikolas é um grande orador mesmo. Recentemente, na Câmara dos Deputados, ele fez um discurso improvisado excelente sobre as medidas do ministro Alexandre de Moraes contra Bolsonaro. Hoje, considero-o um dos grandes oradores”, disse Cerqueira.

Sobre o vídeo da neta de Lula, ele acrescentou: “Foi uma tentativa desastrada, cometendo um erro terrível de antiamericanismo infantojuvenil. Isso mostra claramente a incapacidade da esquerda hoje de se contrapor ao Nikolas”, avaliou.

Governo buscou atrair jovens com economia, mas partiu para polarização após fracasso

Nos últimos dois anos, o governo Lula investiu recursos significativos para tentar dialogar com o público jovem por meio de pautas econômicas, destacando, por exemplo, a campanha “Mais Dinheiro no Bolso”, em 2023. O formato escolhido para os vídeos de propaganda foi o estilo reacts, uma gravação na qual o autor opina sobre outros vídeos que circularam nas redes sociais. A iniciativa tinha a intenção clara de alcançar um eleitorado menos sensível à polarização política, apostando em temas como recuperação econômica, consumo e inclusão financeira.

No início de 2025, em busca de uma conexão mais ideológica com os jovens, o Planalto avançou em um discurso nacionalista, promovendo críticas diretas a Donald Trump, que chegou a ser associado a retóricas históricas controversas, gerando debates e reações negativas nas redes sociais e na imprensa. O escolhido pelo governo Lula foi “O Brasil para os brasileiros”.

A gestão petista chegou a utilizar a queda do desemprego, atualmente em 6,2%, como indicativo de melhora econômica, mas não obteve sucesso devido à falta de percepção de melhora de vida por parte do público.

A situação só mudou quando o governo resolveu investir na polarização explícita. A disputa em torno do aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) pelo Congresso Nacional em junho de 2025 foi um marco nesse sentido. Ao monitorar e incentivar críticas nas redes sociais contra o Legislativo, o Planalto conseguiu engajamento e apoio expressivo entre jovens usuários, especialmente no ambiente digital, utilizando o discurso contra os ricos como um ativo político para recuperar relevância.



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