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Espetáculo sobre egressos do cárcere desafia preconceitos – 29/07/2025 – Mise-en-scène


Em um país onde o sistema prisional é uma máquina de exclusão — superlotado, racializado e violento —, a peça “A Boca que Tudo Come Tem Fome (Do Cárcere às Ruas)” surge como um grito inevitável. A Companhia de Teatro Heliópolis, com mais de duas décadas de trajetória nas periferias de São Paulo, transforma histórias em espelhos, obrigando o público a encarar de frente a realidade de quem tenta reconstruir uma vida após a prisão. A pergunta central da obra é incômoda, mas imperiosa: o que significa, de fato, ser livre quando a sociedade insiste em te trancar fora dela?

A peça acompanha seis personagens que carregam nas costas o peso do cárcere — não é só memória, mas uma marca que persiste no corpo, nos gestos e nos olhares atravessados que recebem. A liberdade, aqui, não é um ponto final, e sim um labirinto de portas fechadas: o preconceito, a dificuldade de emprego, a desconfiança que transforma cada tentativa de recomeço em uma batalha. O título não é por acaso: a “boca” é a sociedade que devora possibilidades, e a “fome” é a dos que lutam por dignidade em um sistema que os quer invisíveis.

Nesse caminho árduo, a peça introduz Exu, o orixá das encruzilhadas, como uma força dramática que desafia os personagens (e a plateia) a enfrentar as escolhas cruciais do pós-cárcere. Exu aqui é o “destrancador de caminhos”, a voz que lembra que a prisão não define um destino, mas também não desaparece por vontade própria. Sua presença traz uma dimensão espiritual e política, enraizada na cultura afro-brasileira — uma afirmação potente em um sistema que aprisiona majoritariamente corpos negros.

A encenação de Miguel Rocha reforça essa jornada de dor e resistência com um elemento visual impactante: um espelho d’água que domina o palco. A água reflete, mas também afoga; purifica, mas pode arrastar. É ali que os personagens se veem, confrontando o passado e o futuro incerto. Essa imagem sintetiza o paradoxo da peça: sair da prisão física é só o começo. O verdadeiro cárcere está na sociedade que nega oportunidades, que transforma “ex-presidiário” em uma sentença perpétua.

O projeto por trás da peça — “Do Cárcere às Ruas” — mostra que a Heliópolis quer provocar mudanças. Os debates públicos realizados paralelamente à montagem revelam um teatro que não se encerra no palco, mas que exige diálogo, ação e um enfrentamento coletivo dessa realidade.

Num Brasil que naturalizou o encarceramento em massa como “solução” e a exclusão como norma, “A Boca que Tudo Come Tem Fome” é um ato de resistência. Ela coloca o espectador diante de uma pergunta incômoda: qual é o seu papel nesse sistema? Afinal, enquanto a sociedade continuar acreditando que algumas vidas valem menos, a prisão nunca terminará atrás das grades. Ela estará nas ruas, nos olhares, nos silêncios que condenam. O teatro, aqui, é a ferramenta que rasga esse véu.

Três perguntas para …

… Miguel Rocha

Como você acredita que o teatro pode contribuir para a discussão sobre a reinserção social de egressos e para desmistificar preconceitos em torno dessa população?

Para nós da companhia, o teatro é uma ferramenta de comunicação – de partilha de pontos de vista, experiências e estética. A questão dos egressos se tornou urgente a partir da nossa pesquisa continuada sobre o tema nos últimos anos. Começamos pela justiça, passamos pelo cárcere e agora abordamos o pós-cárcere, que ainda carrega fortemente as memórias do encarceramento.

Entendemos o teatro como espaço de reflexão e discussão, onde podemos apresentar à sociedade perspectivas sobre temas importantes. Nos interessou especialmente compartilhar as experiências de quem passou pelo sistema prisional e transformar essas histórias em teatro – tanto para apresentar essas questões ao público quanto para abrir espaço a diferentes leituras.

É fundamental observar como o público reage, pois são temas complexos: envolvem preconceitos, mas também atos concretos – afinal, essas pessoas transgrediram códigos sociais estabelecidos. Sempre destacamos que elas têm o direito de reconstruir suas vidas, retomar trabalhos e vínculos afetivos, porque a vida continua.

Esses debates, com diferentes pontos de vista relacionados às experiências de cada um, iluminam o assunto e podem ajudar a desconstruir preconceitos.

A cenografia de Telumi Hellen, com o espelho d’água, é um elemento marcante. Poderia explicar mais sobre a concepção e a função dessa escolha cênica?

Temos trabalhado para contar essas histórias de forma viva, de modo que se tornem parte da memória coletiva brasileira sobre violência, mas sem nunca perder a essência teatral.

Elementos como cenografia, música e luz são fundamentais. Pensamos a cenografia como espaço. Não apenas como cenário, mas como ambiente onde as narrativas se desdobram, permitindo múltiplas leituras.

No nosso processo, a água surgiu como elemento central durante diálogos com a Telumi, mas principalmente a partir das histórias ouvidas. O cárcere é um lugar onde sentimentos são contidos – não há espaço para expressar emoções, pensamentos ou compreender plenamente a realidade daquela convivência superlotada e precária.

Quando essas pessoas saem, vivem uma avalanche emocional, um transbordamento. A água representou para mim justamente isso: sentimentos aprisionados que precisam desaguar.

O espelho traz outra camada – o reflexo de si mesmo e da sociedade. A água também carrega o simbolismo da purificação, que pode ser violento e devastador. Nesse campo simbólico, construímos toda a cenografia.

A peça levanta a questão: “o que significa recuperar a liberdade?”. Qual a sua perspectiva pessoal sobre essa pergunta, especialmente no contexto das dificuldades enfrentadas pelos egressos?

A liberdade é complexa. Nossos encarceramentos vão além das prisões físicas – estamos constantemente presos a amarras sociais difíceis de romper. A própria ideia de liberdade se torna utópica, pois vivemos guiados por regras invisíveis que moldam nosso comportamento.

Um semáforo simboliza isso: aprendemos a conviver, respeitando quando devemos avançar ou esperar. Mas para quem sai do cárcere, o desafio é maior, pois além dos problemas que levaram essa pessoa à prisão, ela enfrenta preconceitos e obstáculos ao tentar se reinserir.

Como diretor, me questionei: essas pessoas estão realmente livres? Nossa identidade é construída pelo olhar alheio, e nossas “escolhas livres” muitas vezes são conduzidas por heranças invisíveis – memórias e aprendizados que reproduzimos, desde a infância, sem perceber. A verdadeira liberdade talvez seja ilusória.

Sesc 14 Bis – r. Dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, região central. Qui. a sáb., 20h. Dom., 18h. Até 3/8. Duração: 135 minutos. A partir de R$ 18 (credencial plena), em sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades.



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