Realizado em Belo Horizonte, “33º Simpósio Nacional de História” contou com palestras de pesquisadoras consagradas, como Kim D. Butler e Laura de Mello e Souza
Por Silvana Salles

O protagonismo de mulheres que fizeram história e o trabalho de outras mulheres que escreveram sobre essas trajetórias foram os grandes homenageados na 33ª edição do Simpósio Nacional de História, evento organizado pela Associação Nacional de História (Anpuh) que aconteceu entre os dias 13 e 18 de julho em Belo Horizonte (MG). A história das mulheres abriu e fechou o evento, pois foi tema tanto da conferência de abertura de Kim D. Butler, professora da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos, quanto da conferência de encerramento da professora Laura de Mello e Souza, docente da USP e da Universidade Sorbonne, na França.

A historiografia mais antiga e tradicional tratou por muito tempo os homens como os protagonistas dos grandes acontecimentos. As inovações de métodos e temas de pesquisa que se sucederam ao longo do século 20 mudaram radicalmente a história profissional. Os historiadores se afastaram das práticas dos antigos cronistas reais que os antecederam, os grandes eventos deixaram de ser os carros-chefes das produções historiográficas, histórias de resistência ganharam projeção, e as trajetórias de pessoas comuns passaram a ser valorizadas. Foi por influência dessas inovações e da ação dos movimentos sociais que a história das mulheres ganhou impulso a partir dos 1960. Hoje, é um campo de estudos consolidado.
A historiadora Kim D. Butler é considerada por seus pares uma referência nos estudos da diáspora africana. O foco de seus trabalhos é a história do Brasil, da América Latina e do Caribe. Seu primeiro livro publicado no Brasil, intitulado Diásporas Imaginadas: Atlântico Negro e Histórias Afro-Brasileiras, saiu em 2020 e tem coautoria de Petrônio Domingues. Em sua conferência em Belo Horizonte, Kim discutiu o papel das mulheres negras na construção da comunidade afrodiaspórica. A ideia foi propor uma reflexão sobre a disciplina da história e sua relação com os sujeitos periféricos.
“Como acadêmica que trabalha a história negra, a diáspora africana e, ainda, fazendo história brasileira nas universidades norte-americanas, meu trabalho sempre vem das margens. Como mulher negra, da classe trabalhadora, eu venho das margens para o mundo acadêmico. O que a gente escreve e sobre quem escrevemos sempre é uma reflexão sobre as dinâmicas do poder no presente”, disse a historiadora estadunidense.

Para ela, a questão do poder é central porque o estudo da diáspora africana tem de enfrentar uma série de lacunas na historiografia. “Como podemos acessar arquivos que não se parecem com os arquivos que nós já conhecemos?”, questionou a professora, destacando a importância de ferramentas como a história oral e o estudo da cultura material. Essas ferramentas possibilitam aos historiadores recolher informações que muitas vezes não foram escritas e não estão guardadas nos arquivos públicos. “Nós temos a tarefa de Ísis, de juntar todos os fragmentos para dar uma visão mais holística e integrada”, disse, fazendo referência ao mito da deusa egípcia.
Durante a conferência, Kim destacou o protagonismo de mulheres como Cécile Fatiman, sacerdotisa que fez o ritual de preparação para a Revolução Haitiana, Henrietta Vinton Davis, uma dos principais articuladores da Associação Universal para o Progresso Negro (UNIA, na sigla em inglês), da qual Marcus Garvey foi a figura mais famosa, as irmãs Paulette e Jean Nardal, nascidas na Martinica e formadas na Sorbonne, em Paris, e a cantora sul-africana Miriam Makeba, que foi uma ativista contra o regime do Apartheid em seu país.
A historiadora celebrou também a recente atenção que os trabalhos de Beatriz Nascimento, Djamila Ribeiro e Denise Ferreira da Silva têm ganho nos EUA. Mas lembrou que “a história não é imune à realidade política”. Ela relatou que, há cinco anos, com o movimento progressista Black Lives Matter, ganharam espaço em seu país muitas denúncias, questionamentos a monumentos e histórias escritas de outras maneiras. Com o atual governo de Donald Trump, a situação se inverteu, com a remoção de livros das bibliotecas e uma longa lista de termos sujeitos à censura. Kim D. Butler contou que ela própria teve seu financiamento de pesquisa cortado pelo governo Trump. “A vocês que querem estudar nos EUA, não sugiro”, alertou a historiadora, lembrando casos recentes de deportação de estudantes.
Um texto de mulher
Laura de Mello e Souza, por sua vez, escolheu homenagear uma de suas autoras preferidas para a conferência de encerramento do evento. Laura é professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Após sua aposentadoria na USP, assumiu a cátedra de História do Brasil na Sorbonne. Em 2024, a professora foi contemplada com o Prêmio Internacional de História, concedido pelo Comitê Internacional de Ciências Históricas. Indicada pela Anpuh, ela foi a primeira mulher a receber esse prêmio. Entre seus principais trabalhos estão os livros Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII e O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial, bem como a organização do primeiro volume da coleção História da vida privada no Brasil.

Em sua conferência, Laura resgatou o trabalho da historiadora norte-americana Natalie Zemon Davis, que classificou como uma de suas mais importantes influências profissionais. Nascida em 1928 em Detroit, nos EUA, Natalie Zemon Davis faleceu em 2023, no Canadá. Lecionou nas universidades Brown, Princeton e da Califórnia em Berkeley, nos EUA, e na Universidade de Toronto, no Canadá. Comunista e militante feminista, foi uma pioneira da história das mulheres. Ao lado de seu marido, o matemático Chandler Davis, foi vítima da perseguição macarthista. “A vida dela é uma vida de romance. Eu poderia tranquilamente fazer a conferência só sobre vida dela”, disse a docente da USP.
O trabalho historiográfico de Natalie Zemon Davis teve grande impacto internacionalmente. No entanto, hoje ela é pouco conhecida no Brasil. Entre seus livros que tiveram edições brasileiras, estão Culturas do povo, sobre a França do século 16, Nas margens, que reconstitui as histórias de vida de três mulheres que viveram no século 17, e Histórias de perdão (originalmente, Fiction in the archives), resultado da pesquisa de Natalie com cartas de perdão datadas do século 16, guardadas em arquivos franceses. Essas cartas, escritas ou ditadas por pessoas acusadas de crimes, eram dirigidas ao rei, pedindo clemência.
Segundo Laura, a produção da autora bebeu muito de sua proximidade com a antropologia. Sua escrita tem como característica central os exercícios de descrição densa, inspirados nos métodos do antropólogo Clifford Geertz. O resultado é uma “história ardente” ou “história cheia de paixão”, que usa de recursos da literatura para dar vida às suas personagens históricas. Natalie escreveu livros concisos, “pródigos em imaginação histórica”. A professora da USP contou que conheceu o trabalho da autora no início de sua carreira acadêmica, por meio de dois artigos publicados nos anos 1970. A escrita de Natalie lhe causou, ao mesmo tempo, espanto e alento. “É um texto que a gente lê e imediatamente sabe que é de uma mulher”, disse Laura.
Natalie também trabalhou com cinema. Ela escreveu o roteiro do filme francês Le retour de Martin Guerre (O retorno de Martin Guerre), de 1982, estrelado por Gérard Depardieu. O filme conta a história real do julgamento de um caso de roubo de identidade na França do século 16. Martin Guerre deixa sua jovem esposa para lutar em uma guerra. Anos depois, retorna à sua vila e é bem recebido por sua esposa, família e amigos. No entanto, esse Martin Guerre retornado era um impostor. O depoimento da esposa, Bertrande, foi o que definiu o resultado do processo. Em uma entrevista, Natalie afirmou que ver os atores dando vida aos personagens a ajudou a identificar as lacunas da história que queria contar no livro de mesmo nome. No livro, a autora pondera que o impostor pôde viver por algum tempo como se fosse Martin Guerre porque, “talvez”, ele fosse uma companhia mais agradável para Bertrande do que o marido original.
Ao longo de anos, Laura de Mello e Souza manteve uma relação de correspondência com Natalie Zemon Davis. Mas nunca conseguiu encontrá-la pessoalmente. Em uma primeira tentativa de trazê-la ao Brasil, com apoio financeiro da Fapesp, Natalie teve de declinar do convite devido a um problema familiar. Depois, houve outros desencontros. Apesar disso, a professora da USP recorda com carinho da correspondência afetuosa e interessada que trocaram.
Troca de direção
A programação do 33º Simpósio Nacional de História contou com seis dias de roteiros históricos, palestras, mesas-redondas, simpósios temáticos, minicursos e atividades culturais. O evento foi sediado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Além de Kim D. Butler e Laura de Mello e Souza, também ministraram conferências a escritora indígena Márcia Mura e os historiadores Marisa Massone, Renato Pinto Venâncio e Ana Zavala.
O Simpósio Nacional de História ocorre a cada dois anos e oferece um espaço de troca para os pesquisadores que têm trabalhos em andamento. O evento também marca a passagem de gestão da associação organizadora. As professoras Ana Maria Veiga, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e Rita Marques, da UFMG, apresentaram os principais resultados da gestão da Anpuh no biênio 2023-2025, que incluíram o lançamento do Prêmio Orí Beatriz Nascimento de Intervenção Social e Produtos Técnicos e uma investigação sobre a atuação da organização Brasil Paralelo na disseminação do negacionismo histórico em espaços acadêmicos.
Para o biênio 2025-2027, assumem a direção da Anpuh os professores Francivaldo Alves Nunes, da Universidade Federal do Pará, e Paulo Eduardo Dias de Mello, da Universidade Estadual de Ponta Grossa, no Paraná. O professor Marcos Abreu Leitão de Almeida, da FFLCH, assume o cargo de secretário-geral.






