segunda-feira, março 16, 2026
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Trumpismo, modo de usar – Jornal da USP


Enquanto Mao Ze Dong disfarçava autoritarismo com ideologia, a nova direita global escancara seu projeto de poder baseado em brutalidade, negócios e desprezo pela lei

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Seria arriscado, mesmo temerário, calcular no momento o quanto, como e onde exatamente o governo Trump promoverá o maior caos. Trump e sua trupe de direita não economizarão estragos : o secretario de Estado Marco Rubio, o vice presidente J. D. Vance, o profeta orgânico Steve Bannon, e principalmente os visíveis e insidiosos interesses das Bigtechs & cia. Sob a batuta deles florescerão cem flores, parafraseando um lema de Mao Ze Dong em 1956.

As tais cem flores, ou diversidade de opinião, não passava de uma armadilha pra incentivar os ingênuos a expressar suas opiniões, serem identificados e devidamente eliminados. A vigarice, aliás, é um dos principais componentes da personalidade psicopata. Se é vermelha (comunista entre aspas) ou laranja (‘make américa great again), tanto faz. O legado de Mao deu na Revolução Cultural (1966-76), aquela em que professores usavam chapéu de burro e eram espancados pelos estudantes, e que era apenas uma manobra para liquidar qualquer veleidade de dissidência, e usar uma gangue de devotos, entre eles sua mulher (renomeados pejorativamente, depois, a Camarilha dos Quatro) para retomar seu poder tirânico, monocrático.

A Mao não faltava astúcia e sutileza. Era seu modo de usar: tudo e todos em prol de sua agenda pessoal de poder. O mesmo não se pode dizer do modo de usar do trumpismo, embora haja velhacarias parecidas. Em vez da sagaz hipocrisia, a diplomacia do porrete. Em vez de habilidosos ardis, usam intimidação, chantagem, ameaças candidamente toscas e grosseiras. E em vez do pretexto ideológico, acenam com um saco de gatos doutrinário, cujo único denominador comum é a xenofobia e o delírio de grandeza.

A grande Muralha que separa Mao de Trump & cia é que estes últimos são homens de negócios que se lixam para a lei e não escondem o fato, pois o Deus acima de tudo chama-se lucro. O venerável e obsoleto Mao brandia o livrinho vermelho de seus pensamentos para exibir coerência e cimentar coesão. Era apenas um politico que ocultava sua vaidade invocando a promessa do éden terreno. Os atuais donos do Ocidente não se dão ao trabalho de falsificar suas metas com fantasias grandiosas. Podem ser neurastênicos e muito, muito vulgares, mas a sinceridade de suas declarações é comovente. Não querem a glória, como queriam Mao, Napoleão ou Mussolini. Querem, simplesmente, a grana.


Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.

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