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Livro aborda as diferentes fases da indústria fonográfica no Brasil – Jornal da USP


Obra do professor da USP Renato Vicente está disponível no Portal de Livros Abertos da USP

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Capa de livro com desenho abstrato.
Imagem: Divulgação

 

Ao longo dos anos, a indústria musical brasileira passou por transformações e crises – algumas delas causadas por questões geopolíticas e tecnológicas – até chegar à atualidade. No livro Da Vitrola ao iPod: Uma História da Indústria Fonográfica no Brasil, o professor Renato Vicente, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, se propõe a investigar a fundo as fases pelas quais a fonografia brasileira passou ao longo dos anos e as reorganizações feitas por parte do mercado e dos artistas. Originalmente publicado em 2014, o livro tem sua origem na tese de doutorado de Vicente, defendida em 2002, na ECA, sob orientação do professor Waldenyr Caldas. Agora, em 2025, a obra ganha nova edição revista, num momento em que o autor acredita que o último processo de reorganização está chegando ao fim. Da Vitrola ao iPod está disponível gratuitamente no Portal de Livros Abertos da USP.

Homem de cabelos grisalhos segurando um microfone.
O professor Eduardo Vicente – Foto: CV Lattes

O primeiro capítulo do livro é dedicado à indústria global, com forte ênfase nos Estados Unidos. Afinal, tudo o que aconteceu no Brasil a partir dos anos 1960 é consequência daquilo que ocorreu no mercado estadunidense, onde, na década de 1950, aconteceu a primeira grande crise da indústria fonográfica. Nos primeiros anos após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), umas poucas grandes empresas (as majors) controlavam toda a indústria fonográfica nos Estados Unidos, no modelo conhecido como “integração vertical”. A partir da segunda metade dos anos 1950, até o final da década de 1960, a indústria foi obrigada a se diversificar, em razão da emergência de um mercado que tinha o jovem como foco e do surgimento de novos meios de gravação e de suporte para a música, incluindo a televisão. Isso fez com que mais artistas surgissem e, com eles, selos independentes (indies).

Para contornar essa crise, as majors acabaram por adotar o chamado “sistema aberto”, que permitia que elas coordenassem, direta ou indiretamente, aquilo que era produzido também pelas indies, por meio da absorção dessas e da distribuição do que elas faziam. Juntou-se a esse cenário o crescimento da venda de LPs (long plays), em detrimento dos compactos, o que foi influenciado pelo rock. Os LPs faziam com que o público tivesse um maior vínculo com o artista, em vez de apegar-se a uma música apenas.

Enquanto a primeira crise nos Estados Unidos teve como causa um problema de demanda, a segunda crise, do final da década de 1970, teve origem num problema de oferta, vinculado a uma “saturação no mercado doméstico”, como escreve Vicente. A população estava mais envelhecida, o país vivia uma recessão econômica e, além disso, as tecnologias recentes já haviam democratizado a possibilidade de gravação das músicas pelos próprios consumidores, sem que tivessem que comprá-las. Essa crise foi contornada apenas na década de 1980, por meio de investimentos no mercado externo, o que se deu, por exemplo, graças ao surgimento de grandes artistas, que extrapolavam, em alcance, os países anglo-saxões, como Michael Jackson e Madonna.

Esse primeiro capítulo termina com uma reflexão sobre as majors e as indies: enquanto as grandes passaram a se vincular a grandes conglomerados de mídia e de entretenimento, as pequenas cresceram graças à queda de custos e à fragmentação do mercado. Havia, ainda assim, uma relação de dependência estratégica, liderada pelas majors. “O crescimento das empresas independentes passa quase que inevitavelmente pelo estabelecimento de acordos de licenciamento ou distribuição com majors”, destaca Vicente.

Crise e reorganização no Brasil

Os outros quatro capítulos do livro tratam da música no Brasil. A consolidação da indústria fonográfica no País se deu nas décadas de 1960 e 1970, conforme descreve Vicente no segundo capítulo, devido à “consolidação do mercado de bens culturais”. Agora, ainda que o Brasil estivesse vivendo o período da ditadura civil-militar (1964-1985), o empresariado privado — com foco nas majors estrangeiras — detinha o controle da indústria musical no País, e não mais o Estado. O início desse período foi marcado pela forte presença de lançamentos internacionais no Brasil, o que era benéfico financeiramente para as majors, que não precisavam arcar com custos de produção e de gravação, por exemplo.

Apesar disso, a internacionalização definitiva nunca se deu por completo. No início dos anos 1970, por exemplo, passou a ser comum a adoção da língua inglesa e da postura internacional por parte de artistas locais, a fim de se destacarem, enquanto, para tentar promover a música brasileira, o governo criou leis de incentivos fiscais. Aos poucos, a produção brasileira se racionalizou, dividindo e especializando — mas, também, integrando — os ramos artístico, técnico, comercial e industrial, de modo que, ao final da década, as gravadoras nacionais assumiram “um papel similar ao reservado às indies nos países centrais”, de acordo com Vicente. Isso fez com que as gravadoras nacionais se limitassem ao mercado de discos econômicos, como o sertanejo, de modo que a MPB e o samba ficassem nas mãos das majors e o restante fosse marginal.

No terceiro capítulo, a crise dos anos 1980 no Brasil é o foco. Desta vez, a razão é muito simples de ser compreendida: o País vivia uma instabilidade política e econômica decorrente dos impactos da ditadura. O Brasil experimentava, agora, uma crise de demanda: com dívida externa, inflação e desemprego nas alturas, todos foram atingidos, em especial as empresas menores, e o consumidor ficou mais conservador. O crescimento da pirataria, a transmissão de música pelas rádios (que podiam ser gravadas) e o envelhecimento dos grandes artistas brasileiros de décadas anteriores foram outros fatores que geraram a crise. Com isso, a reestruturação do mercado musical brasileiro deu-se por meio da redução de gastos e do foco em artistas específicos e domésticos, já que o mercado internacional parecia não ser mais tão atrativo. A adoção do Plano Cruzado, em 1986, também teve papel importante na recuperação econômica.

Com uma produção racionalizada, quatro gêneros populares se destacaram no período: o popular romântico, o sertanejo, o rock nacional e a música infantil. Paralelamente a isso, a cena independente se desenvolvia com um papel crítico, e passou a tomar conta de todas as etapas de sua produção, assumindo, também, um lugar de formação de novos artistas. A segunda metade dos anos 1980 trouxe, assim, um retorno ao crescimento, aliado à segmentação das vendas e ao surgimento de novas tecnologias no País, como os CDs.

O capítulo quatro de Da Vitrola ao iPod destaca os anos 1990 como uma intensificação daquilo que a década anterior plantou. Desta vez, foi o Plano Real, em 1994, o responsável por trazer estabilidade econômica, após um princípio de crise no início da década. Com isso, a indústria passou a investir numa variação maior de gêneros, vinculados às diferentes idades, classes e regiões, por exemplo. Nesse cenário de segmentação, circuitos autônomos ligados ao hip-hop, ao funk, à música religiosa e ao forró passam a ter espaço. Isso deu destaque ao que o autor chama de “cena underground”, no eixo Rio-São Paulo. A concentração econômica e o modelo de sistema aberto adotado no Brasil, porém, persistiam e, ao final da década, o mercado passou por uma nova crise, associada ao surgimento das novas mídias.

No quinto e último capítulo do livro, Vicente traça um panorama sobre a segmentação musical no Brasil entre os anos de 1965 e 1999. Para ele, a variação de gêneros pelo mercado tinha muita influência comercial e industrial, para além de cultural. A conclusão do professor é que o momento econômico vem, sempre, em primeiro lugar: por meio de uma análise de vários gêneros ao longo do tempo, ele detecta que a indústria varia entre padronizar e diversificar sua produção tendo em vista suas próprias estratégias mercadológicas. Ele finaliza fazendo uma contextualização do cenário musical brasileiro no início dos anos 2000, quando defendeu sua tese, destacando as gravadoras ativas no País e o papel das entidades de regulação do mercado fonográfico para o desenvolvimento da indústria musical no Brasil.

O livro Da Vitrola ao iPod: Uma História da Indústria Fonográfica no Brasil, do professor Renato Vicente, está disponível gratuitamente no Portal de Livros Abertos da USP.

* Estagiário sob supervisão de Roberto C. G. Castro



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