terça-feira, março 17, 2026
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consequências para Ribeirão Preto e região – Jornal da USP


Medida que taxa em 50% produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos pode afetar a economia local

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Montagem estilizada em tons de vermelho e verde mostra Donald Trump, com contorno branco e braço erguido em gesto de discurso. Ao fundo, vista aérea de Ribeirão Preto.
Tarifa imposta por Donald Trump começou a valer – Foto: Gage Skidmore/Wikimedia Commons/CC BY-SA 2.0; Mateus Záccaro/Wikimedia Commons/CC BY-SA 2.0
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou na última semana o decreto que oficializou uma tarifa adicional de 40% sobre produtos brasileiros exportados para o país, elevando o total para 50%. A medida, que entrou em vigor nesta quarta-feira (6), afeta diretamente cidades que têm grande representatividade no mercado exportador. Ribeirão Preto e região, referências nacionais no agronegócio, podem sentir os impactos diretamente na economia local, com efeitos sobre a renda e toda a cadeia produtiva da região.

A imagem mostra um homem de pele clara, cabelo liso e escuro, usa óculos e veste camisa social clara com blazer escuro. Ele sorri levemente e está em ambiente interno, com um quadro colorido desfocado ao fundo.
Luciano Nakabashi – Foto: Lattes

O economista e professor Luciano Nakabashi, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-RP) da USP, afirma que há risco de queda nas exportações, mas ameniza o impacto imediato. “Mesmo que a tarifa se mantenha no longo prazo, o impacto maior ocorre no início. Enquanto isso, é possível armazenar e depois redirecionar os produtos para outros mercados, grandes compradores, fornecedores ou traders, que, de alguma forma, acabam levando esses itens aos Estados Unidos por outras vias”, explica. “Commodities como café, açúcar, carne e minério de ferro, relevantes para a economia de Ribeirão Preto e região, tendem a ser mais facilmente redirecionadas para outros mercados”, avalia. Como polo fornecedor de serviços para a região a cidade pode ser impactada caso a economia regional desacelere. “Se as cidades vizinhas forem afetadas, elas acabam consumindo menos em Ribeirão Preto”, completa.

Para combater a medida, o professor Umberto Celli Junior, da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP, especialista em comércio internacional, recomenda que produtores e exportadores locais apostem na negociação direta. “Os exportadores, em suas negociações privadas com os clientes importadores, precisam se resguardar de alguma forma. Uma das alternativas é repactuar os contratos de exportação e importação, incluindo cláusulas que prevejam situações excepcionais.” Segundo Celli, no comércio internacional existem mecanismos que permitem a revisão ou renegociação contratual com base nas regras internacionais. “Isso pode ocorrer, por exemplo, diante de fenômenos naturais, como enchentes ou inundações, ou ainda em cenários de guerra, eventos imprevisíveis ou até mesmo uma forte desvalorização cambial, situações que possam causar um desequilíbrio econômico-financeiro no contrato.”

Produtos afetados

O governo americano excluiu quase 700 itens da sobretaxa de 50%, incluindo produtos como suco de laranja, combustíveis, veículos, aeronaves civis e determinados metais e madeiras. Segundo levantamento da Comex Stat, os principais produtos exportados de Ribeirão Preto em 2025 são estanho em forma bruta, preparações para alimentação animal, amendoim, chapas plásticas e instrumentos médicos. 

Nakabashi destaca que Ribeirão Preto é um polo importante do setor sucroalcooleiro, com produção de cana-de-açúcar, açúcar e etanol, setores que podem ser diretamente afetados pelo tarifaço. “Outras culturas na região, como soja e amendoim, também podem sofrer impactos. Na região de Bebedouro e Matão, a produção de laranja, e em Franca, o café, são exemplos de produtos locais que também podem ser afetados”, aponta. O estanho e o suco de laranja estão entre os itens beneficiados pela isenção da tarifa.

Medidas governamentais

Diante das novas tarifas impostas pelos Estados Unidos, o governo federal pode ter um papel estratégico para amenizar os efeitos sobre os exportadores brasileiros. Segundo Nakabashi, é fundamental que o governo atue na abertura de novos mercados, amplie parcerias comerciais e invista na competitividade do País, com foco na redução da burocracia e na melhoria da infraestrutura logística. Embora essas mudanças estruturais levem tempo, ele aponta que medidas emergenciais também são necessárias, como a criação de linhas de financiamento temporárias e acessíveis para empresas mais impactadas pelo tarifaço. “Como se trata de um choque externo, esse apoio pode ser justificado, desde que tenha regras claras e duração bem definida”, avalia. Ele alerta, no entanto, que esse tipo de auxílio não deve se tornar permanente, para evitar distorções e pressões políticas no futuro. “O esforço principal deve vir das próprias empresas, com o suporte do governo na busca por novos mercados e na ampliação dos já existentes”, completa.

A imagem mostra um homem de pele clara, com cabelo grisalho. Usa óculos, tem barba e bigode grisalhos. Está vestido com terno escuro, camisa branca e gravata rosa. O fundo é interno, com detalhes em madeira e partes escuras desfocadas.
Umberto Celli Junior – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Além das medidas internas, Celli destaca a importância do País investir em acordos comerciais regionais, principalmente com países da América Latina. “No tratado da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi) existem diversos acordos bilaterais de complementação econômica. Isso mostra que há muitas possibilidades a serem exploradas dentro da região”, afirma. O especialista cita países como México, Chile, Peru e Colômbia, que já firmaram acordos preferenciais com grandes economias como Japão e Austrália. Ele ressalta que o Brasil, historicamente, adotou uma postura cautelosa em relação a esse tipo de expansão comercial. “Diante do cenário atual é fundamental rever essa postura para ampliar a inserção do Brasil e, por consequência, de regiões exportadoras como Ribeirão Preto no comércio internacional”, conclui.

Aspecto jurídico

O governo americano justifica a taxação alegando que o Brasil teria adotado ações que ameaçam a segurança nacional, economia e política externa dos Estados Unidos. Segundo a Casa Branca, “o presidente Trump está defendendo empresas americanas contra extorsão, protegendo cidadãos americanos contra perseguição política, salvaguardando a liberdade de expressão contra censura e protegendo a economia de ser sujeita a decretos arbitrários de um juiz estrangeiro tirânico”. Porém, Celli destaca que a medida viola as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), que proíbem discriminação entre países. “As tarifas devem ser negociadas e aplicadas de forma igualitária. A imposição unilateral de uma sobretaxa de 50% contra o Brasil fere o princípio da não discriminação no comércio internacional”, afirma.

*Estagiário sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares



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