A Constituição Federal de 1988 garante às universidades autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira. No entanto, essa autonomia encontra obstáculos práticos quando a USP mantém processos de seleção baseados em práticas burocráticas e ineficazes, como a prova escrita com tema sorteado, que é usada como fase eliminatória.
Na realidade, essa prova sorteada transforma o concurso em um processo de alta imprevisibilidade. Candidatos qualificados podem ser desclassificados simplesmente porque o tema sorteado não se relaciona com sua área de atuação. Por outro lado, candidatos com menor aderência ao cargo podem avançar por coincidência temática. O sorteio compromete a justiça do processo e aumenta o estresse de maneira desnecessária, afastando talentos, principalmente aqueles que estão fora do Brasil ou em outros estados.
Além disso, o sorteio ignora o fato de que muitos concursos estão inseridos em estratégias de desenvolvimento acadêmico dos departamentos. Esses concursos muitas vezes têm como objetivo suprir lacunas bem definidas em termos de conhecimento ou linha de pesquisa. A escolha de um docente deveria, portanto, se basear na aderência do candidato ao projeto acadêmico e de desenvolvimento científico da unidade. A prova escrita com tema aleatório não contribui para esse objetivo e pode excluir justamente os profissionais mais alinhados com a missão do departamento.
Quando introduzimos elementos de sorte no processo seletivo, perdemos a capacidade de avaliar com profundidade a trajetória de produção científica dos candidatos e o potencial de contribuição para o futuro da instituição. Essa abordagem desorganiza os planos de desenvolvimento científico dos departamentos e reduz a capacidade da USP de competir por talentos no cenário internacional.
A experiência internacional mostra que outras formas de avaliação se afirmaram por sua eficiência. Universidades de prestígio analisam documentos como planos de pesquisa, propostas de ensino e estratégias de inserção institucional. Elas avaliam a trajetória e o potencial dos candidatos para contribuir com os objetivos da universidade. Essa abordagem privilegia o mérito, o alinhamento institucional e a visão de futuro.
A análise do plano de trabalho é uma alternativa concreta e será utilizada por instituições como o Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (Imecc) da Unicamp. Nessa modalidade, os candidatos apresentam propostas detalhadas sobre como pretendem atuar nos primeiros anos da carreira docente em ensino, pesquisa e extensão. A banca avalia a originalidade, a viabilidade e a coerência com o projeto da unidade e perfil definido para a vaga. Essa modalidade pode ser feita de forma remota, o que elimina custos e deslocamentos, tornando o processo mais inclusivo e acessível. Apenas os candidatos com reais chances de aprovação seguiriam para as etapas presenciais, que podem incluir avaliação didática e arguição ou entrevista sobre o memorial e/ou o plano de trabalho apresentado.
Outro ponto fundamental é que a análise do histórico de publicações, associada ao plano de trabalho, permite que os avaliadores compreendam de forma concreta quais candidatos realmente têm potencial para executar o que propõem. Essa análise conjunta permite uma avaliação mais sólida e fundamentada, respeitando as necessidades da unidade contratante.
Esse modelo alternativo parece estar juridicamente respaldado. A Constituição permite provas eliminatórias sem definir sua natureza, por exemplo. A legislação federal e estadual admite documentos e simulações de atividades como formas legítimas de avaliação. A USP, portanto, pode e deve avaliar e adotar esse modelo sem ferir as normas do serviço público.
Ao dar às unidades acadêmicas a liberdade de optar pela análise de planos de trabalho como fase eliminatória, a USP estaria valorizando a competência, a criatividade e a aderência institucional dos candidatos. O modelo atual, por outro lado, impõe limites desnecessários à autonomia das unidades e às possibilidades de inovação acadêmica. Persistir nele é insistir em um sistema que não serve mais ao propósito que deveria cumprir e que se apresenta totalmente desalinhado ao cenário acadêmico internacional.
Se a USP pretende continuar sendo referência em ensino, pesquisa e extensão, precisa adotar práticas seletivas que reflitam a natureza do cargo de docente e cientista. Isso significa abandonar a dependência de provas sorteadas e avançar em direção a modelos avaliativos que priorizam o mérito científico, o alinhamento estratégico e a excelência acadêmica.
A chance de mudança está diante de nós e deve ser aproveitada com coragem institucional e compromisso com a modernização da USP. A contratação de novos talentos é crucial para manter e ampliar a relevância da nossa universidade no cenário nacional e internacional.
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