A ideia é usar a tecnologia dos games para estimular um ambiente de formação profissionalizante para a garotada de 14 a 24 anos em várias áreas do conhecimento”, diz Gilson Schwartz

O projeto Quilombo Inteligente nasceu como uma iniciativa de inovação pedagógica com uso de tecnologia e inteligência artificial para escolas quilombolas e organizações comunitárias. O programa utiliza a plataforma UAI FAI – Universos Abertos à Imaginação, à Fantasia e às Artes da Invenção – para promover inclusão digital e formação profissional. Quem explica é o professor Gilson Schwartz, da Escola de Comunicações e Artes da USP e criador do projeto: “Hoje em dia tem uma expressão que virou corriqueira, que é ‘gameficação’, ou seja, transformar atividades, muitas vezes com obstáculos e dificuldades, num jogo, em algo mais divertido, como se fosse um game. A ideia é usar essa tecnologia dos games para estimular um ambiente de formação profissionalizante para a garotada de 14 a 24 anos, em várias áreas do conhecimento”, comenta o professor.

Ele conta que a primeira célula do projeto foi implantada na Escola Pública do Quilombo da Fazenda, em Ubatuba. “Nós fomos primeiro a campo já faz um ano e meio. Antes mesmo do começo do projeto, já fizemos contato, para não ficar só no virtual. Eu acho que hoje em dia, claro, ninguém vive sem internet, mas também internet demais adoece as pessoas.” No primeiro semestre, o programa acolheu mais de 150 jovens de quilombos no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e São Paulo. “Foi um processo de conversa, de escuta, de entender a realidade de cada um, que tipo de projeto o pessoal tem interesse em fazer. Surgiram vários projetos de documentários, de aprender a mexer com som, com áudio digital, com imagens, com fotografia.”
A proposta para o segundo semestre inclui mais de 30 atividades, entre oficinas, palestras e orientação pedagógica. “O que a gente quer é que a garotada sinta que tem espaço, tem horizonte, tem oportunidade de profissionalização, de emprego e renda na internet – e que pode ser ativa na escolha, nas diretrizes. Saber o que eles querem e, com toda a experiência, poder orientá-los.” O professor ressalta que a pandemia acentuou as desigualdades no acesso à educação e que, ao mesmo tempo em que a tecnologia facilita, também pode banalizar e isolar. Ele lembra que o uso indiscriminado de inteligência artificial já mostra impactos na redução de habilidades entre estudantes e adultos, e que o desafio é “usar isso sem adoecer, sem se isolar, tendo a ilusão de que está integrado”. Para ele, é preciso atuar na realidade concreta, repensando desde a alimentação até as formas de produção.
USP entre as melhores
Schwartz também destacou que a USP entrou recentemente para o grupo das cem melhores universidades do mundo, num ranking de mais de 3 mil instituições, e defende que a Universidade pode subir ainda mais se apostar em inclusão social e extensão. É para esse horizonte que o Quilombo Inteligente e a plataforma UAI FAI se voltam. O professor aborda, ainda, que a tecnologia deve ser aliada da inclusão e da autonomia. “O País tem que desenvolver as suas esferas, as suas redes sociais e emancipatória, no sentido também de que não é só se integrar à tecnologia, mas ser dono do próprio nariz. Ter a capacidade de dizer ‘eu quero ter uma vida assim, eu quero ter uma alimentação de outra forma, eu quero frequentar lugares em que não seja só internet’.”
O evento de apresentação dos resultados da primeira etapa acontece no Instituto de Estudos Avançados da USP. “A gente quer mais extensão, mais impacto transformador. Entender o papel das tecnologias na educação, mas uma educação inclusiva, social, decolonial. O País tem que desenvolver as suas esferas, as suas redes sociais e emancipatória.”
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