terça-feira, março 17, 2026
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A doce e desafiadora arte de dirigir uma unidade USP – Jornal da USP


Dirigir uma unidade da USP é, ao mesmo tempo, um convite à doçura do saber e um mergulho nos desafios próprios de uma das instituições de ensino mais renomadas do Brasil. O exercício da liderança universitária exige não apenas conhecimento técnico-administrativo, mas sobretudo sensibilidade humana, escuta ativa e uma permanente disposição ao diálogo. Nessa jornada, cada decisão tomada pode ser celebrada como um pequeno triunfo, e cada obstáculo, reconhecido como uma oportunidade de crescimento, tanto pessoal quanto institucional.

Estar à frente da gestão em uma unidade USP é assumir um legado histórico, construído ao longo de décadas de dedicação ao ensino, à pesquisa e à extensão. Ao mesmo tempo, é preciso imprimir um olhar inovador, atento às transformações do mundo contemporâneo e às demandas cada vez mais complexas da sociedade. O dirigente está situado nessa encruzilhada entre passado e futuro, tradição e renovação.

Isso significa respeitar ritos, normas e cultura institucional, mas também desafiar-se a propor novos caminhos, repensar práticas e buscar soluções criativas para problemas antigos e emergentes. O equilíbrio entre o respeito à história e a ousadia de inovar é, por si só, uma doce e instigante arte.

A rotina de uma direção universitária é marcada por encontros — sejam eles planejados, fortuitos, protocolares ou espontâneos. Professores, estudantes, servidores técnico-administrativos, terceirizados, comunidade externa. Cada grupo traz expectativas, sonhos e necessidades singulares. Mediar esses interesses e construir consensos exige empatia, clareza na comunicação e firmeza ética.

Há, sem dúvida, o lado doce: a alegria de participar da formação de novos profissionais, a satisfação de ver projetos científicos florescerem, o orgulho de promover ações de extensão que transformam realidades locais. Cada conquista coletiva, cada reconhecimento público, cada agradecimento sincero — mesmo que silencioso — alimenta o sentido do trabalho.

Mas, como toda arte, a gestão universitária reserva seus desafios. Os conflitos são inevitáveis: disputas por recursos, divergências pedagógicas, tensões entre setores, cortes orçamentários, pressões externas. Saber administrar crises com serenidade, sem perder a esperança ou o equilíbrio, é uma das competências mais valiosas do dirigente.

Muitas decisões exigem coragem. Seja ao alocar recursos escassos, ao priorizar projetos, ao intermediar conflitos ou ao implementar mudanças estruturais, é impossível agradar a todos. A liderança universitária implica assumir riscos, reconhecer limites e, frequentemente, arcar com o peso da incompreensão.

A doçura, aqui, está em buscar, a cada escolha, o bem comum — e não apenas o interesse de um grupo ou indivíduo. A ética se revela na transparência dos processos, no respeito aos princípios democráticos e na valorização da pluralidade de vozes. O afeto, por sua vez, está em cultivar o cuidado com as pessoas: reconhecer as angústias, celebrar as conquistas, apoiar nos momentos de dificuldade.

Dirigir uma unidade USP não é — e jamais deveria ser — uma tarefa solitária. O êxito da gestão depende da composição de equipes capazes, comprometidas e diversas. A arte do dirigente está, também, em identificar talentos, delegar responsabilidades e estimular a autonomia dos colaboradores e o modelo de gestão/liderança horizontalizada nos parece ser um caminho muito interessante para instigar o sentimento de pertencimento e evitar, dessa forma, a solidão de um cargo de gestão.

Promover a formação de novas lideranças é fundamental para a vitalidade institucional. Isso implica abrir espaços de participação, estimular o protagonismo dos estudantes, valorizar as contribuições dos servidores e dialogar com a comunidade externa. Uma gestão realmente transformadora é aquela que prepara terreno para que outros floresçam e inovem.

Os novos tempos impõem desafios adicionais à gestão universitária. A busca por maior inclusão, diversidade e equidade é um compromisso inadiável. Promover o acesso, acolher as diferenças e combater todas as formas de preconceito são tarefas cotidianas e urgentes.

A sustentabilidade, por sua vez, exige rever práticas institucionais e promover uma cultura de responsabilidade ambiental, econômica e social. Projetos de eficiência energética, redução de resíduos, uso consciente dos recursos e incentivo à pesquisa em sustentabilidade são passos essenciais.

A internacionalização é outra dimensão central: ampliar o diálogo com universidades estrangeiras, favorecer a mobilidade acadêmica e estimular colaborações científicas globais são estratégias que enriquecem o ambiente universitário e potencializam o impacto da USP no cenário mundial.

Apesar dos muitos desafios, dirigir uma unidade USP é profundamente gratificante. Cada geração de estudantes formada, cada pesquisa inovadora, cada projeto de extensão bem-sucedido reafirma o valor social da universidade pública.

A esperança conduz a ação diária: a crença de que a educação transforma, de que o conhecimento liberta e de que a universidade é, sim, um espaço de construção de futuro coletivo. A doçura reside, então, nesse compromisso ético com a sociedade e no privilégio de contribuir para o avanço do saber.

Ser dirigente de uma unidade USP é, portanto, uma arte delicada e desafiadora — feita de encontros e desencontros, conquistas e frustrações, certezas e dúvidas. É tarefa para quem cultiva a escuta, valoriza a pluralidade, aposta na construção coletiva e, sobretudo, acredita no poder transformador do conhecimento.

Que cada dirigente que assuma essa missão possa vivenciá-la com coragem, sensibilidade e generosidade, celebrando as vitórias e aprendendo com as adversidades. Assim, a doce e desafiadora arte de dirigir uma unidade USP se transforma, continuamente, em expressão viva do compromisso com a educação pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



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