segunda-feira, maio 18, 2026
HomeConsumo conscienteDilemas do capital inovador – Jornal da USP

Dilemas do capital inovador – Jornal da USP


Por Marcelo Caldeira Pedroso, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP

Os investimentos em inovação apresentam importantes desafios. Os mais proeminentes remetem aos riscos elevados (tais como tecnológicos, mercadológicos e regulatórios) e longos prazos de retorno dos investimentos.

Porém, um dos riscos que geralmente recebe menor atenção consiste no “subinvestimento” em inovação. No nível das políticas públicas, as consequências decorrentes dos baixos investimentos em inovação podem se refletir em estagnação econômica, menor qualidade de vida da população e maiores dificuldades na atração de investimentos externos. Ao contrário, pesquisas apontam que investimentos adequados em inovação contribuem positivamente para o crescimento econômico, particularmente no longo prazo.

No âmbito das organizações, sabemos que investimentos insuficientes em inovação podem ocasionar perda de competitividade, atraso tecnológico e dificuldade na atração e retenção de talentos. Por outro lado, as evidências empíricas mostram que as empresas que investem com sucesso em inovação obtêm retornos mais elevados comparativamente aos seus concorrentes.

Neste artigo, considero “capital inovador” como a totalidade dos investimentos de diferentes modalidades alocados para fomentar a inovação. Esses investimentos podem ser direcionados para a criação de empresas nascentes inovadoras (ou startups) e diferentes iniciativas de ciência, tecnologia e inovação realizadas no âmbito das empresas estabelecidas, universidades e ICTs (Institutos de Ciência, Tecnologia e Inovação) e nos ambientes promotores de inovação (tais como distritos de inovação, parques tecnológicos, incubadoras, centros de inovação, aceleradoras, venture builders e hubs de inovação).

Nesse contexto, levanto uma primeira questão: qual seria o nível adequado dos investimentos em inovação?

Nível dos investimentos em inovação

O nível ótimo (ou mesmo adequado) dos investimentos em inovação é uma questão difícil de responder. No Brasil, assim como na literatura internacional, as pesquisas sobre a relação entre investimentos em inovação e desempenho (ou valor) das empresas não são conclusivas.

Uma das justificativas considera que a mensuração dos resultados decorrentes desses investimentos é complexa. Algumas pesquisas usam métricas indiretas para analisar o impacto da inovação.

Por exemplo, é possível observar um maior crescimento econômico em países que aumentam o nível de patenteamento. Porém, as patentes representam uma inovação potencial. Ou seja, elas efetivamente geram valor quando são levadas ao mercado por meio da inovação de produtos, serviços ou processos.

Além disso, um dos questionamentos remete ao momento inicial do investimento e avaliação dos seus resultados futuros. Sabe-se que é difícil estimar ou calcular o fluxo dos retornos financeiros no momento em que são feitos os investimentos nas iniciativas inovadoras. Isso ocorre principalmente em função da dinâmica da inovação, que está relacionada às suas inerentes incertezas, bem como ao efeito de diversas variáveis exógenas (ex.: crises econômicas) nos resultados dos investimentos em inovação.

Assim, entendo que ainda não conseguimos responder, ao menos com precisão, qual é o nível ótimo dos investimentos em inovação. Não obstante, algumas pesquisas empíricas apontam para um patamar mínimo. Por exemplo, verificou-se que o capital de risco apresenta um impacto positivo efetivo na inovação quando o investimento é superior a um nível limite (ou threshold).

A contribuição do capital de risco público e privado

Existe um formato particular de capital inovador que é o capital de risco alocado para startups. Essa modalidade ocorre principalmente por meio de fundos de venture capital, que são veículos de investimento que fornecem capital para startups em estágio inicial (early-stage) e em estágio de crescimento (scale-up) em troca de participação acionária. Tradicionalmente, esses fundos atuam como intermediários, uma vez que captam recursos de investidores (estes são denominados LPs – ou limited partners) e os alocam em startups promissoras. Nesse modelo, os retornos podem ser calculados ao considerar os investimentos alocados no início e os resultados ao longo do tempo, que incluem o pagamento de eventuais dividendos e as saídas (ou exits). Estas ocorrem em momentos tais como aquisição da startup por outra empresa, novas rodadas de captação de investimentos e abertura de capital (ou IPO – Initial Public Offering).

Sabe-se que os maiores riscos e a maior volatilidade (ou seja, a dispersão dos retornos do investimento) ocorrem nos investimentos de startups em estágios iniciais. Esses riscos ampliados na entrada do funil de inovação tendem a inibir o capital de risco privado, particularmente em períodos de maior rentabilidade de investimentos com menor risco (ex.: períodos com altas taxas de juros).

Nesse sentido, alguns países adotam políticas para promover a inovação em empresas nascentes (ou mesmo em pequenas e médias empresas) por meio de subsídios diretos para pesquisa e desenvolvimento, em parte com recursos não reembolsáveis. Esse é o principal objetivo do Small Business Innovation Research (SBIR), um programa dos EUA que inspirou muitos países, dentre eles o Brasil. Como exemplo, menciono o programa PIPE da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Há várias evidências que demonstram o papel crucial do capital de risco público e privado para fomentar a inovação. Por exemplo, algumas pesquisas mostram que as startups que recebem investimentos de risco geram inovações com maior impacto e apresentam maior rapidez na comercialização de suas soluções.

Agora, apresento uma segunda questão: como incrementar o retorno dos investimentos em inovação?

Retorno dos investimentos em inovação

Sabemos que o investimento em inovação é cumulativo. Em outras palavras, os retornos sobre os investimentos em inovação tendem a se ampliar progressivamente, assumindo uma certa constância nos investimentos.

Ao menos, dois elementos reforçam essa afirmação. O primeiro considera a inovação como um processo de aprendizado. Isso vale tanto para o sucesso quanto para o fracasso de iniciativas inovadoras. Por exemplo, algumas pesquisas demonstram que uma empresa que enfrentou uma experiência de fracasso organizacional tem menos probabilidade de fracassar novamente em projetos posteriores.

O segundo elemento consiste no denominado track record. Em outras palavras, o histórico de desempenho e conquistas anteriores de um indivíduo ou organização gera expectativas positivas na entrega de resultados posteriores. No contexto dos investimentos em inovação, sabe-se que startups que receberem investimentos governamentais (tais como Finep e Fapesp) estão mais propensas a receber investimentos privados nas próximas rodadas de captação. Assim, além do apoio financeiro, as startups recebem um “selo”, ou seja, um reconhecimento de que passaram por uma triagem desempenhada pelo capital de risco governamental.

Sabemos também que os projetos de inovação frequentemente falham devido às suas características intrínsecas de incerteza e assimetrias de informação. Assim, podemos incrementar o retorno dos investimentos em inovação ao atuar nesses elementos. Para tanto, seguem minhas sugestões:

1. Manter continuamente os investimentos em inovação. Ao mesmo tempo, avaliar os resultados obtidos e direcionar os esforços para ampliar e perpetuar as competências em inovação por meio de um processo de aprendizado coletivo.
2. Adotar ou desenvolver instrumentos visando reduzir as incertezas e a assimetria de informação. Isso pode ser obtido por meio de estratégias de de-risking e de mecanismos visando mitigar os problemas advindos da assimetria de informação.

O capital inovador está sujeito a vários dilemas. Porém, existem algumas evidências. Em políticas públicas, os investimentos em inovação são cruciais para o crescimento econômico sustentado.

No contexto das empresas, esses investimentos são fundamentais para a competitividade e perpetuidade das organizações.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



Fonte