terça-feira, março 17, 2026
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O retrato negro e “a lógica do vômito” – Jornal da USP


Por Alecsandra Matias de Oliveira, professora do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc) da Escola de Comunicações e Artes da USP

A arte contemporânea questiona convenções, técnicas e até mesmo suas funções. Rompe com parâmetros tradicionais, mas também dá novas formas e abordagens àqueles existentes – esse processo ocorre com os gêneros clássicos, como pintura histórica, retrato, natureza-morta e paisagem. Eles não desapareceram. Pelo contrário, essas categorias temáticas têm sido “reinventadas”. As mídias digitais, a fotografia, o vídeo, a instalação e a performance, por exemplo, fixam diálogos inéditos com esses modos de organização temática, propiciando obras híbridas que desafiam classificações.

Dos gêneros clássicos, o retrato é uma das formas mais antigas e simbólicas de representação. A palavra “retrato” tem raízes profundas na história. Ela vem do latim retrahere, que significa “puxar para trás” ou “tirar fora”. Por sua vez, a ideia de “extrair” está ligada ao ato de capturar a imagem ou a essência de alguém. Mais tarde, o termo passou pelo italiano ritratto, que já carregava o sentido de “fazer a efígie de uma pessoa”. Ou seja, o retrato é uma tentativa de extrair e representar visualmente a identidade de alguém — seja por pintura, escultura, fotografia ou outras mídias.

Desde as civilizações antigas, como Egito e Roma, o retrato serviu como meio de eternizar líderes e figuras importantes, quase sempre associado ao poder, à memória e à transcendência espiritual.

No Renascimento, com artistas como Leonardo da Vinci e Rafael, o retrato ganhou ainda mais autonomia, buscando não apenas a fidelidade à aparência, mas também à essência psicológica do retratado. Essa fase marcou o surgimento do autorretrato, usado como introspecção e afirmação da identidade do artista. No período Barroco e Rococó, os retratos ganharam destaque, expressando emoções intensas e, sobretudo, afirmando o status social da elite.

Na prática dos retratos, com a invenção da fotografia no século 19, ocorreu uma série de rupturas na pintura, abrindo caminho para experimentações, tais como o Simbolismo e o Impressionismo. Já no século 20, a categoria passou a refletir mudanças culturais e sociais profundas. Artistas como Frida Kahlo, Pablo Picasso e Cindy Sherman transformaram o retrato em uma linguagem experimental, subjetiva e crítica, abordando identidade, gênero, política e psicologia. Assim, ele pode ser digital, fragmentado, colaborativo, performático ou imersivo. Deixou de ser uma simples representação física para se tornar um embate sobre identidade, desejo e memória.

Nesse ponto, convém refletir sobre o uso do retrato na práxis de artistas racializados. Como linguagem artística potente, ele é empregado por esses artistas para afirmar identidades, reconstruir memórias e, acima de tudo, desafiar narrativas excludentes. Mas como uma categoria temática historicamente ligada às elites é apropriada por esses artistas? Talvez, a metáfora do vômito – vista como reação visceral à história imposta – possa ser útil à leitura de trabalhos que trazem negros e negras como protagonistas.

Observe-se, porém, que essas são questões fecundas que, ainda que suscitadas aqui, não encontram resolução neste espaço. Elas envolvem complexidade epistemológica e investigações prolongadas. O presente recorte, limitado em escopo, apenas tangencia tais temas, reconhecendo que respostas mais densas extrapolam os limites deste ensaio e repousam em debates especializados.

Quando corpos negros, indígenas e periféricos foram silenciados ou representados de forma estereotipada pela arte ocidental, o retrato estava ali confirmando as violências sobre os corpos. Foram séculos, convivendo com figuras exóticas e subalternas. Pesquisas recentes, porém, jogam luzes sobre a presença de modelos negros em telas consagradas pela história da arte, tais como o Retrato de um Homem Negro (Portrait of a Moor, c. 1525), de Jan Mostaert, Retrato de Madeleine (1800), de Marie-Guillemine Benoist, ou ainda, Olympia (1863), de Edouard Manet.

Alguns desses estudos sobre o modelo negro revelam uma exclusão estética: o corpo negro foi subjugado, equiparado a objeto, à posse, à natureza e, por fim, negligenciado. De certo modo, o “deglutir” essa condição e, na sequência, “vomitá-la” transforma o que foi imposto em potência criativa. Ao assumir o retrato como linguagem, artistas racializados desafiam esse legado e criam imagens que celebram a beleza, a complexidade e a dignidade de suas comunidades. Retratar é, nesse contexto, reivindicar o direito de olhar e ser olhado.

Como metáfora, a “lógica do vômito” seria o expurgo do que foi imposto ao corpo e à subjetividade — coloque-se aí normas, violências, estigmas, colonialidades. Quando aplicada aos retratos feitos por artistas racializados contemporâneos, essa lógica transforma o retrato em um ponto de ruptura e insurgência. A organização temática que um dia registrou a hierarquia e, por conseguinte, a exclusão, hoje reafirma identidade. E, como Sueli Carneiro ensina: “A construção da identidade negra é um processo de insurgência contra a negação histórica da humanidade dos negros.”

Então, hoje, o retrato ressurge como uma forma de visibilidade e resistência. Ao retratar os artistas reivindicam a dignidade de existir plenamente — com suas histórias, emoções, espiritualidades e complexidades. O gesto de representar o outro é também um gesto político, que confronta o racismo e, em alguns casos, denuncia as ausências e os abandonos da representação desses corpos nos acervos e museus.

Além disso, o retrato tornou-se ferramenta de revisão histórica, como demonstram projetos como a Enciclopédia negra. Criado por Flávio dos Santos Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Moritz Schwarcz, o projeto resultou em um livro publicado pela Companhia das Letras e uma exposição homônima, na Pinacoteca do Estado de São Paulo – ambos desenvolvidos em 2021. A Enciclopédia negra restituiu o lugar de figuras negras esquecidas pela historiografia oficial; o livro e a exposição reuniram trabalhos que trazem fabulações e memórias reconstruídas.

Obras de artistas como Dalton Paula, Rosana Paulino e Panmela Castro revelam como o retrato contemporâneo pode ser íntimo, colaborativo, afetivo e crítico. Em muitos casos, ele conecta presente e ancestralidade, funcionando como elo entre gerações e saberes. Assim, o retrato deixa de ser simples registro estético para se tornar um campo fértil de disputa por memória, poder e representatividade — onde os traços, as cores e os olhares carregam histórias.

Para artistas racializados, fazer retratos é um gesto profundamente político, afetivo e simbólico — uma forma de reconstruir narrativas, ocupar espaços e afirmar existências que foram marginalizadas ou distorcidas pela arte hegemônica. Dentro dessa lógica está a produção fotográfica dos Retratistas do Morro, especialmente pelas lentes de João Mendes e Afonso Pimenta — é um testemunho poderoso da memória afetiva e da resistência simbólica das comunidades periféricas brasileiras. Atuando no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, desde os anos 1960, esses fotógrafos construíram um acervo monumental que revela o cotidiano, os rituais e os afetos de uma população às margens da sociedade.

Mais do que simples registros, suas imagens são gestos de cuidado e pertencimento. Elas capturam casamentos, batizados, bailes, formaturas e retratos 3×4 — momentos que, embora comuns, carregam profundidade emocional e valor histórico. Ao fotografar seus próprios vizinhos, amigos e familiares, João e Afonso criaram uma iconografia íntima, na qual o olhar é sempre respeitoso e horizontal.

O projeto, idealizado por Guilherme Cunha, não apenas restaurou e digitalizou cerca de 250 mil negativos, mas também inseriu essas imagens no circuito das artes, disputando o imaginário dominante e ampliando o espaço da narrativa histórica brasileira. A curadoria valorizou o protagonismo dos fotografados, revelando que cada retrato é também uma afirmação de existência, dignidade e memória. Em tempos de desigualdade simbólica e social, os Retratistas do Morro mostram que a fotografia pode ser uma ferramenta de empoderamento; cada clique é um ato de resistência e cada rosto, uma história que merece ser contada.

Considere-se ainda que artistas racializados não apenas representam corpos dissidentes (racial, de gênero, de classe etc.). Eles “vomitam” as imagens normativas que foram projetadas sobre esses corpos. Em vez de buscar aceitação nos moldes da branquitude ou da cisgeneridade, os retratos se tornam espaços de desconforto, de excesso, de desvio aos “olhos conservadores”. São imagens que não querem agradar; elas desestabilizam o olhar dominante.

A “lógica do vômito” também implica uma recusa da “limpeza” estética: os retratos podem ser borrados, fragmentados, saturados, performáticos — como se o próprio ato de retratar fosse uma catarse. Artistas como os já citados Rosana Paulino, Panmela Castro e Dalton Paula operam nesse território, onde o retrato não é um espelho, mas uma ferida aberta, uma denúncia, uma ficção especulativa.

Por fim, ao “vomitar” o retrato idealizado, esses artistas criam imagens que não cabem no museu colonial, que desafiam o espectador a lidar com o que foi silenciado. É uma estética da sobrevivência, da memória e da invenção. Assim, o retrato é uma ferramenta de resistência, cura e construção de futuro. Ele transforma o ato de representar em um espaço de poder, convertendo cada rosto em uma afirmação de que esses são modos de ser e estar no mundo — e merecem ser vistos, lembrados e celebrados.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



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