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Último dia de negociações em Genebra expõe impasse em tratado global contra poluição plástica




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As negociações para criar o primeiro tratado juridicamente vinculante do mundo contra a poluição por plástico chegaram a um ponto crítico nesta quinta-feira (14), em Genebra.
Delegados de quase 180 países correm contra o tempo para tentar fechar um acordo, mas divergências profundas ameaçam encerrar a rodada sem consenso. O encontro integra a série de reuniões iniciada em 2022 pela ONU para tentar estabelecer um pacto global até o fim de 2025.
Texto rejeitado e frustração de países
Na quarta-feira (13), diplomatas rejeitaram a versão mais recente do texto de trabalho. Países como Panamá, Quênia e Reino Unido criticaram a retirada de artigos que tratavam do ciclo completo da poluição plástica — desde a produção de polímeros até os riscos à saúde humana. O Panamá chegou a classificar a proposta como “repulsiva” e defendeu uma reformulação integral.
Disputa sobre limites à produção
O principal impasse envolve a produção de plástico virgem. Produtores de petróleo, gás e carvão resistem à imposição de restrições, enquanto a União Europeia e Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (PEID) pressionam por limites à produção e maior controle sobre produtos químicos perigosos. O Iraque sinalizou disposição em flexibilizar sua posição, mas a Arábia Saudita afirmou que nada poderá ser acordado sem clareza sobre o escopo do tratado.
Pressão por acordo ambicioso
O ministro norueguês do Clima e Meio Ambiente, Andreas Bjelland Eriksen, que copreside o grupo chamado Países de Alta Ambição, declarou estar disposto a negociar todos os artigos para buscar um “pacote equilibrado”. Já a ministra francesa da Transição Ecológica, Agnes Pannier-Runacher, admitiu a possibilidade de concessões sobre a forma de atualizar a lista de produtos químicos nocivos.
Na direção oposta, o parlamentar colombiano Juan Carlos Loazada afirmou que “nenhum acordo seria melhor do que um acordo diluído”.
Comprar menos plástico é uma das medidas para serem adotadas contra o aquecimento global
Reprodução/EPTV
Mobilização da sociedade civil e da indústria
Enquanto ministros negociavam, organizações ambientais protestavam do lado de fora do prédio pedindo um tratado forte. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) alerta que, sem intervenção, a produção global de plástico pode triplicar até 2060, agravando crises ambientais e de saúde.
Setores da indústria também se posicionaram a favor de um pacto global, embora sem aceitar limites de produção. “Estamos realmente otimistas. Achamos que isso pode ser muito bom para nossa indústria, para a sociedade e para o meio ambiente”, disse Ross Eisenberg, presidente da America’s Plastic Makers. O grupo, porém, alerta que os Estados Unidos dificilmente ratificariam um tratado que inclua a proibição de produtos químicos ou restrições à produção.
O que está em jogo
Desde 5 de agosto de 2025, representantes de até 184 países — além de centenas de organizações não governamentais — estão reunidos em Genebra, na segunda parte da quinta sessão do Comitê Intergovernamental de Negociação (INC‑5.2).
O objetivo do encontro é redigir o primeiro tratado internacional juridicamente vinculante para combater a poluição plástica, que ameaça ecossistemas, oceanos e a saúde humana. O encontro visa concluir o texto do acordo em apenas 10 dias, tempo considerado apertado diante da complexidade do tema e das tensões diplomáticas em jogo.
A reunião foi convocada após o impasse na reunião anterior de Busan, na Coreia do Sul, na qual países produtores de petróleo e gás bloquearam qualquer avanço.
Na abertura da sessão, o presidente dos debates, o diplomata equatoriano Luis Vayas Valdivieso alertou que a poluição plástica constitui uma “crise mundial” em curso. Ele afirmou que a emergência é real e que recai sobre todos os Estados a responsabilidade de agir.
Ao longo do processo iniciado em 2022, o mandato da ONU previu que o tratado abordasse todo o ciclo de vida dos plásticos, incluindo design, produção, uso e descarte, além dos impactos sobre a saúde e o meio ambiente.
Em Genebra, a pressão por controle estrito da produção de plástico virgem encontra forte resistência de países produtores — enquanto grupos como a Coalizão de Alta Ambição, formada por União Europeia, África e América Latina, defendem metas até 2040 e a proibição de certas substâncias químicas.
ONGs e movimentos da sociedade civil também reforçam a urgência de um tratado robusto. Do lado de fora da sede da ONU, manifestações e instalações artísticas — como a escultura “O Fardo do Pensador”, do artista canadense Benjamin Von Wong — chamam atenção para as consequências da crise, destacando que o mundo corre o risco de “afogar-se na poluição plástica”, em palavras de Inger Andersen.
*Com informações da Reuters.



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