terça-feira, março 17, 2026
HomeSaúde física e emocionalO Minotauro e a vassalagem – Jornal da USP

O Minotauro e a vassalagem – Jornal da USP


No labirinto das paixões e afetos habita uma figura interessante do imaginário da Antiguidade, uma figura híbrida mítica e esfuziante se compondo em humanidade e bestialidade, uma figura antropogênica e de certa alegoria andrógena. O Minotauro remete às fusões degeneradas dos seres vivos e carrega diversos simbolismos e sentidos de interpretação. Esse maravilhoso ser-monstro, no entanto, se dimensiona e reflete seu auge e esplendor pela multitude de caminhos interconectados e indistintos, como o mistério do destino, que podem levar ao alívio da vida em oposição ao desolado e solitário destino da morte, se no lance futuro ocorrer o encontro com a monstruosidade.

O Labirinto parece possuir em si e através de si uma dádiva dos seres eternos: emaranha o destino e desmerece o que aquele que o perpassa possa entender como caminho correto e escolhas verdadeiras. A trama de seus domínios condiciona cada passo do atravessador trazendo em si um enigma e o julgamento inexorável da dúvida da escolha. Estar perdido por entre o Labirinto é vivenciar algum tipo de maldição e esquecimento, como um assombro de um destino – correto? ou não? –, porque entre as passagens e direções, em qualquer que seja o sentido, as tramas das salas só fazem apagar as escolhas anteriores e o verdadeiro caminho até ali. A certeza do que foi vivido, do certo ou errado, verdade ou mentira, afeto ou rejeito, não cabem mais ao perpassante, que é agora refém da dúvida e do medo. O Labirinto transpassa a simples ideia, não menos cruel, de que pode não haver mais saída, e se deparar com o julgamento do monstro é inevitável, independentemente das memórias e outras razões que se deram fora dali; e isso é algo de um poder avassalador sobre os sentidos mais vitais de qualquer ser humano.

Com tamanho poder, o Labirinto – o qual é o aliado mais pungente do Minotauro – condiciona o tempo e registros que ali ocorrem, delimitando a entonação dos fatos, refazendo como peças de um jogo de quebra-cabeças a sorte dos que ousam pela travessia. O Labirinto reconstrói a história que certamente será: “O Poder do Minotauro tem sempre razão, quem ousa atravessar os caminhos sem sua autorização deve ser punido”.

A beleza de Teseu (o herói desse mito) parece ser a tentativa de destruição de tal poder de ingerência e controle monstruoso sobre as escolhas do perpassante por meio da recomposição da história das coisas. O fio-da-meada tecido por Teseu (o fio de Ariadne, quem fornece a Teseu o fio), como se apresenta, é a garantia da dialética dos opostos que faz com que sistemas de poder e controle sejam obrigados a se confrontar com outros fatos e verdades (coisas que não são lá muito tragáveis para muitos deles). A fiação garante ao perpassante o sentido da memória, do campo e do motivo das escolhas e a sensação de que ir adiante não significa estar sem saída, mas em busca dela. Talvez seja fácil identificar essa apreensão e pictorismo entre os vastos e diversos eventos históricos, relações de poder e, definitivamente, nosso cotidiano.

Há uma antessala específica dos sistemas de poder espraiados nos mármores do Labirinto da Besta que é muito presente mesmo tantos séculos depois dos mitologismos gregos – por isso um mito, decerto – tal qual “as pétalas mal-cheirosas da coação”. Sistemas de poder adoram salas fechadas, circuitos fechados, em que são desenhados e montados labirintos com um rigor arquitetônico de causar inveja, não pela beleza de suas caras e pinturas, mas pela capacidade de apropriação do tempo e dos fatos como se sucederam. Nesses labirintos se apela para afetos e virtudes que se habilitam a confundir e (des)memorizar a cada passo o trespassante, que identifica e incorre em sentimentos de chantagem emocional, traição, desobediência, imposições, benevolência, vitimismo etc. Uma efusiva confluência de intempestivas sensações que colocam o interlocutor no aprisionamento horrendo e atemporal da Besta.

A coação, tal como o Labirinto, deseja a confusão da ordem das coisas, não só do discurso, mas do próprio posicionamento da memória interligada aos fatos vivenciados. O efeito é perplexo e aterrorizante, o interlocutor sabe que nesse Labirinto, cedo ou tarde, se deparará com a trágica figura do meio-Homem meio-Besta. Nessa trama o futuro, o presente e o passado são embaralhados e já não lhe pertencem mais. A coação do reino dos homens é uma das artimanhas mais covardes, seja ela imposta por pessoas, grupos e/ou sistemas de poder.

Teseu e seu fio-da-meada nos apresenta, portanto, um antídoto contra tal covardia. O que mais aterroriza sistemas de poder e a instrumentalização da coação é a lembrança do verdadeiro fio-histórico-dos-eventos e fatos. Elementos que garantem a saída do Labirinto, principalmente, garantem a plenitude das virtudes e afetos, o que recoloca o interlocutor mais no campo da razão das coisas do que no delírio passional (alvo principal da coação) e cunha uma outra história que não aquela unicamente desejada pelos sistemas de poder. Assim, o fio-de-Teseu retira da mão das Bestas a remontagem da história conforme lhes convém. Necessário e prudente dizer que aqueles que sofrem uma violência de tal gênero não são os heróis das mitologias, e sair da espiral do desespero é, por vezes, tarefa árdua e até impossível. Portanto, contar com estruturas de ajuda e acolhimento contra tal covardia é fundamental para a universidade e a sociedade.

A Universidade de São Paulo criou o SUA (Sistema USP de Acolhimento, Registro e Responsabilização para Situações de Assédio, Violência, Discriminações e Outras Violações de Direitos Humanos), que “aprimora os mecanismos de escuta e acolhimento nesses casos, além de oferecer formações e orientações a toda a comunidade USP para que denúncias tais como coação, assédio, preconceitos e outras dessa natureza vil sejam analisadas”, tendo uma característica importante, que é redirecionar a denúncia da ofensa para uma análise distante de onde foi forjada, o que é fundamental para garantir que o fio-da-meada do herói mitológico tenha seu devido sentido, e a preservação e garantia dos direitos e escolhas individuais, para que não mais os indivíduos fiquem à mercê do Labirinto (maquiavélico/sofista), mas que encontrem uma saída suficiente para que futuro, presente e passado se distinguam e lhes pertençam novamente.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



Fonte

Mais populares

- Anúncio-
Google search engine