Há 50 anos, um ensaio controverso para nutrição era publicado por Donald McLaren: “The Great Protein Fiasco” criticava a supremacia da proteína na dieta da população, e debatia influências históricas e políticas que não se comprovavam cientificamente. A obra apontava o erro das organizações de desenvolvimento em focar seus esforços na oferta de proteínas, inclusive sob formas industrializadas.
Segundo Ricardo Abramovay, desde 1930 as Agências das Nações Unidas consideravam o déficit proteico o traço mais importante da desnutrição infantil nos países pobres. Para preencher essa lacuna, seria necessário distribuir formulações elaboradas com soja, milho, trigo e leite, como o leite em pó, entre as populações carentes – em detrimento de fontes vegetais proteicas localmente disponíveis. “Coincidência ou não, essa ideia coincide com um período da economia norte-americana em que havia excedente na produção de leite, e os EUA desejavam exportá-lo”, comenta.
Nadine Marques explica que o ramo do nutricionismo surgiu com o foco de “bater metas” para otimizar a saúde da população, quase como uma medicalização da alimentação. “As metas nutricionais foram desenhadas em um período de escassez e fome entre guerras, então isso fazia sentido”, explica a cientista. “Depois da Segunda Guerra Mundial, quando a produção de alimentos aumentou substancialmente, a ciência foi evoluindo para entender que é necessário enxergar o hábito alimentar como um todo.”
Mas a idealização do consumo de carne se perpetuou no senso comum, e beneficiou a indústria crescente de suplementos. “Para bater metas, é mais fácil fortalecer determinados alimentos e vender produtos que atendam a essas ‘necessidades’”, critica.



