quarta-feira, março 18, 2026
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Comunicação pública como fator estratégico na difusão da ciência para o combate à insegurança alimentar e à fome – Jornal da USP


O campo da comunicação tem muito a contribuir em questões ligadas à alimentação nas suas mais diversas vertentes. Trata-se de uma abrangência temática complexa e que envolve um conjunto de fatores sociais, culturais, políticos e econômicos, além do direito humano a uma alimentação adequada para toda a população de qualquer país ou nação.

A ciência que vem sendo produzida em vários campos do saber, tratando desses temas, precisa chegar à população, com vistas à sua saúde e à melhoria da qualidade de vida, e aos órgãos decisores das políticas públicas nessa direção. A prática de uma comunicação pública estratégica e eficaz é um dos caminhos viáveis.

Cabe aos poderes públicos dos três Poderes da República e a entidades ou órgãos nacionais e internacionais específicos, relacionados com as questões da agricultura, saúde, alimentação, segurança alimentar e nutricional, desenvolverem uma comunicação pública efetiva, que leve em conta o interesse público, o bem-estar e a qualidade de vida da população. As empresas produtoras de alimentos, bem como o agronegócio, têm sua parcela de responsabilidade em contribuir nessa direção. Não basta só produzir, é preciso ter um compromisso público com os sistemas alimentares e a sociedade.

Para viabilizar tais iniciativas, faz-se necessário dispor de setores específicos de comunicação nas estruturas organizacionais, contando com profissionais especializados. Sedimentado em bases estruturantes, o setor responsável deve estabelecer uma política de comunicação e abrir canais de comunicação com os públicos, a opinião pública, os diversos atores envolvidos e a sociedade; organizar as fontes de informações; “ouvir” a população, levando em conta as demandas sociais; e ter consciência de que a fome é um problema de todos nós. [Essas] são premissas norteadoras para ações comunicativas construtivas e eficazes.

As pesquisas científicas e os novos conhecimentos gerados nas universidades e nos centros especializados de investigação, relacionados com a questão da alimentação, da insegurança alimentar, da desnutrição e do combate à fome, necessitam ser mais democratizados e contribuir para as transformações sociais. Empreender para tanto uma difusão científica sistematizada e permanente pressupõe decisões políticas e bases estruturantes, com equipes de profissionais capacitados na disseminação, divulgação e popularização da ciência e da tecnologia.

A comunicação pública da ciência nas universidades e nos institutos/centros de pesquisa constitui um fator estratégico de difusão do conhecimento novo gerado para as transformações na sociedade. Dois principais modelos estão presentes na comunicação pública da ciência: o unidirecional e o dialógico.

O unidirecional privilegia muito as fontes e os cientistas como os detentores do conhecimento, deixando de considerar o saber de outros atores. Atua em uma perspectiva muito linear, com o intuito de informar e divulgar para agentes que se consideram despreparados cientificamente e que não têm muito a contribuir.

Já o modelo dialógico atua em outra perspectiva. Busca valorizar os conhecimentos locais das comunidades e interagir com os públicos envolvidos, inclusive os marginalizados e esquecidos. Promove a participação pública nos assuntos de ciência e tecnologia e na formação de políticas públicas, por meio de fóruns, debates, advocacy, conferências e programas interativos. A ciência é vista como parte integrante da sociedade e é incentivado o desenvolvimento de uma cultura científica nos diversos segmentos sociais. O modelo dialógico contribui para a inclusão social, pois há uma preocupação permanente no sentido de ouvir as demandas e as carências da população.

O setor de comunicação da universidade e de outros centros científicos pode contribuir na difusão da ciência e da tecnologia, valorizando e incorporando o verdadeiro sentido e significado da comunicação pública da ciência. Para tanto, é preciso tornar as assessorias de comunicação mais estratégicas, dinâmicas e produtivas; profissionalizar o setor responsável pela difusão da ciência; estabelecer políticas e estratégias adequadas de comunicação; prestar contas à sociedade; e contribuir para que as instituições de pesquisa cumpram sua missão e cultivem a cultura e os valores humanos do pluralismo, do universalismo, da solidariedade, da ética e da excelência.

A fome e a insegurança alimentar são um problema que atinge populações carentes do mundo inteiro, e nossas iniciativas e proposições para soluções devem se aliar à Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU) e aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), particularmente ao Objetivo 2: “Fome – Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável”. É o que desejamos de forma veemente.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



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