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Estudantes de Turismo trazem o funk para debate sobre espacialidade – Jornal da USP


Atividade idealizada por estudantes relacionou gênero musical com a teoria urbana de Milton Santos

Foto: Divulgação/Conexão Funk

 

O avanço da internet e das redes sociais consagrou artistas e gêneros que antes não teriam visibilidade. Um exemplo é o funk. Antes marginalizados, novos artistas do gênero furaram a bolha das periferias e agora estão nas redes, nas novelas e são temas de trabalhos universitários. Com a intenção de debater a teoria urbana de Milton Santos e de valorizar as vozes da periferia, estudantes do quarto ano do curso de Turismo da USP promoveram um evento que se debruçou sobre a dimensão de espacialidade da expressão cultural do funk.

O debate, do qual participaram o músico Rico Dalasam, o jornalista e pesquisador de música e cultura periférica Felipe Maia, Bruna Simões, do projeto Respeita as Mina e, como mediadora, a estudante Mirelly Araujo Santos, aconteceu no dia 27 de junho, na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Na abertura, o professor Reinaldo Miranda de Sá Teles ressaltou a importância das “vozes que vieram antes de nós” e afirmou que organizar um evento que valorize a periferia é uma forma de seguir com seu legado.

Batizado como Conexão Funk: o funk como expressão cultural na era da globalização, o debate partiu de uma ideia dos estudantes matriculados na disciplina Dimensão espacial do Turismo 2, ministrada pelo professor Reinaldo na ECA. Em entrevista para o Laboratório Agência de Comunicação (LAC) da ECA, a turma explica que sua intenção era organizar um evento relacionado ao conteúdo da matéria: a teoria urbana de Milton Santos. Tendo em vista a importância do pesquisador para entender a geografia adaptada à realidade do Sul Global, a turma decidiu que o trabalho deveria relacionar espacialidade e periferia por meio da música, especificamente o funk.

A partir daí, os estudantes definiram como seriam os detalhes por meio de votações e partiram para a organização, contato com convidados e reserva de sala. As tecnologias de informação e comunicação (TICs) tiveram um papel importante no decorrer da organização do evento, com a criação de playlists no Spotify e uma página do Instagram.

Foto de grupo 22 pessoas atrás de uma grande mesa branca com alguns papéis, uma garrafa e um apagador. Uma parte das pessoas está agachada e, atrás delas, a maioria está de pé. No fundo, há uma tela de projeção branca.
Reinaldo aponta que, originalmente, a disciplina era realizada em uma sala-laboratório equipada com computadores e um software específico, mas a disciplina perdeu espaço após a pandemia e teve que “buscar alternativas para manter a mesma proposta pedagógica” – Foto: Gabrielle Soares Costa

O que o funk tem a ver com Milton Santos?

O professor Reinaldo explica que, na teoria urbana, a economia está dividida em dois “circuitos”. No circuito superior estão as atividades formais, modernas e capitalizadas, como bancos, shoppings e multinacionais. No circuito inferior, ficam as atividades informais, precárias e populares, comocomércios, camelôs, etc. Os avanços tecnológicos, segundo a teoria, tendem a ampliar essa desigualdade, ainda que também possam ser usados para revertê-las.

Homem com cabelos curtos grisalhos e óculos de grau com armação preta
Reinaldo Miranda de Sá Teles – Foto: Weslley Andrade

“Foi nesse contexto que trabalhamos”, diz o professor, “a conexão entre a geografia urbana de Milton Santos e a produção musical periférica”. Segundo ele, a produção musical nos permite ver como as tecnologias digitais oferecem “brechas de acesso e expressão para grupos historicamente excluídos”, pois permitem o surgimento de novos artistas ligados ao circuito inferior da economia, usando a internet como plataforma e sem depender de grandes gravadoras.

Para a turma, os pontos centrais do evento são resistência, decolonialidade e territorialidade em seu âmbito físico e social. Na entrevista, uma das estudantes definiu o funk como “um contramovimento em relação à cultura dominante” e explicou que estilos como o “funk ostentação”, que falam sobre aquisições materiais, podem ser relacionados a essa ruptura entre os circuitos inferior e exterior.

Qual é a importância da espacialidade no turismo?

Pensar no espaço e no que ele representa foi um dos pontos centrais da discussão proposta pela turma. “O turismo na favela é interessante?”, questiona uma das estudantes, com a intenção de refletir sobre o

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Posted: 26/09/2024

espaço e o que ele representa. Por um lado, houve a crítica a “transformar as comunidades em uma espécie de zoológico”, se feito indiscriminadamente. Ao mesmo tempo, a possibilidade de “reafirmar a força da comunidade em sua dinâmica própria” também foi destacada. No fim, os estudantes concordaram que esse tipo de turismo pode ser construtivo, desde que parta das próprias comunidades, e não de pessoas de fora.

Com a experiência desse trabalho, os estudantes compreenderam que o estudo do espaço no turismo, em especial em se tratando das periferias, “permite conhecer muitos temas diferentes” e se aprofundar em questões culturais e sociais, em “como o espaço comporta a cultura”. O professor Reinaldo lembra que “compreender a espacialidade significa reconhecer que o espaço turístico não é neutro nem universal, mas carregado de significados, conflitos e histórias”. Assim, é possível ver o turismo não só como lazer ou economia, mas também como um fenômeno social que envolve disputas por visibilidade e pertencimento.

“A espacialidade no turismo é fundamental, porque o turismo não se dá no vazio — ele acontece no território, entre sujeitos, dentro de estruturas de poder”, conclui o docente.

*Texto de Weslley Andrade, do LAC, com edição do Jornal da USP. Publicado originalmente no site da ECA.



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