Não dá para escapar. A guerra nos assombra de todos os lados, trincheiras cada vez mais assustadoras que corroem o globo e ameaçam se fundir num terceiro grande cataclisma mundial se a diplomacia não cessar esse fogo. E essas chamas todas ardem também na cama, no sexo como refúgio de um mundo em colapso que, ao menos na visão de alguns artistas, pode acabar não em murmúrios nem bombardeios, mas em sonoros orgasmos.
O sexo, com um pé na fricção bélica, e muita sensibilidade nas mãos, atravessa as obras da nova SP-Arte Rotas, versão mais enxuta da grande feira de abril, que abre as portas nesta semana em São Paulo às vésperas do maior evento do ano, a Bienal de São Paulo, que já agita a agenda de colecionadores e a fauna “artsy”.
“Sex War Dance”, um neon de Carmela Gross levado à feira pela paulistana Vermelho, resume em letras de um rubor sanguíneo as pulsões de amor e morte de uma feira que entra em cartaz num tempo estrepitoso para o mercado global, derretendo em tarifaços, e no que talvez seja um último suspiro de paz na bolha nacional antes que o humor dos manda-chuvas desta cena azede também.
Essa mesma galeria põe no balcão outras duas séries extraordinárias de Claudia Andujar da seara off-yanomami da obra da artista, o ensaio sensual “A Sônia” e “O Voo de Watupari”, em que a artista retrata o Brasil, numa espécie de “road movie” de São Paulo até Roraima, pela janela de seu Fusca, visões viscerais emolduradas pelo para-brisa —as obras de Gross e Andujar vão de US$ 15 mil a US$ 30 mil, ou cerca de R$ 81 mil a R$ 162 mil.
MÃE E FILHA O sexo como força política e feminista também está na Gomide&Co, que estabelece um paralelo entre as obras de Teresinha Soares, um furacão erótico da década de 1960, com trabalhos de sua filha, Valeska Soares, que opera num registro mais comedido, o amor doméstico que também pode nos tirar dos trilhos. São peças de séries importantes, como o caderno “Eurótica”, da mãe, e a instalação “Unhinged”, clássico da filha que articula cabeceiras de camas numa trama desarranjada —os trabalhos vão de US$ 8.000 a US$ 120 mil, ou R$ 43 mil a R$ 650 mil.
RIO 40 GRAUS Da cidade sangue quente, purgatório da beleza e do caos, a carioca Flexa faz uma seleção mais libidinosa impossível, em paralelo à escandalosa seleção de seus artistas agora em cartaz na novíssima Claraboia, em São Paulo. São obras de Adriana Varejão, Alair Gomes, Ivan Serpa, Joaquín Torres-García, Leonilson, Miguel Rio Branco, Tomie Ohtake, Tunga e Vik Muniz, todas bem trabalhadas na mais bela visão do encontro de corpos filtrado por olhares entre os mais brilhantes da arte contemporânea. É alta voltagem para aquecer o fim do inverno.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.


