Iniciativa reúne USP, Prefeitura Municipal, Senac, Fundet, Justiça do Trabalho e Usina Bela Vista em rede de inclusão social e profissional
Por Rose Talamone

“É por essa convergência que nós temos que entender que aquilo que nos une, muito mais do que aquilo que nos divide, é o que leva ao sucesso”, disse a vice-prefeita do campus da USP Ribeirão Preto, Eliana Franco Neme, ao abrir a cerimônia de formatura de mais uma turma do Projeto Aprendiz Cidadão. No auditório do Bloco Didático da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), na última terça-feira (25/8), 13 jovens receberam certificados após dois anos de formação, nove deles desenvolveram as atividades no campus da USP.
A USP, como entidade concedente da prática, tem papel central na iniciativa. Os aprendizes são distribuídos em setores administrativos de diversas unidades do campus, como a Faculdade de Medicina (FMRP), a Faculdade de Direito (FDRP), a Faculdade de Odontologia (Forp), a Escola de Enfermagem (EERP), a Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCFRP), a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA-RP), a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCLRP), a Escola de Educação Física e Esporte (EEFERP), além do Centro de Tecnologia da Informação (CeTI-RP) e da Prefeitura do Campus (Pusp-RP). Nessas unidades, os adolescentes exercem funções administrativas e de apoio, convivendo diariamente com professores, servidores e estudantes. Essa experiência aproxima-os do ambiente acadêmico e fortalece vínculos com a educação formal, ao mesmo tempo em que oferece prática profissional supervisionada e protegida.
A juíza do Trabalho Márcia Cristina Sampaio Mendes, uma das idealizadoras, lembrou que o projeto nasceu para enfrentar diretamente o trabalho infantil. “Esse é um projeto coletivo. Se algum de nós sair, ele não pode acabar, porque já se move sozinho. O que faltava para vocês era uma oportunidade. E aqui está a prova de que, quando ela chega, vocês são capazes de qualquer coisa.”
Já a representante da Secretaria Municipal de Assistência Social, Ana Alves, ressaltou a importância do trabalho coletivo que tornou possível a formatura: “União de forças, o nome não poderia ser mais importante. Vocês estão fazendo, vocês estão promovendo, vocês estão acreditando. E com isso está sendo possível transformar vidas”.
Resultados e trajetórias
O programa, fruto de convênio entre a USP, a Prefeitura Municipal, a Fundet, o Senac, a Usina Bela Vista e a Justiça do Trabalho, já apresenta resultados expressivos: 49% dos formados estão inseridos no mercado formal, 55% continuam estudando e 31% conciliam trabalho e estudos. A meta é alcançar 355 aprendizes até 2025, todos em situação de vulnerabilidade social — egressos do trabalho infantil, em medidas socioeducativas, acolhimento institucional ou famílias de baixa renda.
O Senac Ribeirão Preto, responsável pela formação teórica, estruturou o curso a partir do Jeito Senac de Educar, que valoriza vínculo, acolhimento e metodologias ativas. Os conteúdos foram adaptados para incluir temas como cidadania, autocuidado, saúde mental e educação financeira, fundamentais para fortalecer autonomia e autoestima. A instituição destaca que aproximadamente metade dos egressos já está empregada, alguns conciliando ensino superior e trabalho em grandes empresas.
A Fundet, executora do projeto, faz a seleção com base em critérios socioeconômicos, priorizando adolescentes de baixa renda e residentes em áreas de risco. Com equipe técnica de assistentes sociais e estagiários, acompanha jovens e famílias durante e após a aprendizagem. Os resultados incluem redução da evasão escolar, maior inserção no mercado de trabalho formal e fortalecimento da autoestima.
O poder da convergência
Para a Usina Bela Vista, responsável pelos contratos de trabalho, sua participação vai além do cumprimento da cota legal: “Cumprimos a lei e, ao mesmo tempo, damos oportunidade aos menos favorecidos. A integração dos jovens na USP amplia horizontes que não teriam sem o projeto. É ganho para toda a sociedade”.
A Prefeitura de Ribeirão Preto, mantenedora da Fundet, destaca que o Aprendiz Cidadão é exemplo de política pública transformadora. “O projeto mostra que é possível integrar educação, assistência social e trabalho em uma iniciativa única. É um modelo que prepara jovens para o exercício da cidadania e para o mercado de trabalho”, destacou a administração municipal.
A dirigente regional de ensino, Marcela Aleixo, reforçou a importância dessas oportunidades: “A coisa que eu mais gosto é ver aluno. Ver gente que quer aprender, que quer transformar a realidade. Isso vai nortear o caminho de vocês”.
Presente na solenidade, a desembargadora do Tribunal Regional do Trabalho Paula Santana falou diretamente aos jovens, ao lembrar sua própria trajetória: “Quem não tem herança, tem que estudar. O dinheiro acaba, mas ninguém pode tirar o conhecimento de vocês”.
A formatura coroou a conquista dos aprendizes e o esforço conjunto de instituições que se uniram em torno da educação e da cidadania, refletiu a juíza Márcia Cristina Sampaio Mendes, que concluiu: “Essa formatura não encerra nada, é apenas o fechamento de um ciclo. A história de vocês só está começando”.



