Estudo internacional com participação de professor da USP propõe novo modelo para analisar as “policrises”

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Um estudo internacional propõe um novo modelo analítico para compreender as chamadas “policrises” – fenômenos complexos nos quais múltiplas crises se interconectam e amplificam mutuamente. A pesquisa, publicada na revista The Lancet Planetary Health, focou na interação entre os sistemas energético e alimentar global, dois pilares fundamentais ameaçados por crises contemporâneas.
Leandro Giatti, professor do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP e coautor do estudo, explica que o conceito não é novo: “O próprio Edgar Morin já utilizava esse termo, definindo policrises na década de noventa”. No entanto, a pandemia de covid-19 tornou-se um exemplo “didático” dessa complexidade: “Ela transcendeu tanto os sistemas que fazem parte da nossa vida que acabou sendo muito elucidativa dessa perspectiva aplicada da crise múltipla”.
Sistemas em transformação
A pesquisa analisou dois sistemas globais interconectados: energia e alimentação. “O sistema energético global tem vários desafios, vários modais de produção”, observa Giatti, destacando que a transição para energias de baixo carbono ainda convive com a incerteza sobre “quando realmente vai ter essa inflexão da curva do consumo de combustíveis fósseis”.

Paralelamente, os sistemas alimentares enfrentam sua própria evolução problemática: “A gente tem visto uma degradação da qualidade nutricional, com a substituição de alimentos naturais por processados e ultraprocessados”. Giatti ressalta que essas mudanças afetam tanto cadeias produtivas quanto a saúde humana, gerando “obesidade, doenças crônicas” e pressionando recursos naturais.
Metodologia inovadora
O novo modelo analítico proposto incorpora dimensões frequentemente negligenciadas nas análises tradicionais. “A gente desenvolve uma perspectiva analítica focando um resultado final maior que a saúde da população”, explica Giatti. Isso inclui questionar “quem ganha, quem perde, quem tem interesse e influência” nas soluções propostas – como no caso do uso de inteligência artificial para a transição energética.
A abordagem também reconhece que “as sociedades humanas fazem parte do contexto da natureza. Nós não estamos fora destacados”. Essa visão integrada permite identificar soluções com “múltiplos ganhos”, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar brasileiro: “Quando eu fortaleço a cadeia produtiva local, eu dou alimento mais saudável, preservo a cultura e torno o ambiente também mais resiliente a crises”.
Aplicações práticas
Para Giatti, o valor da nova metodologia está em sua aplicabilidade: “O conhecimento que a gente precisa produzir para entender essas complexidades vai também gerar soluções que são excelentes em vários níveis”. O estudo oferece ferramentas para tomadores de decisão enfrentarem crises sistêmicas considerando suas interconexões – desde pandemias até mudanças climáticas.
O pesquisador conclui com uma visão esperançosa, destacando que não se trata de enxergar o mundo como algo cada vez mais complicado ou impossível de lidar, mas sim de compreender que a complexidade das policrises pode levar a soluções mais robustas e integradas para os desafios globais do século 21.
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