domingo, maio 17, 2026
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um concerto, um show, um espetáculo – Jornal da USP


Assim é The silence of sound. Criada pela regente mexicana Alondra de la Parra, titular da Orquestra da Comunidade de Madrid, e pela atriz-palhaça Gabriela Muñoz, a Chula, e realizada com a talentosíssima e queridíssima Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), a obra explora perspectivas e sentimentos diversos por meio da história de vida de uma palhaça-maestrina. A música orquestral se mistura com o teatro, a performance, a palhaçaria, as projeções gráficas generativas e uma iluminação cênica potente, em um empilhamento de sentidos e significados próprios do universo feminino. O som dos músicos, a imagem da cena, os corpos performáticos da palhaça e da regente, juntos, contam uma história sem palavras, porque desnecessárias.

Um amálgama de música e silêncio, luz e sombra, identidade e alteridade, leveza e densidade, dor e alegria, realidade e fantasia, ingenuidade e astúcia, paixão e mortificação. Com a execução de fragmentos de peças de Debussy, Bartók, Rimsky-Korsakov e Hamilton, esta última executada em meio a um oceano idílico que transforma a orquestra em uma floresta de corais virtuosos, segue-se com Weber, Massenet & Sibelius transitando de um acolhedor e romântico violoncelo (Rolando Fernandez) a um incitante e sedutor violino (Yorrick Troman), passando para a parte final com Prokofiev e Ibarra, na qual a regente rege e interpreta em um corpo frenético transbordante tomado pela música. O jogo de luz e sombra faz crescer a cena.

Chula, no silenciar da orquestra, interage com a plateia fazendo-a parte da performance em um momento de descontração, leveza e riso. Para finalizar, uma versão do Andante da Sinfonia n. 3 em fá maior, de Johannes Brahms, realizada sob a regência empoderada e orgulhosa de Chula, de fraque preto, marcando a solenidade e a grandiosidade do momento. A palhaça, agora maestrina, assume a centralidade da orquestra em uma regência liberta, marcando a monumental conquista.

The silence of sound é um multiespetáculo de pura sensibilidade e inovação ao explicitar a descoberta, o desenvolvimento e a potência criadora feminina. Importante sublinhar a inventividade e a sintonia das duas artistas Alondra e Gabriela, em que Chula se mostra atriz-palhaça-musicista e Alondra regente-musicista-atriz. Uma obra imaginativa, sensível e afetuosa, expressão das histórias de vida e amizade das artistas, com a música instrumental na centralidade. É também um concerto-homenagem às mulheres criativas, talentosas e também realizadoras.

Uma obra já apresentada no México, na Espanha e na Alemanha, vinda ao Brasil por meio da sensibilidade empreendedora de Marcelo Lopes, diretor executivo da Fundação Osesp, que, como músico talentoso, mostra-se também visionário e inovador na gestão da orquestra. A ousadia constrói o futuro e novas experiências musicais são o caminho para chegar lá maior e melhor.

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