Segundo Raquel Rolnik, tudo não passa de uma estratégia da Prefeitura e do governo do Estado para limpar a região dos Campos Elísios – ao mesmo tempo abrindo espaço para o setor imobiliário
Raquel Rolnik comenta o episódio ocorrido na semana passada, envolvendo o Teatro de Contêiner Mungunzá, alvo de ação truculenta da Guarda Civil Metropolitana, situação que ela define como completamente absurda, de vez que aquele espaço cultural ocupa um terreno que estava vazio e subutilizado há anos, além de exercer uma função social importante, promovendo arte, cultura e servindo como espaço lúdico para as crianças, acrescentando ainda um trabalho coletivo que realizava com mulheres e trans numa região vulnerável como é a dos Campos Elísios. O teatro foi notificado pela Prefeitura de que deveria sair dali – isso foi em maio – imediatamente. “Pois bem, surpreendeu completamente os artistas do Mungunzá essa notificação, supostamente para dar lugar a um conjunto habitacional que ninguém nunca viu o projeto, e pensando que tem milhões de terrenos ali vazios que foram desapropriados e onde qualquer projeto poderia ser construído também, mas enfim, isso gerou toda uma reação e uma mobilização muito importante do campo artístico e cultural.” Essa mobilização foi dirigida à Prefeitura, para que recuasse de sua decisão.
“Isso ensejou uma negociação com a Prefeitura, apresentando outros terrenos como alternativa, mas, nesse meio-tempo, a GCM entra com uma equipe da Subprefeitura no terreno no prédio ao lado e começa a demolir um prédio tombado, que é o local onde eles guardavam os cenários e, diante da reação atônita dos artistas, começa a jogar spray de pimenta, numa pressão truculenta e violenta para obrigar a sair. Bom, o resultado disso é que a mobilização e a reação foi ainda maior, em defesa do teatro. A Prefeitura agora oferece mais 60 dias, porque o prazo era quinta-feira, 21 de agosto, e, claro, um juiz deu uma liminar, que o próprio teatro entrou na Justiça contra o processo, dizendo que eles poderiam ficar mais 180 dias”, diz a colunista.
Ela conclui: “Esse teatro está inserido no centro da guerra em curso nos Campos Elísios, aonde Prefeitura e governo do Estado se aliam para eliminar e destruir qualquer vestígio de vida nesse local. Isso implica demolir, expulsar, remover moradores. Isso implicou fazer sumir a Cracolândia que, na verdade, continua existindo em vários outros lugares da cidade, mas sair dali e tirar o teatro faz parte dessa estratégia – para poder o quê? Entregar essa área limpinha, lindinha, sem vida nenhuma, para que o setor imobiliário corporativo possa ali produzir os seus produtos. Uma história absolutamente vergonhosa do urbanismo da cidade de São Paulo”, afirma Raquel Rolnik.
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