Cerca de 7 milhões de mortes prematuras são causadas anualmente por partículas minúsculas provenientes de tudo o que é queimado no dia a dia
Por Felipe Medeiros*

A qualidade do ar é fator determinante para a manutenção de uma boa saúde e bem-estar das populações por todo o mundo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 7 milhões de mortes prematuras – aquelas que acontecem antes da expectativa média de vida de uma população – são causadas anualmente por conta da má qualidade do ar. Ainda de acordo com a ONU, nove em cada dez pessoas no planeta respiram ar com níveis de poluentes acima dos considerados seguros, o que evidencia a importância e urgência na solução do problema.
No Brasil, os índices seguem o mesmo parâmetro do resto do mundo. Segundo estudo divulgado em 2024 pelo Painel Vigiar, iniciativa criada pelo Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente, para monitorar a poluição atmosférica e sua relação com a saúde humana, todas as regiões do País respiram o ar com níveis de poluição acima dos recomendados pela OMS.
Material particulado fino e suas consequências
O material particulado fino é apontado por especialistas como o principal vilão relacionado à má qualidade do ar. Também conhecido como PM2.5, o material particulado fino é uma partícula com tamanho de 2,5 micrômetros de diâmetro. Para se ter ideia, seria possível enfileirar cerca de 30 dessas partículas na espessura de um fio de cabelo. Para Thiago Nogueira, professor do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, especialista em questões climáticas relacionadas à qualidade do ar, o material particulado fino é o maior responsável por essas 7 milhões de mortes prematuras anuais, tanto pelo seu tamanho, mas, principalmente, por sua composição. “É um coquetel tóxico formado por tudo o que é queimado no dia a dia. Fuligem da fumaça de ônibus, caminhões e carros, cinzas de queimadas nas florestas e na agricultura, emissões industriais, compostos químicos e metais pesados são alguns exemplos. Tudo fica suspenso no ar que respiramos e é justamente esse tamanho minúsculo que torna o material particulado fino tão perigoso.”

Para compreender a relação entre a poluição do ar e as mortes prematuras o especialista acredita que é necessário entender como o material particulado fino atua no organismo dos indivíduos. “Devido ao seu tamanho, as partículas não se mantêm apenas nos pulmões, elas atravessam as barreiras pulmonares e caem na corrente sanguínea, se espalhando por todo o corpo. A partir disso, as influências são duas, principalmente: inflamação sistêmica e danos diretos aos órgãos.”
No caso da inflamação sistêmica, uma vez no sangue, o corpo trata o material particulado fino como invasor, disparando uma resposta inflamatória generalizada. Segundo o docente, “com a exposição diária a essas partículas, a inflamação se torna crônica, o que agride as paredes internas das nossas artérias, tornando-as mais suscetíveis à formação de placas de gorduras, chamadas de arteriosclerose, além do surgimento de coágulos. Essa combinação acarreta consequências graves para o indivíduo, podendo causar o infarto e o AVC, que são as principais causas das mortes prematuras”.
Em relação aos danos diretos aos órgãos, “além do problema vascular, a agressão contínua aos pulmões aumenta o risco de câncer de pulmão e agrava severamente doenças respiratórias crônicas, como a asma e a doença pulmonar obstrutiva crônica, podendo levar a crises fatais”, detalha Nogueira.
Ações de combate
O professor acredita que existem soluções para melhorar os índices globais de qualidade do ar, porém a questão é a urgência e interesse político em implementá-las. “É fundamental que ocorra um esforço conjunto entre governos, indústrias e população. Eu dividiria as ações em três frentes. Primeiro, é necessário mudar a forma como se gera energia. É a raiz do problema. Seria essencial abandonar a queima de combustíveis fósseis e acelerar a transição para fontes de energia limpa e renovável, como a solar e a eólica, que não emitem esses poluentes.”
Como segundo ponto, o pesquisador vê a necessidade de uma transformação nos transportes, já que toda fumaça de tonalidade preta gerada pelos escapamentos de ônibus e caminhões é puro material particulado fino. “É fundamental eletrificar a frota de transporte público e de carga, com ônibus elétricos, por exemplo, além de investir no transporte público de alta qualidade para que se torne uma alternativa real e atraente para os motoristas de carro particular. Além disso, a transformação das cidades para que sejam destinadas para as pessoas e não para os carros, ou seja, com um maior investimento na criação de ciclovias seguras, calçadas maiores e com incentivo maior à caminhada.”
Por fim, Nogueira destaca o controle das fontes industriais e agrícolas. Segundo o docente, as indústrias precisam adotar tecnologias mais limpas e instalar filtros eficientes em suas chaminés para capturar os poluentes que chegam na atmosfera. Por outro lado, “no campo é fundamental controlar e eliminar a prática das queimadas para limpeza de terreno, que são uma fonte gigantesca de poluição do ar em determinados meses, como vemos todos os anos no Brasil. Todas essas medidas precisam ser fiscalizadas e amparadas por leis ambientais mais rigorosas que adotem os padrões recomendados pela Organização Mundial da Saúde”.
*Estagiário sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares




