O que me move, no entanto, para este depoimento são momentos ímpares no domínio da memória dos afetos. A começar pelo autor de Incidente em Antares, romance que de certa forma acompanhei na sua escritura, pois trabalhava até final de 1970 na Editora Globo de Porto Alegre. Antes de me mudar para São Paulo, em dezembro desse ano, o convívio com Erico na editora me fez conhecer o seu legado de indicações primorosas da literatura internacional, o que deu à Globo de Porto Alegre o grande acervo hoje abrigado pela atual Editora Globo. Essa presença do escritor junto ao amigo e editor Henrique Bertaso e seu filho José Otávio Bertaso era constante. Sábados pela manhã, no prédio da casa editorial, no térreo onde a Livraria do Globo era intensamente frequentada, na Rua da Praia em Porto Alegre, havia um gabinete onde o círculo intelectual gaúcho se reunia e, com a presença de Erico, debatia as novidades editoriais.
Data desses tempos do meio dos anos 1960, em que, formada em Letras e Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1964), fui contratada como secretária editorial da Globo, onde já trabalhava como jornalista na Revista do Globo. Vem daí o primeiro cruzamento com o famoso escritor que conhecia por seus romances, preparação indispensável para os dois vestibulares a que anos antes havia concorrido. Estávamos à volta, no departamento editorial, com a edição de uma obra e um autor norte-americano que Erico trouxera para publicar no Brasil: Numa terra estranha, de James Baldwin. Fui encarregada de escrever o texto da quarta capa, e meu chefe imediato, José Otávio Bertaso, desceu ao térreo num desses sábados de reunião no gabinete do pai, Henrique Bertaso, para submeter, principalmente ao principal consultor, aquela página datilografada. Erico leu com acenos de aprovação – vim a saber pelo relato posterior do José Otávio – e por fim perguntou: quem escreveu este texto? O jovem editor anunciou timidamente: foi uma guria que entrou há pouco na editora. Erico, de pronto: uma guria? Escreve como um homem.
Esse foi o primeiro elogio que recebi a um texto de tal compromisso, no caso, a quarta capa do famoso romance de Baldwin. Não recebi aumento, mas a circunstância incidental me abriu as portas da casa da família Verissimo para entrevistas da Revista do Globo ou para tertúlias literárias. Dona Mafalda, a companheira de Erico, e o filho Luis Fernando participavam das visitas, com simpatia e discrição. O autor de O tempo e o vento, sempre que podia, puxava o tímido herdeiro para a roda, porque no íntimo e na palavra a amigos, confessava a admiração pelo talento de Luis Fernando Verissimo. Se alguém dissesse que na rua onde moravam, era preciso assinalar da casa do grande escritor gaúcho, retrucava com ênfase que não, antes dele se destacava um maior, seu filho.
Sempre cito aos escritores às voltas com a luta para armar estruturas romanescas e seus personagens, uma conversa com Erico Verissimo quando estava trabalhando no romance Incidente em Antares. O ficcionista me levou para perto de sua mesa de trabalho e mostrou, atrás da robusta máquina de escrever e suas teclas cantantes, vários bonecos desenhados, recortados em papel e encostados à parede. Diante de minha curiosidade, logo esclareceu: – Sabe o que é isso? Eu desenho meus personagens antes de começar a contar suas peripécias, ponho na minha frente e lá vou eu para a trama. Parou, olhou pra mim com um ar gozador: – E sabe o que acontece? Lá pelas tantas esses bonecos não servem mais, porque os personagens tomam conta de mim e me conduzem. Que maravilha eu ter compreendido, naquele instante, a imprevisibilidade da criação literária (o que hoje talvez sirva para pôr em xeque as regularidades previsíveis da IA generativa).
Mas a morte de Erico Verissimo em novembro de 1975 me faz registrar outro momento – desculpe, quem lê este texto, a intensidade afetiva e pessoal das circunstâncias. Também era um sábado quando chega a notícia na redação do jornal O Estado de S. Paulo. A pouco mais de um mês, havia sido contratada como copidesque (redatora) de uma equipe de quatro jornalistas que reescreviam diariamente o jornal. A meu lado, na Editoria de Artes, uma jovem estagiária, cobrindo férias, foi encarregada de escrever o perfil de Erico. Coitada, se escabelava diante das pastas de arquivo (estávamos longe da internet ou do Dr. Google para fazer pesquisa). Fiquei compadecida da menina, falei com o editor, expliquei que conhecia bem o escritor e que podia tomar conta desse perfil. Não foi difícil compor a estrutura informativa, mas foi mobilizador de intensas emoções lembrar os anos 1960 e o convívio com a família Verissimo em Porto Alegre, antes de me mudar para São Paulo em dezembro de 1970. O fato é que talvez essa intensidade afetiva diagramada numa página do jornal de domingo me rendeu, na segunda-feira, o convite para sair do copidesque geral para a Editoria de Artes. E então, por quase dez anos, passei a conviver com a resistência cultural dos artistas brasileiros pela reconstrução democrática do País, que mergulhara na ditadura militar no dia de minha formatura em Jornalismo, 31 de março de 1964, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.
Pois bem, por aí vamos a Luis Fernando. Embora sua discreta presença na produção literária tenha sido adiada quase até à morte do pai, tão logo começou a produzir suas crônicas do cotidiano estaria alinhado à consagrada tradição de autores brasileiros como Rubem Braga, Fernando Sabino ou Luís Martins, para falar de alguns dos muitos cronistas de excelência na estirpe ao longo do século 20 marcada, de início, por João do Rio. Agora, na morte de Verissimo não houve meias palavras para saudar a caudalosa criação artística do filho de Erico. Ainda bem que houve tempo dos anos 1970 até primeiras décadas do século 21 para desfrutarmos essa assinatura na literatura brasileira. Só tenho a lamentar que, nos anos 1980, ao me dedicar ao inventário dos escritores vivos de língua portuguesa, não o tenha presente no volume dos poetas, ficcionistas e ensaístas nacionais (637 páginas), A posse da terra, Escritor brasileiro hoje, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985. Não foi por falta de esforço de minha parte. Após ter ido a Portugal colher depoimentos e fragmentos de obras dos escritores lusitanos em ativa e desconhecidos no Brasil no início dos anos 1980, o que resultou em outro título, Viagem à literatura portuguesa contemporânea (1983), e, embora já trabalhando com os nacionais, retomei a peregrinação no território brasileiro e, claro, fui a Porto Alegre, como a outras capitais, para me encontrar com os escritores gaúchos, entre eles, Luis Fernando Verissimo. Sua casa e sua família já conhecia dos tempos de Editora Globo nos anos 1960, quando ainda vivia na cidade. Era um prazer, sempre que houvesse uma oportunidade, ainda mais depois da morte de Erico em 1975, poder avivar laços com este lar de literatura pulsante.
Foi em vão minha insistência de que o autor do sucesso explosivo de O analista de Bagé participasse da coletânea que compunha na tríade que no fim da década seria completada na minha visita aos cinco países da África de língua portuguesa (Sonha Mamana África, 1987.) A teimosia de repórter, a argumentação de pesquisadora não demoveram a atitude persistente do escritor. Luis Fernando Verissimo fechou questão: – Não sou escritor para entrar no seu livro, sou um cronista que escreve para jornal, meus textos não têm importância literária… A minha não conformidade com tal modéstia se armou num discurso de persuasão, mas bateu no muro inabalável das razões do escritor, que eu não aceitava. Que fazer?
(Esse episódio teve outra consequência na minha vida doméstica. A posse da terra, depois de festivos lançamentos em Lisboa, Coimbra, Porto e Évora, em Portugal [1985], com uma delegação de escritores brasileiros liderada pelo historiador que escreveu o prefácio, o professor Antônio Soares Amora, da Universidade de São Paulo, na volta a São Paulo, teve um lançamento local no Museu da Imagem e do Som – MIS. Ao chegar a casa, meu filho Daniel, adolescente alucinado pelo analista de Bagé, pegou o meu livro, começou a folhear, foi ao sumário e me interpelou: – Cadê o Luis Fernando? Mal expliquei por que não constava da galeria de escritores ativos nos anos 1980, nem me deixou esmiuçar o drama, ele jogou o volume de lado com a crítica assertiva: – Esse seu livro não presta.)
Outra cena trágico-humorística serve para completar esta homenagem afetiva a um dos artistas brasileiros, da regência jazzística na música paralela à regência verbal das acontecências cotidianas. Por que levou a público a literatura só na maturidade, pouco antes da morte do pai, Erico Verissimo? Talvez sua mãe tenha a chave do cofre onde o filho escondeu da visibilidade gaúcha e nacional seu talento. Pelo menos foi o que Dona Mafalda contou em um hotel de Gramado num Festival de Cinema em que eu estava trabalhando para o jornal O Estado de S. Paulo, em 1980, se não me engano. Conversávamos de velhas histórias que a viúva de Erico trazia à roda de um pequeno grupo em que eu estava presente, quando desencavou o seguinte relato: – Um dia, estava na sala de visitas com Erico, quando Luis Fernando, tinha lá uns 18 anos, veio até nós com uma folha escrita à mão e nos mostrou, olhem aí uma coisa que escrevi; ambos lemos com entusiasmo e Erico não se conteve em elogios, que crônica, meu filho, muito bem escrita, parabéns, continua a escrever, muito bom, muito bom; nem bem eu pude elogiar o texto do meu filho quando a campainha tocou e entra uma vizinha e amiga da casa; não me contive, peguei a crônica das mãos do Erico e pus nas mãos da visitante, veja aí isso que o Luis Fernando escreveu; enquanto ela lia com acenos positivos da cabeça, meu filho se encolhia de vergonha no sofá; ao terminar a leitura, se vira para o autor e dá o veredito – muito bom, muito bom, Luis Fernando, mas que tem o dedinho do seu pai, tem.
Ao terminar o relato desta cena, Dona Mafalda virou para o seleto grupo que a ouvia no hotel de Gramado e, irada, completou: – Essa vizinha provocou o adiamento da criatividade de meu filho vir a público quase até à morte do Erico. Felizmente já vivíamos nesse momento, de leitores adolescentes a adultos, o prazer da escrita de ambos os Verissimo.
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