No bairro da Liberdade, localizado na região central de São Paulo, coletivos e associações negras e indígenas têm mantido viva uma história de violência e resistência enterrada sob camadas de tijolo e concreto pela modernização da cidade. Trata-se do Movimento dos Aflitos, um agrupamento de mais de 70 entidades e associações, além de ativistas, políticos, pesquisadores e frequentadores da Capela de Nossa Senhora dos Aflitos. O movimento defende e passa adiante as memórias ancestrais do bairro por meio de ações educativas, caminhadas pedagógicas e militância política.
O epicentro dessa luta está na Capela dos Aflitos. Espremida no fim de uma rua sem saída, ela é o último remanescente visível do Cemitério dos Aflitos, uma necrópole que hoje se encontra escondida sob a quadra entre a Rua Galvão Bueno, a Rua dos Estudantes e a Rua da Glória. Nos séculos 18 e 19, era lá onde sepultavam-se os escravizados mortos no Largo da Forca. A forca, por sua vez, ficava onde hoje é a Praça da Liberdade.
O movimento é tema da dissertação de mestrado Ecos da Liberdade: o agenciamento das memórias e identidades negro-indígenas e a herança simbólica institucionalizada sobre a Capela e Cemitério dos Aflitos em São Paulo, do professor Wesley Vieira. O trabalho foi apresentado em 2024 ao Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades (Diversitas) da USP. Inserido entre os estudos da história e de um turismo crítico, a dissertação trata do agenciamento da memória no bairro por ações de turismo étnico e religioso, de memória e de educação patrimonial. Isto é, dizer como e por quem as memórias negro-indígenas do bairro são geridas.
A luta pela valorização dessas memórias resiste ao apagamento produzido por uma sucessão de projetos urbanos que modificaram o território. Segundo Vieira, a sobrevivência da Capela “não é apenas uma benevolência das elites ou do sistema imobiliário que não a demoliu, mas sim uma permanência do culto a Chaguinhas, à Nossa Senhora dos Aflitos e às Treze Almas”. Hoje, a Capela dos Aflitos está fechada para um restauro há muito tempo reivindicado pela sociedade civil e a previsão é que ela seja reaberta apenas em meados de 2026.
Vieira, além de pesquisador, é membro ativo de uma das organizações do movimento: a União dos Amigos da Capela dos Aflitos (Unamca). Ele atua como tesoureiro e educador, atendendo grupos escolares, turísticos, de professores e da imprensa para contar a história do lugar. Seu envolvimento com a Unamca começou com sua pesquisa, em 2020.
“Bati na porta”, conta, “e a pessoa que me recebeu foi a Eliz Alves, considerada minha mãe, e ela falou que, para poder conhecer melhor a Unamca e essas memórias, eu precisava estar lá”. Logo, começou a frequentar as missas às segundas-feiras, até se tornar voluntário. O pesquisador se colocou em uma posição, como ele mesmo diz, de “pesquisator”. “Ao mesmo tempo que eu estudava essas memórias, eu também divulgava essas memórias, ou seja, de certa maneira eu também me estudava enquanto atuação”, diz Vieira.


