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Bienal: Precious Okoyomon faz obra de arte com o Cerrado – 03/09/2025 – Ilustrada


Um emaranhado de plantas se expande em um desenho sobre o papel, onde rabiscos e versos se confundem. Precious Okoyomon, 31, artista e poeta não-binário, alterna o olhar entre o traço e o horizonte ao ilustrar e escrever.

Na 36ª Bienal de São Paulo, que abre neste sábado, Okoyomon apresentará uma instalação inédita —inspirada no trabalho que exibiu na 59ª Bienal de Veneza, em 2022, “To See The Earth Before the End of the World”, ou “ver a terra antes do fim do mundo”. Na Itália, a obra combinava materiais orgânicos vivos e em decomposição, num ambiente sensorial que refletia conexões entre natureza, colonialismo e emancipação social.

Okoyomon, que cresceu entre Inglaterra, Nigéria e Estados Unidos, ganhou destaque por criar ambientes que mesclam esculturas e organismos vivos, abordando também questões de corpo, gênero e raça. A obra “Sol da Consciência. Deus Sopra Através de Mim –O Amor me Quebra”, que será apresentada em São Paulo, foi inspirada por experiências que viveu em Minas Gerais.

O trabalho é um jardim com plantas nativas do Cerrado, selecionadas para refletir a passagem do tempo, a resiliência e a memória ambiental. A prática da jardinagem, junto dos materiais poéticos e visuais, traduz sua concepção de espaço como pintura viva: “Vejo o jardim como pintura, as cores, a sucessão das flores —tudo precisa acontecer exatamente como vejo. E as obras são poemas, e os poemas são obras”, diz Okoyomon.

Ao comentar sobre o presidente dos EUA, Donald Trump, Okoyomon relaciona o fazer poético à experiência cotidiana. “Sobre [os impactos de] Trump estar no comando, o que penso é que esse tipo de situação sempre existiu. Se não compreendemos nosso passado, as estruturas que o criam continuam a nos aprisionar. Então não é como se Trump fosse algo que nunca tivemos antes. É apenas o mesmo tipo de supremacismo branco.”

Okoyomon afirma que a construção de pontes e a continuidade do trabalho de cuidar das pessoas é essencial. Diz que, do ponto de vista geológico, o tempo funciona em outro nível, e que esse tipo de turbulência na política passa rapidamente.

Okoyomon passa agora um período no Brasil. Desde o início de agosto, é a primeira pessoa residente da Casa Onze, espaço no centro da cidade criado por Frederik Schampers, diretor da galeria Gladstone, de Nova York. Diferente de um ateliê tradicional, a Casa Onze não tem a finalidade de exibir trabalhos: funciona como um laboratório de convivência, escrita e pesquisa, aberto a artistas de todo o mundo em residências rotativas.

Na residência, além de se dedicar ao trabalho que apresenta na bienal, onde tem passado quase o dia todo em montagem, Okoyomon explora novas possibilidades da escrita e da cultura brasileira, mantendo a poesia como eixo central: “Aprendo a ficar entre dois mundos: a beleza da natureza e a escuridão da história. Às vezes o abismo entre eles parece infinito.”

Quanto à sua trajetória e inspirações, Okoyomon descreve o impacto da poesia em sua vida desde a infância. “Sempre fui poeta. Nunca foi algo separado de mim ou da forma como compreendo o mundo e a materialidade da vida. É a frequência que sigo para entender as coisas de um modo diferente. Tudo que surge disso é como um grande esqueleto que se estende através dos objetos que faço, do espaço que crio ou dos desenhos —são notas infinitas para este poema.”

Entre suas influências e interlocutores, cita desde filósofos como Simone Weil, psicanalistas como Lucy Gary, pensadores como Jung, artistas como Adrian Piper e Pier Lee, até místicos do século 18 e poetas contemporâneos como Alice Notley e pessoas que pensam o tempo de forma lenta —formando um panorama de referências que alimenta sua prática poética e relação com o mundo.



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