quarta-feira, março 18, 2026
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Robô autônomo com IA realiza primeira operação em tecido humano – Jornal da USP


Júlio César Silva comenta a respeito desse experimento pioneiro nos EUA, o qual mostra potencial da IA em cirurgias, mas levantando questões éticas e expectativas para a próxima década

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Ilustração de uma sala de cirurgia moderna equipada com tecnologia robótica. A iluminação é azulada, transmitindo a ideia de ambiente tecnológico.
Tecnologia robótica promete maior precisão e democratização de procedimentos cirúrgicos – Imagem: pikisuperstar/Freepik
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Pela primeira vez, um robô cirúrgico equipado com inteligência artificial realizou, de forma totalmente autônoma, uma operação em tecido humano. O marco histórico aconteceu na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, quando a máquina efetuou com sucesso a remoção de uma vesícula biliar, procedimento chamado colecistectomia. O avanço abre caminho para uma nova fase de cirurgias mais precisas e seguras, destacando o papel crescente da inteligência artificial nos hospitais. Mas problemas ainda precisam ser resolvidos, como possíveis falhas de hardware e software e questões éticas.

Homem de pele clara, cabelos curtos e grisalhos, veste terno cinza, camisa branca e gravata vermelha listrada. Ele está sorrindo.
Júlio César Silva – Foto: Arquivo pessoal

O médico e professor Júlio César Silva, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, destaca as maiores vantagens do avanço tecnológico. “Primeiro, a precisão com que o robô pode realizar o procedimento. Segundo, a otimização do tempo cirúrgico com segurança e velocidade, principalmente em cirurgias de baixa complexidade. E terceiro, a democratização.” O acesso global a essa técnica, quando a tecnologia se tornar mais acessível, segundo ele, permitirá que procedimentos de altíssima complexidade sejam realizados em qualquer parte do mundo. “Hoje, infelizmente, mesmo em países desenvolvidos, o acesso à cirurgia robótica é menor do que as cirurgias convencionais por questões financeiras”, explica. “Portanto, com o aparecimento de novos consoles de outras empresas, o custo tem sido minimizado, tanto dos instrumentos quanto dos equipamentos por si só.”

Apesar do grande avanço, a tecnologia ainda apresenta limitações. Eventualmente, falhas de hardware e software podem acontecer no intraoperatório e comprometer o resultado da cirurgia. O especialista alerta  para uma questão ética em relação a isso. “Se o robô cometer algum erro durante um procedimento, quem seria responsabilizado? O cirurgião, o fabricante do equipamento, o hospital que o adquiriu? Essa é uma questão ética que ainda precisa ser muito bem discutida pelas entidades de controle, para definir como agir em casos de complicações ou falhas do sistema.”

Ascensão robótica

Em 2022, o robô autônomo de tecido inteligente Star, desenvolvido pela empresa Krieger, realizou a primeira cirurgia robótica autônoma em um animal vivo: uma laparoscopia em um porco. No entanto, o procedimento exigia tecido especialmente marcado, ocorria em ambiente altamente controlado e seguia um plano cirúrgico fixo e pré-definido. Agora, um novo experimento utilizou a tecnologia SRT-H, construída com a mesma arquitetura de aprendizado de máquina que dá suporte ao ChatGPT. Esse modelo consegue interpretar situações, tomar decisões e se adaptar em tempo real durante cirurgias, além de responder a comandos de voz da equipe médica. Para treinar o SRT-H, a máquina assistiu a vídeos de cirurgiões da Johns Hopkins realizando colecistectomias em cadáveres de porcos, complementando o aprendizado com legendas detalhando cada etapa do procedimento. Após essa preparação, o robô realizou a cirurgia com precisão total.

O especialista acredita que, com avanços tecnológicos, robôs poderão executar procedimentos com eficiência superior à dos cirurgiões tradicionais. “O ser humano está sujeito a situações de estresse, cansaço e até tremores naturais, fatores que o robô minimiza por operar de forma independente. É verdade que o robô ainda não consegue perceber sensações táteis e térmicas durante a cirurgia, mas, de maneira geral, acredito que os robôs conseguirão executar o procedimento tão bem quanto os humanos e, às vezes, até com mais precisão.” Ainda não há previsão de quando o robô será testado em pacientes vivos, mas a expectativa dos cientistas é de que isso possa acontecer na próxima década.

O médico no futuro da cirurgia tecnológica

Mesmo com os avanços da cirurgia robótica, o papel do cirurgião continua essencial. Embora o robô consiga executar procedimentos com alta precisão, a experiência e o julgamento clínico do médico são fundamentais para tomar decisões em tempo real e lidar com situações inesperadas durante a operação. O professor acredita que o papel do cirurgião vai ser sempre central. “Ele vai continuar sendo importante e essencial no procedimento, na indicação da cirurgia, na resolução de eventuais complicações, no ato cirúrgico controlando o robô por voz, e indicando os melhores procedimentos e as melhores técnicas a serem realizadas. Além de ser o cirurgião que vai treinar e adequar o computador aos diferentes procedimentos cirúrgicos mesmo pré-operatoriamente.”

Silva conclui que dificilmente o cirurgião será substituído e a tecnologia é complementar. “Todo procedimento, toda técnica e toda tecnologia incorporada no atendimento da saúde complementa o trabalho do médico, mas não o substitui totalmente. Pelo menos a curto e a médio prazo, nós não vamos ter situação de substituição do profissional médico por robô, pela IA ou por qualquer outra tecnologia.”

*Estagiário sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares



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