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Giorgio Armani montou reino entre o rigor e a generosidade – 04/09/2025 – Ilustrada


Nem a melhor cartomante poderia prever o futuro da moda se Giorgio Armani tivesse se rendido à complexidade do curso de medicina.

Diferente de contemporâneos como Valentino Garavani, que desde cedo sonhava com os volumes, texturas e brilhos metálicos das musas de Hollywood nas telas acinzentadas do cinema, o menino Armani era atraído pelos livros do escritor escocês A.J. Cronin, que narravam a vida de um médico rural, e queria ser esse mesmo herói capaz de salvar crianças e idosos. Sua intenção nunca foi construir um legado régio, menos ainda ser reconhecido por um estilo de vida sinônimo de luxo.

Sua chegada à indústria foi quase uma falta de opção: após abandonar os dois anos de universidade e cumprir o tempo de serviço militar obrigatório, voltou a Milão desorientado. Sem saber o que fazer, aceitou a dica de uma amiga e buscou trabalho numa loja de departamentos da cidade, a La Rinascente –e foi aceito. Um acidente que começou bem.

Mesmo avesso à nostalgia, Armani, até os 91 anos, demonstrou orgulho por ter traçado seu próprio caminho, sem escolas renomadas de moda na bagagem, mantendo-se fiel à sua visão de estilo e à teimosia de controlar o que levava uma etiqueta com seu sobrenome. A cada oportunidade de entregar seu legado às mãos dos conglomerados franceses, teve o prazer de recusá-la.

De fato, os desafios de decorar vitrines e, mais tarde, ser responsável por comprar as coleções masculinas da La Rinascente não o tornaram imediatamente essa autoridade do mercado. Mas o levaram até a pessoa certa na hora certa.

Em 1965, chegou à Armani a notícia de que Nino Cerruti estava em busca de um designer para sua marca Hitman. Assim que contratado, recebeu o primeiro desafio: desconstruir o guarda-roupa dos homens.

Encorajado pelo ex-companheiro de negócios e de vida —e seu grande amor—Sergio Galeotti, morto em 1985, Armani aceitou a ideia de fundar sua grife homônima, em 24 de julho de 1975. Seu surgimento foi revolucionário.

Quando a alfaiataria masculina respeitava padrões tradicionais, ele resolveu retirar forros e reforços para torná-la leve. Assim como ao propor um visual mais forte para as mulheres, deu mais estrutura às peças, e ensinou sobre expressar força feminina sem recorrer à masculinidade explícita.

Sua estética seduziu o diretor Paul Schrader, que voou em julho de 1979 para a Itália. No ateliê, Armani mostrou as roupas do seu próximo verão e eram exatamente o que Schrader buscava para o protagonista de “Gigolô Americano“. A repercussão do filme, com Richard Gere vestindo suas criações, foi o estopim para mostrar ao mundo que Armani sabia ensinar sobre a elegância do “Made in Italy“.

O que nasceu como um terno leve se transformou em um estilo de vida inspirador. Restaurantes, hotéis, itens de decoração e perfumaria foram segmentos que levaram sua assinatura de sofisticação. Assim como o museu Armani Silos, que foi inaugurado há uma década. Segundo o designer, o espaço é a resposta para qualquer um que diga que não fez nada ou apenas se repetiu. A atemporalidade, parte dos seus códigos, frequentemente foi confundida com monotonia.

O ritmo seguido por Armani nunca foi ditado pelo mercado, mas de acordo com os seus princípios —às vezes, incompreensíveis. Um exemplo marcante ocorreu em 23 de fevereiro de 2020, quando, com o anúncio dos primeiros casos de Covid-19 na Lombardia, comunicou que apresentaria sua coleção a portas fechadas, ao contrário de colegas de calendário que não entenderam o risco de imediato.

Assim como nessa decisão, Armani mostrou-se sensível a uma série de crises humanitárias. Não à toa, sua história carrega memórias dos dias em Piacenza, cidade onde nasceu em 1934.

Seu pai, Ugo Armani, foi contratado para trabalhar como escriturário num quartel-general fascista. “Trabalhar para o regime era quase uma questão de autopreservação”, recorda o estilista em sua autobiografia “Per Amore”, ou por amor, publicada em 2015 pela Rizzoli.

Apesar da infância confortável ao lado dos irmãos e dos pais, carregou lembranças duras desse período: viu amigos de infância serem atingidos por bombas de guerra e o irmão Sergio tornar-se voluntário das Fiamme Bianche, um grupo de jovens voluntários fascistas.

O que o designer já chegou a considerar uma espécie de culpa —não ter dedicado tempo a si mesmo, absorvido pelo trabalho da manhã à noite—, por outro lado, sempre lhe trouxe prazer —cuidar dos outros. Entre a disciplina e o cuidado, o rei da moda italiana construiu não apenas um reino, mas uma vida dedicada a transformar rigor em generosidade.



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