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O belo e virtuoso na distopia de Lobato e na utopia de Hundertwasser – Jornal da USP


Dentre os mais interessantes lugares para se visitar em Wittenberg – além da Schlosskirche, a igreja em cuja porta Martinho Lutero fixou suas 95 teses –, encontra-se o Luther-Melanchthon-Gymnasium, uma escola famosa pela arquitetura de seu prédio. Em estilo Hundertwasser, as cores vivas e linhas suavemente curvas convidam alunos e visitantes a seguirem por um caminho harmonioso e alegre – sem a rigidez das linhas retas, ângulos de 90 graus e tons monótonos.

A reforma do prédio Plattenbau (pré-fabricado) dos anos 1970 do século passado, típico do período comunista, foi feita entre 1997 e 1999, esperando-se que os novos hábitos proporcionados aos frequentadores do edifício, onde tudo foi projetado para que o movimento ocorra em suaves linhas curvas, resultem em atitudes mais harmônicas e propensas à alegria.

Nascido a 16 de dezembro de 1928, em Viena, Friedrich Stowasser – mais conhecido como Hundertwasser – dedicou-se à pintura e à arquitetura, vindo a falecer perto da Nova Zelândia, a bordo do transatlântico Royal Mail Ship Queen Elizabeth II a 19 de fevereiro de 2000.

Ao considerar a arquitetura como extensão do ser humano – sua “terceira pele” – e da natureza, Hundertwasser integrava plantas e mosaicos coloridos às formas orgânicas de seus projetos, enquanto dispensava as linhas retas – antinaturais, em sua concepção.

Ao passearmos pelas ruas da fictícia Erópolis, não é difícil constatar similitudes com o princípio filosófico em que repousa a arquitetura de Hundertwasser:

(…) Uma cidade das Mil e Uma Noites, erguida no mais belo recanto dos Adirondacks e exclusivamente dedicada ao Amor. Para lá iam os enamorados, os casados em lua de mel, nela só permanecendo durante o período da ebriedade amorosa. O senhor Ayrton com certeza já amou e sabe como o amor desabrocha em flores e perfumes as criaturas. Pois imagine um éden criado pela fantasia de todos os grandes amorosos – Dante, Petrarca Romeu, Leandro, de colaboração com todas as grandes amorosas, Beatriz, Julieta, Hero. Imagine a rainha Mab a provocar sonhos nesses inebriados e Ariel a realizá-los com o carinho que punha Ariel nas comissões de Próspero. O bafo de Calibã nem de leve embaciava os mármores de Erópolis – a maravilha suprema das artes humanas ao serviço do Amor.

Nada lembrava ali o organismo que é uma cidade comum – misto de órgãos nobres e vísceras de funções humilhantes. Em vez de ruas geométricas, meandros irregulares, ganglionados magicamente de pelouses e moitas nupciais. Sumiam-se nelas os amorosos passeantes e em tais ninhos de doçura trocavam o beijo que elabora o porvir. Tudo se planeara em Erópolis com o intento de dar à criatura as mais finas sensações estéticas, de modo que os seres ali concebidos já se plasmassem em beleza e harmonia desde o contato inicial dos gametas. Os filhos de Erópolis passaram a constituir uma elite na América – a nova aristocracia dos filhos do Amor e da Beleza (…)

Em O presidente negro ou O choque das raças, romance de Monteiro Lobato publicado em 1926, o jovem Ayrton é levado a conhecer o futuro revelado a Miss Jane pelas lentes do porviroscópio – uma espécie de câmera que permite a observação do futuro. Em 2228, futuro revelado à jovem, os Estados Unidos se encontravam em um alto patamar de desenvolvimento humano graças à aplicação, geração após geração, de processos eugênicos com vistas a aperfeiçoar o caráter humano. O resultado, revelado no romance, é um mundo perfeito onde vivem pessoas perfeitas que, por serem perfeitas, não mentem, não matam nem desobedecem à lei – a mentira, o assassinato e a desobediência civil são apresentados como falhas de caráter há muito deixadas para trás por aquela sociedade de pessoas de moral ilibada. E este resultado não poderia ser mais catastrófico – eleito um presidente negro que pretendia dividir o país em duas partes, uma para a população negra e outra para a população branca, os homens de estado que não queriam a divisão do país e, ao mesmo tempo, não podiam nem mentir, nem atentar contra a vida do presidente eleito – Jim Roy – nem desobedecer à Constituição – revestida de sacralidade por ter sido assinada pelos “Pais Fundadores” –, que determinava a posse do presidente eleito, fazem coisa pior do que matar, mentir ou desrespeitar a Constituição. Após muito buscarem uma solução, tornam o processo de alisamento de cabelo, vastamente empregado pela população negra desses fictícios e futuristas Estados Unidos, esterilizante para os homens. Assim, em um sistema tão simplista como o daqueles cálculos de física que só funcionam no vácuo, em algum momento a população negra seria extinta e o país voltaria à unidade. Vários outros elementos simplistas dão o tom alegórico desta história que visa demonstrar o absurdo da manipulação e controle da sociedade com o fim de se chegar artificialmente à perfeição.

Tais manipulação e controle iam aos mínimos detalhes, a ponto de haver um ministro da Seleção Artificial e de se escolher como local ideal para reprodução uma região que, mesmo fora dos limites da ficção, revestia-se de caráter idílico desde o fim do século 18: a região de Adirondacks, em Nova Iorque, famosa por atrair aqueles que desejavam se esquivar dos inconvenientes da vida urbana.

Projetada para proporcionar prazer e harmonia estética, Erópolis se caracteriza pela arquitetura orgânica e integrada à natureza, gerando um ambiente em que a beleza e a harmonia exercem influência positiva sobre quem a habita. A experiência humana – uma experiência harmoniosa e plena de felicidade, regida pela Beleza enquanto entidade capaz de promover a elevação moral – ocupa o centro das atenções tanto de Hundertwasser quanto do arquiteto que planejou a Erópolis das páginas de O presidente negro ou O choque das raças, um romance de 2228.

A distopia de Lobato, que apresenta, ainda que por meio de alegoria, as atrocidades imprevistas – ou nem tanto – que o controle e manipulação da humanidade podem gerar, foi publicada ainda na primeira metade do século 20, na França e na Itália, mas nada indica que Hundertwasser a tenha conhecido. A base filosófica na qual a sua arquitetura se baseia, porém, é a mesma do conceptor de Erópolis: a kalokagathia – conceito grego que associa a Beleza (Kallos) à ideia de virtude, derivando da expressão kalos kai agathos (belo e virtuoso). Na cultura da Antiga Grécia, o ideal de perfeição se encontrava enraizado na filosofia e arte e seria atingido por meio do equilíbrio e da proporção, sendo o Cosmos (Kósmos) a mais elevada expressão de Beleza, porquanto harmonioso. Daí, talvez, a semelhança entre a arquitetura de Hundertwasser e de Erópolis, com seu traçado orgânico e cores alegres.

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