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Startup utiliza ciência da informação para encurtar e baratear diagnósticos de neurodivergências – Jornal da USP


Pesquisador da USP fundou empresa a partir de trabalho que desenvolveu em programa de mestrado profissional

Uma colagem de duas fotos: primeiro, um homem careca de barba cheia, usando óculos de grau, fazendo um sinal de paz levantando o dedo médio e indicador. Depois, uma sucessão de desenhos multicoloridos de cérebros
Gabriel Cirino, criador da startup, é diagnosticado com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), além de possuir altas habilidades – Foto: LAC – Laboratório Agência de Comunicação

Uma nova startup promete oferecer inovações para o atendimento a populações neurodiversas com custo menor e um processo de diagnóstico mais ágil. Segundo o criador do projeto, Gabriel Felipe Cotta Cirino, a Braine (Brazilian Artificial Intelligence for Neurodiversity) possui ferramentas que possibilitam “encurtar o que hoje é um diagnóstico de autismo de um ano para algumas semanas, e [diminuir] o custo, que hoje gira em torno de R$ 5 mil a R$ 10 mil reais para algumas centenas ou dezenas de reais”.

O projeto faz parte do mestrado profissional de Cirino, cuja pesquisa foi orientada pela professora Ednéia Silva Santos Rocha, do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação (PPGCI) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. O resultado está em sua dissertação, intitulada Desenvolvimento de soluções tecnológicas inclusivas em saúde mental: A interseção entre ciência da informação, inteligência artificial, ética e neurodiversidade. Defendido em 2024, o trabalho explora a relação interdisciplinar entre diferentes áreas em prol de pessoas com transtornos neurodiversos.

Hoje, a Braine abarca três produtos:

  • AURA-T, que corresponde à sigla para Autism Universal Rapid Assessment Tool (Ferramenta de avaliação rápida universal para autismo, em inglês) e faz uso de algoritmos para identificar sintomas do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em crianças, com base em padrões de comportamento, linguagem e interação social;
  • Care360, que significa Caring Accessible Responsible Ecosystem 360 (Ecossistema de cuidado acessível responsável 360), que reúne informações para integrar pacientes, familiares e profissionais da saúde e facilitar o tratamento;
  • Bruna, Behavioral Responsible Unified Neurodiversity Assistant (Assistente comportamental responsável unificado para a neurodiversidade), que tem a função de auxiliar pacientes neurodivergentes em suas rotinas cotidianas.

“Não é o diagnóstico que liberta, é o cuidado”

A pesquisa de Cirino se relaciona com dificuldades que ele encontrou em sua própria trajetória acadêmica e profissional. O pesquisador conta que levou 15 anos para se formar em Publicidade e Propaganda. “Não entendia o porquê, começava e saía. Nesses períodos eu também iniciei Artes Visuais. Também não consegui concluir, entrei e saí”, diz.

Um homem careca de barba cheia, usa um óculos de grau e um pequeno microfone preso à orelha, e veste uma camiseta preta.
Gabriel Felipe Cotta Cirino – Foto: CV Lattes

Em meio a suas tentativas, já no mercado de trabalho, ele lidou com problemas relacionados à ansiedade. Foi aí que recebeu o diagnóstico de Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), bem como descobriu a possibilidade de ter altas habilidades.

Segundo Cirino, “isso tudo fez sentido” e, com isso, “o que antes eu achava que era uma dor, por sempre começar alguma coisa e parar”, foi compreendido como algo natural e trabalhado para potencializar suas habilidades. A principal delas, para ele, “é entender o mundo complexo ao redor e traduzir isso de uma maneira fácil”.

Com o acesso aos cuidados necessários para os transtornos, Cirino conseguiu terminar a faculdade e, logo depois, ingressou no PPGCI na modalidade de mestrado profissional. Ao contrário do mestrado acadêmico, voltado para a produção científica e formação de docentes do ensino superior, a modalidade profissional foca a aplicação das pesquisas desenvolvidas no mercado de trabalho.

Por meio da democratização do tratamento proposta pela Braine, Cirino espera que, “a partir do momento que a pessoa obtenha um diagnóstico, isso não seja um rótulo, mas uma linguagem do cuidado”. Ele também acredita que “chegou o momento de ter o debate de inclusão de todos os tipos de mente”.

Atualmente, Cirino está aprofundando suas pesquisas no doutorado em Ciência da Informação na ECA. “O foco da minha vida é fazer o doutorado para levar esse cuidado que hoje eu tenho e essa qualidade de vida para todas as pessoas do Brasil” a partir do aprofundamento nas pesquisas.

O pesquisador espera publicar um livro com os resultados de suas pesquisas sobre a Teoria Geral do Inconsciente Informacional Computacional, elaborada por ele próprio, e segue se especializando em assuntos relacionados a neurodiversidades e ciência de dados para a saúde. Ele quer expandir ainda mais a atuação da Braine e relata que está em conversas com alguns municípios para começar a fazer “isso que é o meu sonho: zerar as filas de neurodiversidade e levar cuidado precoce para as crianças, seja na área da saúde, da assistência social ou da educação”.

A Braine e a ciência da informação

A ciência da informação foi essencial para compreender formas de armazenar e gerenciar os dados sensíveis dos usuários da Braine e de suas ferramentas. “Eu entendo que a saúde é transformar dados em informação e a informação em conhecimento”, explica.

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A empresa é apoiada pelo Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec) da USP e oferece soluções que usam inteligência artificial (IA) em processos de atendimento médico a pessoas neurodivergentes, com diagnósticos e acompanhamentos de saúde. De acordo com Cirino, o uso da IA e de algoritmos na saúde para otimização da gestão de informações permite “liberar o profissional para fazer o que ele faz de melhor, que é cuidar das pessoas”.

Para o desenvolvimento da startup e das patentes da Braine, o pesquisador cursou disciplinas na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP. Ele também lembra que começou a atuar com IA já inserido no mercado de trabalho, quando desenvolvia ferramentas contra fraudes na área de seguros, e foi incentivado por uma gestora a pesquisar sobre design de informação. Daí, descobriu o curso de pós-graduação em Ciência da Informação e o programa de pós-graduação nessa área que, para ele, “é um background necessário” para lidar melhor com dados.

Cirino considera esse passado no mercado profissional um diferencial seu em relação a outros pesquisadores. Para ele, há muitos estudos que ficam restritos ao ambiente acadêmico e, por isso, “há a necessidade de ter esse empreendedorismo, principalmente aqui na USP, para levar todo o nosso aprendizado para a sociedade”.

O trabalho também se alinha aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) propostos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e evidencia “a conexão entre sustentabilidade, inclusão e tecnologia”.

Texto: Maria Luiza Negrão, do LAC – Laboratório Agência de Comunicação da ECA
Editado por Diego Facundini, sob supervisão de Antonio Carlos Quinto e Silvana Salles



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