quarta-feira, março 18, 2026
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Crise climática ameaça ritual Kuarup, tradição indígena do Alto Xingu



Tradição indígena ameaçada pela crise climática
Veja reportagem completa no VÍDEO acima
Resumo: Um símbolo da cultura indígena do Alto Xingu está ameaçado: o ritual fúnebre Kuarup. O Kuarup não é uma festa que ocorre todo ano, é uma cerimônia em homenagem a alguém importante que tenha morrido ao longo do último ano.
“O Kuarup começa com uma situação muito triste. O falecimento da pessoa… Depois, no final, é muita, muita, muita alegria, muita emoção. Todo mundo feliz, criança, jovem, velho. O final da festa é muito feliz”, conta Tapi Yawalapiti, cacique da aldeia Yawalapiti.
A aldeia toda ajuda na recepção dos povos e comunidades convidados. Polvilho e peixe são armazenados para alimentar os visitantes.
Mas o cultivo da mandioca e a pesca tradicional já sentem os efeitos do desmatamento, da contaminação por agrotóxicos e das mudanças climáticas.
“A mudança climática já está afetando a nossa vida. O rio está secando, pouca chuva e muito calor, e o nosso plantio não está mais podendo nascer, crescer, porque é muito quente”, diz Tapi Yawalapiti.
Imagens de satélite revelam como nos últimos 40 anos o Parque Indígena do Xingu se tornou uma ilha de floresta em meio a plantações.
“O que acontece quando você tira a floresta e coloca pasto? Você reduz a precipitação, você reduz a evapotranspiração, reduz o escoamento superficial, aumenta a temperatura, e o período seco mais prolongado. Alguma coincidência com o que você ouviu falar no Xingu?”, questiona Gilvan Sampaio, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Estima-se que 60 mil quilômetros quadrados foram desmatados nas últimas quatro décadas no entorno do Xingu. Uma área maior que a da Croácia.
E o desmatamento para dar lugar à pastagem ou lavoura é um grande motor das mudanças climáticas. Quem já vem arcando com esse ônus são justamente aqueles que há séculos habitam a região. A vida aqui se desenvolve às margens e dentro da água, que é cada vez mais escassa.
Dados da plataforma MapBiomas revelam que, nos nove municípios por onde o Parque Indígena do Xingu se estende, a área de rios e lagos caiu pela metade nas últimas quatro décadas. E existe ainda o problema da contaminação.
“Você viu, o pessoal não pegou nada de peixe. Foi pouco. Esse ano é muito pouco peixe, né? Época do meu pai era muito peixe. Porque o pessoal não fez ainda, não chegou ainda veneno. Hoje está jogando muito veneno”, diz a pajé Mapulu Kamayurá.
Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz apontou a presença de vinte e oito agrotóxicos em amostras dentro da Terra Indígena Wawi, vizinha do Xingu. Um dos químicos achados é proibido no Brasil e cancerígeno. Outros três não são sequer registrados no país.
“Pelos agrotóxicos que foram detectados, desses proibidos, desses usos não autorizados, e até os que são autorizados, eles levam a possíveis problemas endócrinos, malformação congênita, doença neurológica, câncer. Os produtos que são registrados, são autorizados no país, já são tóxicos, eles têm desfecho na saúde. Imagina os que não são autorizados ou os que são proibidos?”, afirma o doutor em Saúde Pública Francco Antonio Lima, da Fiocruz.
Aqui no Alto Xingu, onde o espiritual anda de mãos dadas com a natureza, a ação humana ameaça o modo de vida dos indígenas e sua cultura. Que tem no Kuarup sua expressão mais forte.
“Moramos na floresta e precisamos da floresta pra gente poder manter a nossa cultura viva. Senão, se a floresta for destruída, então a nossa cultura também vai ser destruída, porque na floresta estão todos os materiais”, diz o cacique Tapi Yawalapiti.
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