Por Alecsandra Matias de Oliveira, professora do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc) da Escola de Comunicações e Artes da USP
Como espaço da criação, o termo ateliê, geralmente, traz a falsa ideia do lugar apartado, da solidão — do local onde o artista reflete sobre as coisas do mundo; fabrica o espírito de sua obra — um espaço fixo, imutável, acumulado, íntimo. Essa imagem quase romântica, herdada de séculos de tradição, ainda persiste no imaginário coletivo: o ateliê é visto como “templo do gênio”, onde o tempo se suspende e a matéria se transforma em arte.
Contudo, essa ideia não dá conta da complexidade da práxis contemporânea. Os espaços da criação, longe de serem locais isolados, são atravessados por fluxos — de ideias, de afetos, de referências, de encontros. Eles podem ser móveis, efêmeros, compartilhados, expandidos para além de suas paredes físicas. Mais do que abrigo para o artista, esses lugares tornam-se campos de negociação entre o íntimo e o público, entre o gesto e o discurso, entre o silêncio e o ruído.
Nesse sentido, cabem, então, as perguntas: de que forma o lugar da introspecção, do autocentramento, da autorreferência tornou-se também o lugar temporário, emprestado, compartilhado, reinventado? Esse espaço de deslocamento, escuta e experimentação tensiona a criação na arte contemporânea? E o inverso: a vivência contemporânea altera o modo de produção da arte? Talvez as possíveis respostas girem em torno do conceito de residência artística – uma práxis das artes visuais – cada vez mais correspondente ao tempo atual.
Na lógica inversa àquela do ateliê fixo e introspectivo, as balizas da residência artística envolvem uma arte em trânsito — uma prática que se desloca, que se contamina, que se abre ao imprevisível.
A residência não é tão somente um lugar físico, mas um território simbólico onde o artista se vê convocado a dialogar com o espaço, com o tempo e, sobretudo, com o outro. É nesse encontro que a criação se desestabiliza, se expande e se reinventa.
Essa imagem do ateliê, como espaço recluso da criação, começa a ser friccionada por transformações urbanas e sociais que colocam o artista em movimento. O termo “artist-in-residence” (AiR) tem como um dos seus marcos de origem os anos entre 1960 e 1970, no bairro de SoHo, em Nova York, então conhecido como Hell’s Hundred Acres — uma área industrial degradada, repleta de galpões abandonados, que passou a ser ocupada por artistas em busca de espaços amplos e baratos para trabalhar. Essa ocupação espontânea transformou o bairro em um polo criativo, e os lofts industriais se tornaram ateliês e centros de convivência. George Maciunas, artista lituano-americano e figura central do movimento Fluxus, foi um dos articuladores dessa transformação, promovendo cooperativas de artistas e defendendo o uso coletivo dos espaços como forma de resistência ao mercado imobiliário e à institucionalização da arte.
A partir dessa experiência urbana e comunitária, o conceito de residência artística se expandiu e ganhou contornos mais formais. Instituições, universidades e fundações criaram programas estruturados que oferecem aos artistas não apenas espaço físico, mas também apoio financeiro, curadoria, intercâmbio e visibilidade. A residência tornou-se práxis das artes e é considerada meio de pesquisa, experimentação e formação — um lugar onde o processo criativo é tão valorizado quanto a obra em si.
Na Europa, iniciativas como a Cité Internationale des Arts, fundada em Paris em 1965, consolidaram esse modelo, recebendo artistas de todo o mundo para períodos de imersão e de vivências.
Nesse ponto, destaca-se o intercâmbio entre a Cité e a Faap (Fundação Armando Alvares Penteado), desde 1997. No local, a Faap mantém um estúdio exclusivo (o apartamento 1.422), um espaço destinado a alunos, ex-alunos e professores, que são selecionados semestralmente para desenvolver projetos autorais.
Embora a prática da residência artística, como vimos, remonte ao final dos anos de 1960, foi apenas nos anos de 1990 que o Brasil teve suas primeiras iniciativas estruturadas voltadas ao acolhimento e desenvolvimento de artistas em espaços dedicados à criação, pesquisa e troca.
Antes disso, existiam projetos pontuais, muitas vezes vinculados a universidades ou centros culturais, mas sem continuidade ou reconhecimento institucional. O deslocamento do artista, seja para estudar, criar ou interagir com outros contextos, sempre foi visto como algo transformador – a exemplo de ações como as dos Prêmios de Viagem ao Exterior (Escola de Belas Artes, 1890) e as do Pensionato Artístico do Estado de São Paulo (iniciativa de 1912), mas sempre faltaram programas e, por consequência, política cultural.
As políticas públicas, a expansão de museus e uma circulação internacional maior de artistas brasileiros aconteceram, de fato, a partir dos anos 2000. Nesse período, surgiram programas que se tornaram referência, como o Bolsa Pampulha, criado em 2003 pela Prefeitura de Belo Horizonte, que oferecia bolsas, espaço de criação e acompanhamento curatorial a jovens artistas. Em São Paulo, a Faap inaugurou em 2005 sua Residência Artística no Edifício Lutetia, no centro da cidade, oferecendo estúdios, acesso a laboratórios técnicos e integração com o ambiente acadêmico.
Nos anos seguintes, multiplicaram-se residências com perfis diversos no País. Algumas se voltaram para a relação com a natureza, como a Kaaysá, no litoral paulista, que promove criação artística em diálogo com o meio ambiente e comunidades locais. Outras, como o programa Criadores Negros nas Artes, em São Mateus, São Paulo, focam na valorização de artistas periféricos e na diversidade. A Rede Videobrasil de Residências, criada pela Associação Cultural Videobrasil, também se destacou ao conectar artistas e instituições em diferentes países, promovendo interações multiculturais e fortalecendo a circulação internacional da produção brasileira. Outra iniciativa de destaque é o Sertão Negro, idealizado por Dalton Paula e Ceiça Ferreira, em 2021, na zona rural de Aparecida de Goiânia. Nessa escola-residência, entende-se que a produção artística precisa de intersecções culturais profundas, de reconexão com a terra e de revalorização de territórios negros como espaços de criação e resistência.
Apesar do crescimento, os programas de residência artística ainda enfrentam desafios estruturais. O número de iniciativas é pequeno frente à demanda e à extensão territorial do País. Muitos projetos dependem de editais pontuais, patrocínios instáveis ou incentivos públicos que variam conforme o cenário político. A falta de continuidade e de políticas culturais consistentes torna o campo vulnerável, especialmente em momentos de crise econômica ou desmonte institucional. Ainda assim, as residências se mantêm como espaços de resistência e reinvenção, oferecendo aos artistas tempo e liberdade para explorar novas linguagens, aprofundar pesquisas e estabelecer conexões com diferentes públicos.
Mais do que espaços de produção, as residências são entendidas como práticas contemporâneas de criação. Elas envolvem deslocamento, convivência, troca, introspecção e engajamento com o entorno. São ambientes de formação continuada, de experimentação e de difusão, que desafiam o artista a sair da zona de conforto e repensar sua relação com o mundo.
Nesse contexto, a realização da conferência da Res Artis na Faap, que ocorrerá agora em setembro (Res Artis 2025 – Faap), pode levantar questões relevantes para o exercício dessa prática artística. O tema da conferência é Outras Primaveras: Florações do Sul Global — inspirado no livro Primavera para as Rosas Negras: Lélia Gonzalez em Primeira Pessoa (2018). A proposta é dar visibilidade às práticas artísticas emergentes do Sul Global, com foco em amefricanidade, educação, natureza e descolonização.
Percebe-se, assim, que em tempos de práticas colaborativas e redes transnacionais, o conceito de artist-in-residence torna-se práxis nas artes visuais pensada e debatida de modo global. As residências, como espaços da criação, se desdobram em territórios, em trânsitos, em plataformas de escutas e diálogos. Daquela primeira imagem do ateliê como espaço da criação autocentrado, outras possibilidades são abertas pela residência artística contemporânea, que não deixa de ser um espaço tensionado — e por que não instável? —, mas tem o potencial para ser o local onde a arte se reinventa, não como produto acabado, mas como processo vivo, contaminado pelas urgências do presente.
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