quarta-feira, março 18, 2026
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Plataforma colaborativa de imagens usa ciência da informação para divulgar patrimônio cultural lusófono – Jornal da USP


Equipe da plataforma colaborativa Arquigrafia se dedica a elaborar e atualizar vocabulários utilizados para a descrição de bens culturais e arquitetônicos brasileiros em colaboração com iniciativa internacional do Getty Research Institute

Fachada de uma igreja do período colonial do Brasil
Praça Tiradentes, em Ouro Preto (MG) – Foto: Giovana Arantes/Acervo Arquigrafia

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Texto: Ana Beatriz Tuma
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O campo da Biblioteconomia e Ciência da Informação possui uma área dedicada a produzir vocabulários controlados que representam um determinado domínio do conhecimento. No caso da equipe do Experiência Arquigrafia 4.0, projeto temático apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU), o foco está na Arquitetura e Urbanismo.

Nesse sentido, há um esforço dos pesquisadores do projeto em contribuir com o Getty Vocabulary Program (Programa de Vocabulário do Getty, em tradução livre), do Getty Research Institute (GRI), localizado em Los Angeles, nos Estados Unidos, a partir do vocabulário controlado construído para a plataforma colaborativa Arquigrafia, que permite recuperar as fotografias digitais de edificações e espaços urbanos, compartilhadas pela comunidade de países de língua portuguesa.

A elaboração dos vocabulários controlados

“Um vocabulário controlado pode ser definido, de maneira simples, como uma lista de termos que relaciona todos os assuntos de uma área do conhecimento”, explica Vânia Lima, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e pesquisadora associada ao Arquigrafia no temático Fapesp. 

“Ele vai ser utilizado para representar, em uma base de dados, o conteúdo dos documentos (livros, artigos, fotografias, filmes, desenhos, cartazes etc.) produzidos por aquela área. Sua função é possibilitar a recuperação do conjunto de documentos que tratam do mesmo assunto”. A professora exemplifica: “ao fazer uma busca em uma base de dados por aipim, mandioca ou macaxeira, que são nomes diferentes para o mesmo alimento, o usuário receberá o mesmo conjunto de documentos, pois o vocabulário realiza esse controle”.

Casas típicas de Blumenau (SC) identificadas com vocabulário controlado feito pelo Acervo da Biblioteca da FAU – Foto: Eduardo Augusto Kneese de Mello (Acervo da Biblioteca da FAU)/Acervo Arquigrafia

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E como são criados os vocabulários controlados? De acordo com Vânia Lima, eles são elaborados a partir da coleta dos termos utilizados pelos especialistas da área do conhecimento, sendo apresentados de duas formas: lista alfabética, para facilitar a busca do usuário, e lista hierárquica, na qual os termos são exibidos do assunto mais geral para os mais específicos, permitindo ao usuário identificar termos mais apropriados para a recuperação da informação pretendida.

Para a produção desses vocabulários, há todo um trabalho de processamento e de tratamento. “Nesse processo, cada termo recebe uma nota de escopo, que funciona como uma definição acompanhada de uma breve explicação de como deve ser utilizado. Essa definição precisa estar respaldada por referências confiáveis (o que chamamos de garantia literária), como artigos científicos, dissertações, livros ou catálogos de museus”, conta Camila Aparecida da Silva, contemplada com uma bolsa de pós-doutorado da Fapesp no Arquigrafia para contribuir, de forma indireta, com os vocabulários do GRI e, diretamente, com a melhoria e a expansão dos termos na plataforma colaborativa.

Segundo ela, durante esse trabalho também são definidos os termos “preferidos” e os “alternativos”. “Os termos preferidos são os de uso principal, enquanto os alternativos correspondem, em geral, a sinônimos. Assim, em um sistema, é possível recuperar informações sobre um documento tanto pelo termo preferido quanto pelos seus sinônimos”.

A parceria com o Getty Research Institute

Os vocabulários do GRI são ferramentas utilizadas por museus, bibliotecas e outras instituições e programas relacionados às artes para documentar e recuperar informações sobre arte e arquitetura de forma gratuita. 

Conforme afirmam Patricia Harpring e Jonathan Ward, editores do Getty Vocabulary Program, ao contribuir com o programa, instituições e projetos podem garantir que a terminologia e os tópicos que eles necessitam estejam disponíveis e que, por extensão, seus materiais possam ser catalogados e disponibilizados globalmente, independentemente do idioma falado pelo pesquisador.

Desde 2019, a equipe do Arquigrafia contribui com o Getty Vocabulary Program por meio do consórcio Vocabulário Colaborativo de Artes e Arquitetura (VCAA) coordenado pela professora Vânia Lima, identificado pelo GRI como Collaborative Vocabulary of Arts and Architecture – Brazil (CVAA–BR, Vocabulário Colaborativo de Artes e Arquitetura, em tradução livre). Isso significa que, ao ter seus termos incluídos no VCAA, eles são incluídos no Art and Architecture Thesaurus (Tesauro de Arte e Arquitetura, em tradução livre) do GRI, com atribuição de crédito. 

Registro utilizado pelo Getty Research Institute para identificar as contribuições do consórcio CVAA-BR, do qual o Arquigrafia faz parte – Foto: Getty Research Institute

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De acordo com Artur Rozestraten, coordenador do Arquigrafia e professor da FAU, um dos objetivos da colaboração é “oferecer uma contribuição temática no âmbito da arquitetura e do urbanismo de uma forma sistemática, trabalhando tanto nomes de arquitetos quanto a nomenclatura de obras e uma série de termos específicos do vocabulário arquitetônico em língua portuguesa, português do Brasil”. Somado a isso, outro objetivo é ter contato com plataformas iconográficas que também dialogam com as mesmas questões que as do projeto temático.

Em 2025, a parceria entre o Getty Research Institute e o Arquigrafia foi ampliada. Vânia Lima conta que as contribuições também serão direcionadas aos demais vocabulários controlados do GRI, como o Cultural Objects Name Authority (Autoridade de Nomes de Objetos Culturais, em tradução livre) e o Thesaurus of Geographic Names (Tesauro de Nomes Geográficos, em tradução livre).

Os vocabulários controlados do Arquigrafia

O Arquigrafia passou a criar seus próprios vocabulários, segundo Rozestraten, porque não havia bases prontas para serem simplesmente incorporadas à plataforma colaborativa em formato aberto e sistematizado. Por isso, a equipe iniciou uma construção gradual de vocabulários controlados, que partem de organizações e referências já existentes, mas adaptam e ampliam esse material para que fique compatível com os formatos digitais da referida plataforma.

Para a coordenadora do VCAA, “a principal diferença, além da antiguidade e tamanho, entre os vocabulários controlados da plataforma Arquigrafia e os do Getty é o escopo, pois os vocabulários do Arquigrafia se restringem à arquitetura e espaços urbanos enquanto os do Getty abrangem, além das artes e da arquitetura, outras áreas das Ciências Humanas”. Outro ponto a ser destacado é que os vocabulários do GRI são multilíngues, tendo sido o Art and Architecture Thesaurus traduzido para idiomas como o espanhol, o chinês, o alemão e o holandês, já os do Arquigrafia são voltados para a comunidade de países de língua portuguesa. 

No ponto de vista de Camila Aparecida da Silva, as duas iniciativas se complementam. “Enquanto o Getty oferece sistemas sofisticados e multilíngues para padronizar informações, o Arquigrafia aposta na colaboração aberta de seus usuários para descrever o acervo. Ao incorporar ferramentas do Getty, o Arquigrafia se beneficia de um sistema mais robusto, o que facilita o acesso à informação e amplia a experiência dos usuários”.

A fotografia ¨Casa ribeirinha¨ foi ¨tagueada¨ pelo próprio usuário, sem necessariamente utilizar instrumentos para descrição de informação, isto é, de vocabulário controlado – Foto: Artur Rozestraten/ Acervo Arquigrafia

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Patrimônio cultural lusófono

A criação e o uso de vocabulários controlados contribuem para a preservação e a difusão do patrimônio cultural dos países de língua portuguesa tanto por meio da plataforma colaborativa Arquigrafia quanto pelo Getty Research Institute. 

No caso da parceria com o GRI, Patricia Harpring e Jonathan Ward afirmam que se o Arquigrafia contribui com termos em português, isso pode significar que qualquer instituição lusófona que esteja catalogando objetos culturais também poderá se sentir confortável para usar tais vocabulários por causa do que foi feito pela equipe do projeto temático.

Isso porque, conforme explica Camila Aparecida da Silva, os vocabulários controlados ajudam a organizar e a padronizar informações. “Quando estão disponíveis em português, esses vocabulários apoiam diretamente o trabalho de bibliotecários, arquivistas e museólogos de instituições e projetos de países lusófonos, que podem descrever acervos com maior consistência. Além disso, oferecem suporte a pesquisadores e demais interessados nas áreas da arquitetura e das artes”. 

A pós-doutoranda diz que essa informação em língua portuguesa não só melhora a maneira como as coleções digitais são representadas como coopera para a preservação e a difusão do patrimônio cultural lusófono.

De acordo com ela, os vocabulários controlados também ampliam o acesso aos documentos que antes só podiam ser consultados presencialmente e, hoje, estão disponíveis online, o que possibilita relacionar esses termos a equivalentes em outros idiomas.Para os pesquisadores, esse acesso padronizado e remoto significa ganho de tempo e qualidade: é possível reunir um grande volume de informações de maneira mais ágil, o que dá subsídios à produção de conhecimento em universidades e favorece o avanço da ciência”.

Segundo o coordenador do Arquigrafia, Artur Rozestraten, o anseio da equipe ao colaborar com a preservação e a difusão do patrimônio cultural lusófono “é podermos contribuir com as especificidades da língua portuguesa, com as variantes e as variações brasileiras, pensando que outras variações e especificidades da língua podem comparecer a partir de outras matrizes, localizações e especificidades da língua portuguesa falada em outros países”. Isso traz uma diversidade de termos para os mesmos elementos arquitetônicos que se pode perceber, acompanhar e documentar ao longo do tempo.

Para conferir as atividades que estão sendo realizadas pela equipe do Arquigrafia, acesse o Instagram neste link. Para acessar plataforma clique aqui.

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* Bolsista JC-IV junto ao Projeto Temático Fapesp Experiência Arquigrafia 4.0 e pesquisadora colaboradora da FAU





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