sábado, julho 4, 2026
HomeSem categoriaA idade é só um número? - 11/09/2025 - Djamila Ribeiro

A idade é só um número? – 11/09/2025 – Djamila Ribeiro


Em geral, gosto de estar na companhia de gente velha. Claro, todo tipo de gente envelhece; então, pensando melhor, gosto de estar perto de gente velha de quem eu gosto. Algumas vejo com certa frequência e percebo que gosto ainda mais da companhia das ranzinzas: aquelas que ganham acidez com o tempo, ficam num mau humor bem-humorado e transformam o resmungo em ironia. Me divirto com quem acha tudo ruim, critica o que está vendo na televisão e, quanto mais percebe graça, mais resmunga.

Outro dia, estava com uma dessas pessoas queridas quando ela encasquetou com a frase “a idade é só um número”. “Que tipo de frase idiota é essa?”, perguntou. Entrei na onda e passamos um bom tempo falando mal da expressão. Numa simplicidade que resolve o assunto, ela disse: “Mas se eu tenho 40 anos, tenho que fazer uma mamografia; então como é só um número?”.

De fato, concordei: a idade determina experiências muito concretas —da mamografia até o direito de votar (ou deixar de votar). O fato de existir o Estatuto da Criança e do Adolescente para proteger esses grupos de abusos. Quantas vezes não ouvimos de homens mal-intencionados que “essa menina tem 14 anos, mas é madura”, toda a cultura da “novinha” para tentar legitimar abusos. Idade aqui é importante para a proteção dessas meninas para além de uma questão meramente numérica.

Todavia, me parece que, por trás da mensagem, há uma recusa em reconhecer-se velho ou velha. Aliás, essa palavra parece ser evitada e, para mim, cujo sonho é ser uma pessoa velha —já que perdi mãe e pai em anos consecutivos, ambos nos cinquenta e poucos—, essa recusa soa estranha.

A proporção de idosos na sociedade brasileira, segundo o IBGE, é de 15%; e se estima que esse percentual triplique ao longo dos anos. Em 2070, quando pretendo estar viva, comemorando meus 90 anos de idade, a sociedade será quase na metade composta por idosos, velhos e velhas. E isso não deverá ser um problema, sobretudo porque faremos, com a bênção de quem veio antes, o debate e as transformações necessárias para vivermos essa realidade.

Uma das autoras que vêm fazendo um debate interessante sobre o tema é minha confreira Mary Del Priore, que recentemente lançou “Uma história da velhice no Brasil” (editora Vestígio). Uma das virtudes do livro é não ter medo da palavra “velho”. Pelo contrário, Del Priore traz relatos instigantes sobre o espanto dos colonizadores diante da longevidade dos povos indígenas, cuja organização social privilegiava a obediência aos mais velhos. Seu estudo mostra como indígenas e africanos escravizados lidavam com a velhice, quando “a velhice era símbolo de poder e de proximidade com os deuses”.

De onde venho, é exatamente assim. Idade é posto: determina um lugar de respeito, de autoridade, de sagrado. Ainda que parte da sociedade trate velhos e velhas como peso, em comunidades de terreiro ocorre o contrário: são os anciãos que deliberam os rumos da vida coletiva. No candomblé, religião de grandes mães, muitos terreiros só permitem que mulheres liderem a comunidade. A velhice feminina tem um lugar especial. Mesmo em terreiros de liderança masculina, fato é que, no culto à ancestralidade, a velhice não é fardo, mas fundamento, é respeito a quem trilhou o caminho antes.

Dizer que a idade é só um número ignora todas as experiências que levaram até a maturidade, todas as dores e delícias vividas. Pesquisando para este texto, vi que essa frase costuma aparecer em contextos que falam de idade cronológica versus idade biológica: a velocidade de envelhecimento do corpo varia de pessoa para pessoa.

E é verdade, sobretudo quando a comparação é feita entre pessoas que partem do mesmo lugar social. Mas, no Brasil, quem nasce em bairros pobres —majoritariamente negros e indígenas— tem expectativa de vida menor em relação a quem nasce em bairros brancos e ricos. A desigualdade social, racial e territorial entra no corpo. Isso é uma questão real, que reflete na expectativa de vida no Jardim Ângela ser de 58,3 anos e nos Jardins ser de 81,5 anos. Uma diferença de quase 25 anos, que mostra um grave problema social brasileiro.

E justamente por isso a idade não é só um número, pois é também uma denúncia informada por experiências comuns de grupos historicamente marginalizados. Dizer o contrário é ignorar que, em muitos lugares, envelhecer é quase inevitável, ao passo que em outros, marcados por vulnerabilidades, envelhecer é sobreviver e envelhecer com qualidade de vida, praticamente um milagre.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.



Source link