Por Gildo Magalhães, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

O pensamento científico é uma força geológica?
Fazer esta pergunta levou o cientista russo Vernadsky a pensar na história do Universo como uma trajetória de evolução autoproduzida e autogerida.
Vladimir Ivanovitch Vernadsky (1863-1945) permanece ainda relativamente desconhecido pela História da Ciência, especialmente em língua portuguesa. É considerado um inovador e fundador da biogeoquímica e um dos mais eminentes cientistas soviéticos, reconhecido com essa qualidade tanto em países da antiga Cortina de Ferro quanto no Ocidente. Nascido na Rússia, em São Petersburgo, formou-se na universidade de sua cidade natal em ciências naturais em 1885, tendo sido aluno do famoso químico Dimitri Mendeleiev e do naturalista Vasily Dokuchaev, considerado um dos pais da pedologia, a ciência do solo. Entre 1888 e 1890 estudou na Alemanha e em Paris, e doutorou-se em ciências físicas e matemáticas em 1897, se especializando em geologia na Alemanha e em mineralogia na França (com Pierre Curie).
Foi professor de mineralogia e cristalografia na Universidade de Moscou de 1890 a 1911 e, nesse período, fez uma série de levantamentos em campo pesquisando solos e províncias minerais da Rússia, pesquisas que depois foram estratégicas para a criação de indústrias nacionais, como a do alumínio, e para o desenvolvimento econômico da futura União Soviética. De 1906 a 1911 exerceu forte atividade política como deputado no novo Parlamento russo, tendo renunciado ao cargo de professor em 1911, em protesto contra o tratamento reacionário e antidemocrático dado pelo governo czarista às universidades. Além de seus estudos de geoquímica e radiogeologia, Vernadsky dedicou bastante tempo ao estudo da história e filosofia da ciência. Um poliglota e humanista na tradição de Goethe e Alexander von Humboldt, é notável como Vernadsky acompanhava de perto as produções não somente de sua especialidade, mas conhecia as principais pesquisas de sua época em História Antiga, História da Ciência, Arqueologia e Filosofia, bem como estudava com profundidade o pensamento oriental antigo e moderno.
Vernadsky se colocou ao lado dos mencheviques durante a preparação da revolução soviética, o que lhe causaria inúmeros problemas após a vitória dos bolcheviques, com os quais, porém, foi sempre colaborativo em termos científicos. Apoiou com firmeza a revolução socialista de 1917, embora condenasse seus excessos, inclusive na condução da ciência. Entre 1917 e 1921 houve a guerra civil na União Soviética, período em que Vernadsky criou a Academia de Ciências da Ucrânia, a primeira de uma série de instituições de sua iniciativa. Fundou em Petersburgo em 1922 o Instituto do Rádio (para estudos de radioatividade) e durante o período imediatamente após o final da guerra civil, de 1922 a 1925, conseguiu uma licença para ir à França, onde trabalhou com Marie Curie no Instituto do Rádio em Paris e lecionou na Sorbonne, tornando-se amigo do teólogo Teilhard de Chardin (1881-1955).
Vernadsky desenvolveu, juntamente com Teilhard de Chardin, ambos influenciados pela proposta de “evolução criadora” do filósofo francês Henri Bergson (1859-1941), o conceito de “noosfera” (esfera da razão) como resultado da tendência da biosfera (esfera da vida) de a Terra contar com uma nova e poderosa força, a partir do surgimento do homem, representada pelo pensamento científico, cuja energia transforma a face do planeta. Teilhard de Chardin era também cientista e padre jesuíta e se tornou bastante conhecido com sua obra, O Fenômeno Humano, após ter ido como missionário para a China e participado como paleontólogo da aclamada descoberta do “Homem de Pequim”.
Enquanto para Chardin a noosfera remete a um plano de criação divina, objetivado em Cristo, para Vernadsky a noosfera resultaria das propriedades do próprio Universo e de sua característica de formação de ordem, sem a necessidade de um Deus criador. Aproveitando as teorias inovadoras do biólogo soviético de origem húngara Erwin Bauer (1890-1938), Vernadsky concluiu que o consumo de energia pelos seres vivos tem sempre aumentado historicamente, o que permite a obtenção de energia livre (aquela que não é usada diretamente para manutenção e procriação da vida) cada vez mais “estruturada”. Vernadsky, assim como Mendeleiev antes dele, defendeu veementemente que a consequência desse processo de produção de energia foi o progresso técnico-científico, como característica inerente à humanidade.
Na filosofia de Vernadsky, se do ponto de vista da teoria tradicional da seleção natural, o homem seria uma espécie pouco apta a sobreviver, sendo mais fraco do que outras, na verdade ele se revelou como adaptado a condições ambientais muito variáveis, o que foi fundamental para sua evolução. Foi devido ao uso avançado da razão pelo homem que sua presença se impôs às demais formas de vida, o que o levou a criar uma linguagem articulada com o pensamento, a viver em sociedades complexas e enfim, ao contrário das demais espécies, a fabricar uma cultura altamente elaborada e transmissível sem ser de forma genética. É graças à infância prolongada que o homem desenvolve sua inteligência e criatividade, que o capacitaram historicamente a assimilar e desenvolver tecnologias, desde o fogo até as espaçonaves. A Terra e sua biosfera são para o homem o oposto de um ambiente fixo e, em contraste com ele, a evolução biológica tem nela agido para gerar novas espécies que sucedem outras, extintas, por não terem a mesma versatilidade para transformar a biosfera que o homem. Vernadsky não deixava, ao mesmo tempo, de atentar para o cuidado que se deve ter com o meio-ambiente.
Assim, para Vernadsky, com o surgimento da espécie humana é a própria biosfera (uma envoltória que vai desde camadas geológicas das rochas submarinas, até as partes superiores da estratosfera) que está continuamente em evolução, e não somente as espécies nela contidas. A organização interna da biosfera é que dita a evolução. Em consequência, o pensamento humano criativo, ou como ele o chama, “científico” — e onde inclui as ciências humanas —, se demonstrou uma nova “força geológica” na biosfera, qualitativamente diferente e mais intenso do que as forças físico-químicas e biológicas da Terra. Foi isto o que passou a dar à biosfera o caráter distinto de “noosfera”, ou esfera da razão, através do fenômeno do conhecimento humano.
Vernadsky retornou para a Rússia em 1926 e publicou intensivamente trabalhos de geoquímica, biologia e história da ciência e da tecnologia, entre os quais seus livros A Biosfera e Problemas de Biogeoquímica. Após a ascensão de Stalin, discordou da orientação impressa à ciência soviética pela aplicação de princípios pretensamente marxistas e apenas seu grande prestígio, forte patriotismo e firme dedicação à causa socialista o preservaram da prisão ou de destino pior. Faleceu em 1945, pouco antes do término da Segunda Guerra Mundial, e atualmente seu nome está associado ao Museu do Instituto de Geologia da Rússia e a uma estação de metrô, que levam seu nome em Moscou.
No Ocidente, porém, Vladimir Vernadsky ficou praticamente ignorado fora de círculos científicos ligados à biogeoquímica. O cientista inglês James Lovelock (1919 -2022), conhecido a partir de 1979 por sua “teoria de Gaia”, trabalhou algumas das questões pesquisadas por Vernadsky, posteriormente reconhecendo-o como um predecessor. Apesar das teses de Lovelock apresentarem doses de esoterismo que o distanciam consideravelmente de Vernadsky, elas despertaram o interesse de um público mais amplo pela figura do cientista russo, o que levou à publicação em inglês da obra A Biosfera, mas que contém ainda poucas referências ao que seria depois desenvolvido por ele na conceituação de noosfera. A extensão, profundidade e importância da obra de Vernadsky serão apreciadas no Ocidente apenas no início do século 21.
Vernadsky não teve tempo para elaborar sua doutrina da noosfera em detalhe, mas deixou indicadas algumas condições que norteariam a passagem da humanidade como um todo da biosfera para esse nível:
• O povoamento de toda a Terra.
• A transformação radical dos meios de comunicação e comércio.
• O estabelecimento de compromissos políticos entre as nações.
• A expansão das fronteiras da biosfera humana para o Cosmos, onde haveria probabilidade de existirem outras formas de biosfera no Universo, também caracterizadas pela razão.
• A exploração industrial de novas formas de energia.
• A transformação racional da Terra para satisfazer às necessidades humanas materiais, estéticas e espirituais.
• A igualdade entre as pessoas de todas as raças e religiões.
• O aumento do papel decisório e político das massas.
• A liberdade de pensamento científico e a criação de condições para tal.
• A eliminação da guerra.
O livro O Pensamento Científico Como Fenômeno Planetário foi escrito por Vernadsky para ser a apresentação mais completa da sua teoria da noosfera, elaborado entre 1937 e 1938, repetidamente retrabalhado durante os terríveis anos da Segunda Guerra Mundial, mas só foi publicado de forma integral em russo em 1997. Embora escrito há quase 90 anos, este livro acaba de ser publicado no Brasil e ainda soa como bastante atual e com propostas instigantes. Partindo de um pressuposto de que o conhecimento científico nunca está completo e fixado, para Vernadsky a vida provavelmente sempre existiu no Universo e a biosfera é a parte quimicamente mais ativa da Terra, onde os organismos mantêm um equilíbrio dinâmico pela migração de átomos entre a matéria viva e a inerte. Dando destaque ao papel dos isótopos atômicos, defendeu a ideia de que a geometria dos organismos vivos não tem uma forma euclidiana. A descoberta e aplicação do pensamento científico teriam ocorrido coletivamente em várias civilizações antigas (inclusive da América) e vem crescendo inexoravelmente, apesar dos atrasos causados pelo próprio homem. Reiterando a conclusão de que é uma grande força geológica, o pensamento científico característico da noosfera vem mudando a biosfera muito mais rapidamente do que aconteceu nas eras puramente geológicas.
Vladimir Vernadsky assim expressa em seu derradeiro trabalho seu otimismo e a profunda fé na importância do progresso científico, considerado com o realismo de quem viveu dramáticas transformações desde o czarismo imperial russo à revolução soviética. A evolução da biosfera para a noosfera não é determinista, mas ao mesmo tempo não procede cegamente ao acaso. Este é o sentido em que devemos entender a proposição de que somos feitos de poeira das estrelas – temos a mesma propensão de, sempre que possível, agregar ordem ao Cosmos.


