sábado, maio 16, 2026
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entre a cobiça e a falta de bem comum – Jornal da USP


Marilia Fiorillo comenta o clássico de 1928, que revela raízes históricas da truculência e da busca incessante por vantagens individuais, ainda presentes na sociedade brasileira

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“O Brasil sempre foi peculiar. Em 1928, o primeiro explicador do País, o intelectual, ensaísta, mecenas e cafeicultor Paulo Prado, em seu clássico livro Retrato do Brasil. Ensaio sobre a tristeza, já indicava algumas características que saíram de vez do armário e desmentem a ficção do País cordial. Na época, Prado causou furor nos meios intelectuais. Hoje, diante da truculência e boçalidade generalizadas e normalizadas em nossas plagas, seus achados são proféticos. Óbvio que a boçalidade não é patrimônio exclusivo da Terra de Santa Cruz, e grassa por todos os cantos. Mas o jeitinho brasileiro lhe dá um colorido ancestral”.

“Hoje Paulo Prado seria cancelado pelos identitaristas de plantão, pela esquerda saudosista e por aquela direita que ainda lê algo além de tuítes. Seria amaldiçoado como politicamente incorreto, anacrônico, impressionista e elitista. O primeiro capítulo do livro, dedicado à luxúria, menciona a miscigenação das raças, a dissolução dos costumes e a volúpia como quesitos da formação da nacionalidade brasileira. Mas a principal fonte do desassossego e desgoverno do País, gestada no período colonial, é outra: a anemia política e a ânsia de enriquecimento rápido”.

“Por isso que o segundo capítulo, intitulado exatamente Cobiça, é iluminador. Vamos a alguns trechos: ‘Si vos perguntam porque tantos riscos se correram, porque se afrontaram tantos perigos – escreve o poeta de Y-Juca-Pyrama – porque se subiram tantos montes, porque se exploraram tantos ríos, porque se descobriram tantas terras, porque se avassalaram tantas tribus: dizei-o — e não mentiréis: foi por cubiça”. – Cobiça insaciável, na loucura do enriquecimento rápido’”.

“Na cobiça vale qualquer expediente, desde bala na cabeça do sujeito para roubar o celular de um desavisado até digressões pomposas de 13 horas para justificar o injustificável. O deus Mercado ainda era uma deidade incipiente, em suas manobras e chantagens, no inicio do século passado. Mas a noção de bem comum sempre esteve ausente nesta terra abençoada por Deus _em qualquer de suas versões, da inaugural vontade geral rousseauísta às equações mais elaboradas, bem-intencionadas e inexequíveis de politicólogos contemporâneos. O interesse individual, melhor dizendo , de uma casta específica, sempre prevaleceu, prevalece e prevalecerá enquanto só forem tomadas medidas cosméticas”.

“Esta incapacidade visceral de submeter o privilégio de poucos a um relativo bem-estar da maioria (Rousseau diria de todos, mas é um sonhador mal-humorado) é atávica por aqui. Ancestral. Imaculada. O endinheirado não abre mão de um centavo, mesmo que isso lhe custe, daqui a pouco, um assalto violento. E não há segurança privada que o blinde do vandalismo”.

“Sobre o sentido do bem comum, e o eterno vale tudo para se safar e satisfazer, Prado escreveu: ‘Este bispo via que quando mandava comprar um frangão, quatro ovos e um peixe para comer, nada lhe traziam porque não se achava na praça nem no açougue, e, se mandava pedir as ditas cousas e outras mais às casas particulares, lhas mandavam. Verdadeiramente, dizia o bispo, nesta terra andam as coisas trocadas, porque Ella toda não é republica, sendo-o cada casa’”. É a República do quem pode mais chora menos, e salve-se quem puder”.

“Mas quem sabe a ventania que agora sopra do STF não sacode este atavismo?”.


Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.

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