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O legado de Silvio Tendler, um militante pelo cinema e pela história – Jornal da USP


Os Anos JK – Uma Trajetória Política acompanha a história do ex-presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) e sua ascensão ao poder. O chamado “presidente bossa nova” foi de médico à carreira política: deputado, prefeito de Belo Horizonte (MG), governador de Minas Gerais e presidente. O documentário, lançado durante a ditadura militar, explora a crise eleitoral deixada pelo suicídio de Getúlio Vargas, em 1954.

Kubitschek, na época governador de Minas Gerais, se candidatou pelo PSD, com João Goulart como vice. A maior oposição era a UDN, com o candidato Juarez Távora. Após a vitória de JK, Carlos Lacerda e seus seguidores passaram a defender ainda mais uma intervenção militar, que passou a ser pauta também de outros grupos, com a principal acusação de a chapa de JK ser “comunista” — devido ao fato de ter Goulart como vice. O objetivo dos opositores era impedir a posse dos eleitos. 

No entanto, o general Henrique Teixeira Lott, um legalista, era ministro de Guerra e discordava desse discurso. Foi a sua influência dentro das Forças Armadas que evitou um golpe: ele resolveu realizar aquilo que ficou conhecido como o “golpe preventivo”. No dia 11 de novembro de 1955, o general tomou o controle de prédios governamentais, jornais, estações de rádio e unidades militares — com a mobilização de tropas militares. O Brasil foi governado em estado de sítio até a posse de JK, em 31 de janeiro de 1956. 

O documentário de Tendler expõe essa crise e a dificuldade de manter a estabilidade política em meio à oposição com discurso golpista. JK construiu Brasília e interiorizou a capital e o aparato político-administrativo no Planalto Central. O filme ainda passa pelo golpe militar e exílio de Kubitschek, apresentando o que promete, o panorama completo de sua trajetória política. Foi lançado quatro anos após a morte de JK e resgatou essa memória no imaginário popular. 

Em Jango (1984), são abordadas justamente as condições que culminaram no Golpe de 1964. Jânio Quadros foi eleito presidente e assumiu após o mandato de Kubitschek acabar, em janeiro de 1961, com João Goulart de novo como vice – naquela época, os candidatos a presidente e vice eram votados de forma separada. Ainda naquele ano, Jânio renunciou enquanto Jango estava em viagem diplomática à China. Ainda considerado “comunista” e em risco de ter a posse impedida, Jango faz o caminho de volta ao Brasil e entra no território através do Sul, com ajuda de Leonel Brizola. 

Jango assumiu a Presidência, mesmo com inúmeros obstáculos, mas o levante militar que começou no dia 31 de março de 1964 culminou na sua deposição e consequente instauração do regime militar.

No documentário, importantes personalidades e figuras intelectuais da época concedem entrevista. É uma reconstrução da trajetória de João Goulart. O ano de estreia é importante, já que é um filme sobre o início da ditadura em meio ao movimento Diretas Já, o clamor do povo por redemocratização.  O filme é composto de arquivos e depoimentos, inclusive de figuras opostas como o general Antônio Carlos Muricy, pró-ditadura, e Leonel Brizola.

Morettin entrevistou Tendler para um de seus livros, História e Documentário (Editora FGV, 2012),  ao lado de Mônica Kornis. Conta, então, a perspectiva do cineasta sobre Jango. “Ele pensou no filme para que, de certa maneira, participasse da campanha das Diretas Já, não como uma peça de propaganda, mas como algo que pudesse contribuir no resgate da história desses personagens e, ao mesmo tempo, interferir no presente.”

Na época, o professor tinha 20 anos e lembra de como Jango mobilizou toda uma geração de estudantes e jovens engajados, incluindo ele. Ele acrescenta que a obra de Tendler continuará no radar das suas pesquisas e reflexões.

Silvio Tendler também  realizou documentários sobre Carlos Marighella, Glauber Rocha, Tancredo Neves, Milton Santos, Chico Mário e Castro Alves, entre outros. O professor Morettin destaca Utopia e Barbárie (2009) como um filme de importância. Nele, Tendler explorou questões e acontecimentos polêmicos na história recente do mundo – como a Queda do Muro de Berlim, as bombas atômicas e o neoliberalismo. Para isso, reuniu registros de 15 países, em uma reconstrução narrativa a partir da Segunda Guerra Mundial.

O fim da sua extensa filmografia é marcado por Brizola, Anotações Para Uma História (2024), documentário que expõe uma análise sobre Leonel Brizola, político que foi cassado, exilado e, nos anos 1980, se tornou governador do Rio de Janeiro e candidato à Presidência da República. A obra foi lançada no ano em que a morte de Brizola completou 20 anos. Foram utilizados depoimentos, tanto de aliados quanto de críticos, e registros inéditos. 

 

Assista no link abaixo ao programa Desafios, exibido pelo Canal USP no dia 30 de junho de 2023, que traz entrevista com o cineasta Silvio Tendler. A apresentação é do jornalista Luiz Roberto Serrano.



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