sábado, maio 16, 2026
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Falta diversidade alimentar na mesa dos brasileiros – Jornal da USP


Pesquisadoras afirmam que a variabilidade dos alimentos é essencial para o bem-estar e previne contra diversas doenças, como a diabetes tipo 2

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Vendedor em uma feira em frente a uma balança de pesagem numa mesa de vegetais e uma pessoa olhando para os produtos
A variedade de espécies animais e vegetais provenientes de alimentos in natura e minimamente processados diminuiu nas últimas décadas – Foto: Divulgação/FSP
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Manter uma dieta variada é importante para o bom funcionamento das funções do corpo humano, como mostra o Guia Alimentar para a População Brasileira. Entretanto, o consumo de alimentos ultraprocessados — aqueles que passam por modificações e mistura de aditivos, com pouco ou nenhum valor nutricional — cresceu 5,5% entre os brasileiros na última década. A facilidade de obtenção e os custos elevados de pratos mais saudáveis são alguns dos fatores que contribuem para esse cenário.

De acordo com Maria Laura Louzada, professora do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, a ingestão de ultraprocessados apresenta aumento constante desde a década de 1970. Ela destaca que 20% das calorias consumidas no Brasil têm origem industrial; para os adolescentes, esse índice ultrapassa 30%. 

Entretanto, o alcance a esses alimentos é desigual no País: “Ele é mais acentuado entre os grupos mais pobres, moradores das zonas rurais e do Norte e Nordeste do País. Ainda assim, o maior consumo desses produtos continua sendo observado entre os grupos de maior renda, embora pareça já ter se estabilizado ao redor de 25% das calorias”, explica.

Maria Laura Louzada

Equilíbrio

Fernanda Marrocos, pesquisadora da Cátedra Josué de Castro, sediada na Faculdade de Saúde Pública da USP, aponta que a participação de produtos de origem animal nos pratos — com destaque para carnes —  é importante. 

Esses alimentos são ricos em nutrientes importantes, como aminoácidos, ferro heme, vitaminas do complexo B e ácidos graxos ômega-3 e desempenham papel essencial para a cognição, metabolismo e saúde do coração. De acordo com o Ministério da Saúde, o consumo de comidas que contenham leite e derivados, carnes e ovos por dia é de duas a três porções. A quantidade varia por componente: um copo de leite, duas a três colheres de carne moída, uma coxa de frango ou um ovo, por exemplo. 

Para a profissional, o aumento de ultraprocessados no dia a dia demonstra a redução da diversidade alimentar. “Dados das últimas três edições da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) evidenciam que a variedade de espécies animais e vegetais provenientes de alimentos in natura e minimamente processados diminuiu nas últimas décadas, principalmente as espécies de origem vegetal”, explica. Ela complementa com a informação de que a queda citada foi mais acentuada entre pessoas de baixa renda, as quais enfrentam dificuldades no acesso devido, principalmente, ao custo

Fernanda Marrocos – Foto: FSP

Consequências

O padrão alimentar baseado em produtos ultraprocessados está ligado a diversas doenças crônicas, cita Maria Laura Louzada. Uma pesquisa publicada na revista científica The BMJ associa esse consumo a um risco maior de cerca de 50% de morte por doenças cardiovasculares e 12% de diabetes tipo 2. No total, mais de 30 enfermidades e condições têm essa relação. 

A professora relaciona o cenário com a tríplice monotonia agroalimentar marcada por vastas extensões de uma única produção e contribuição para a degradação ambiental. “Além disso, enfraquece as culturas alimentares tradicionais, porque substitui o alimento feito em casa por produtos padronizados, muitas vezes com o mesmo sabor em qualquer lugar do mundo”, complementa. Esse sistema, segundo Maria, estimula a concentração nas mãos de poucas empresas, baseado em commodities, monopólios e lucro. 

*Sob supervisão de Cinderela Caldeira


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