segunda-feira, março 16, 2026
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As bolhas ou a água fervente? Configurações para regenerar a Terra e a humanidade – Jornal da USP


Como enfrentar a grave dissonância entre as conferências internacionais sobre o meio ambiente e as práticas dos grupos políticos e econômicos responsáveis pela devastação de vastos territórios através da exploração madeireira, da mineração, da produção química industrial, da pecuária, da agricultura de grande escala (commodities)?

Os desafios são conceituais e políticos, e não meramente técnicos ou tecnológicos, implicando capacidade institucional, neutralidade judicial, transparência informativa e espaços sociais para envolvimento cívico, cuja omissão concorre para sustentação ativa das barreiras à mudança presentes nas políticas públicas e nas práticas de terreno.

Os aspectos são múltiplos: são temáticos (definição do que está em jogo), são epistêmicos (formas de compreender e definir as coisas) e são estratégicos (quem são os agentes, como, quando e onde atuam), abrangendo os discursos hegemônicos e as ações coordenadas de lobbies de interesses, grupos de apoio e regras e normas de legitimação.

A raiz reside nos paradigmas dominantes de desenvolvimento, crescimento, riqueza, poder e liberdade (cuja mudança depende de novas formas de estar no mundo e coexistir), enraizados e propagados no sistema como um todo, nos meios de comunicação, nas esferas de poder que atuam no âmbito político, econômico, educacional e cultural.

Para as narrativas dominantes, concorrem o comportamento de atores políticos e econômicos, a deterioração e alienação da responsabilidade coletiva, a decadência das funções de bem-estar do Estado e a carência de processos eficientes para punir as violações ambientais no mundo como um todo, que facilmente escapam à judicialização.

O sistema está inserido e entrincheirado em estruturas interligadas do poder político e econômico; a responsabilidade para, supostamente, resolver os problemas, é delegada aos próprios setores privados que os criam; 80% dos danos são causados por 57 empresas, que operam em apenas 34 países.

Segundo o Earth System Governance Project, entre as questões relevantes que necessitam resposta, figuram as seguintes:

1) Como avaliar o contexto institucional, político e social à luz da investigação comparativa e das meta-análises para revelar padrões e tendências gerais que variam de acordo com o contexto?
2) Quais são os temas e questões de investigação em que a acumulação de conhecimento seria particularmente profícua em termos de progresso científico e/ou impacto nas políticas e na governação?
3) Que pesquisas comparativas, revisões sistemáticas e meta-análises existem? Que resultados de investigação são de fato (ou não) adotados pelos decisores políticos e por que razões e interesses?
4) Como desenvolver e utilizar uma terminologia básica amplamente partilhada, mas ainda assim aberta a reinterpretações e a novos conceitos?
5) Como coordenar colaborações, como dicionários comuns ou bases de dados partilhadas?
6) Como é que a comunidade da Interface Ciência-Política pode influenciar as políticas públicas e as agências financiadoras?
7) Como lidar com a comunicação, advocacia, políticas públicas, programas de investigação e ensino, visando à integridade ética e científica?

As redes relacionais entre a natureza e os seres humanos podem criar uma nova compreensão dos fenômenos que integre aspetos científicos, éticos e socioeconômicos. Uma abordagem reducionista e fragmentada não pode ser “objetiva”; diferentes formas de compreensão e conhecimento estarão inerentemente repletas de subjetividade.

A consciencialização, interpretação e compreensão para além dos estereótipos estabelecidos dependem dos espaços de troca de conhecimento, dos nichos socioculturais, dos meios de comunicação, das instâncias educacionais, dos processos de governação deliberativa, da criatividade partilhada, das iniciativas lideradas pelas comunidades.

Como estamos a moldar a dinâmica que procuramos compreender? Que pressupostos carregamos? A regeneração da Terra e da humanidade, enquanto faces da mesma moeda, deve ser abordada simultaneamente, de forma mutuamente solidária; “os problemas ambientais derivam do egoísmo, da ganância e da apatia”.

A mudança implica, portanto, um conjunto de valores, normas e políticas que priorizem os aspectos socioecológicos, o bem-estar humano, os panoramas naturais e construídos, o significado estético, ético e cultural da vida como um todo, o efeito conjugado de todas as dimensões de estar no mundo: íntima, interativa, social e biofísica.

Nesse sentido, é necessário que as políticas públicas, a advocacia, a comunicação, os programas de ensino e pesquisa:

1) definam os problemas no cerne do “caldeirão a ferver”, em vez de reduzi-los às bolhas de superfície (questões fragmentadas, formatos acadêmicos, políticas segmentadas, efeitos);
2) considerem a interligação entre todas as dimensões de estar no mundo (deficits and assets), à medida que se combinam para provocar, manter ou transformar os acontecimentos;
3) promovam a singularidade (identidade, características próprias) e reciprocidade (apoio mútuo) entre todas as dimensões, face a sua complementaridade e equilíbrio dinâmico;
4) empenhem-se na transformação dos paradigmas atuais de crescimento, poder, riqueza e liberdade (instituições políticas, tecnológicas, econômicas, educativas e culturais).

A abordagem dos fenômenos deve refletir o seu estado, desempenho e tendências, de forma a fornecer condições essenciais aos decisores no governo, na academia e noutros setores, tendo em vista a formulação de políticas, estratégias e programas, avaliados quanto a sua eficácia e flexibilidade para permitir os ajustes necessários.

A participação deve envolver ativamente a sociedade em geral, em vez de depender apenas de especialistas externos ou de métricas pré-determinadas. O público nas diferentes esferas da sociedade deve ser incluído, promovendo a transparência e a prestação de contas, incluindo os meios de comunicação, a academia, as organizações sociais.

A inclusão de indicadores psicossociais, políticos, econômicos, educacionais e culturais contextualizados é essencial, tendo em vista as obrigações dos diferentes setores, sua sinergia, partilha de conhecimentos, valores, atitudes e comportamentos: como as pessoas agem, tomam decisões e reagem a políticas, processos e incentivos.

Os mecanismos de supervisão ética são essenciais para manter a confiança pública na governação através da monitorização dos programas, investigação e relatórios, promovendo a responsabilização, prevenindo a corrupção e fomentando comportamentos éticos, de forma a criar melhores escolhas e promover mudanças.

É preciso monitorizar a forma como os sistemas respondem ao aumento dos inputs e desempenho dos processos. Isto implica a necessidade de definir indicadores essenciais, considerando o desempenho do sistema, ao mesmo tempo em que se desenvolvem e se implementam estratégias adequadas para gerar as mudanças necessárias.

Uma estrutura conceitual sólida deve sustentar uma boa investigação: definição, propósito e importância, estabelecendo condições para definir os problemas a serem investigados e encontrar respostas apropriadas e significativas para os mesmos. Conecta teorias, pressupostos, crenças e conceitos e apresenta-os num formato narrativo adequado.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



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