Ricardo Abramovay comenta como o excesso da produção de alimentos está prejudicando não apenas a segurança alimentar, mas também o meio ambiente

Atualmente, a grande ameaça à segurança alimentar é o excesso da produção de alimentos e não a escassez, como era em décadas passadas. A questão não se trata de uma oposição ao crescimento econômico, mas sim daquilo que compromete o bem-estar das sociedades contemporâneas. O professor do Instituto de Estudos Avançados da USP e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), Ricardo Abramovay comenta o assunto em sua relação com a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que acontecerá em novembro deste ano. “As mudanças climáticas são uma ameaça à oferta de produtos agropecuários, mas a produção agropecuária, tal como ela está sendo desenvolvida hoje, também contribui para a crise climática. Um terço das emissões de gases de efeito estufa vem do sistema agroalimentar, então é uma via de mão dupla.”
Abramovay também diz que os dois assuntos mais importantes de serem discutidos na COP30 envolvem como o desmatamento para produção alimentar é desnecessário, sendo uma questão mais patrimonial do que produtiva, e a poluição causada por agrotóxicos. “Hoje, nós dependemos de fertilizantes que estão na origem de formas muito graves de poluição […] já ultrapassamos o que a terra pode aguentar em nitrogênio e em fósforo, elementos essenciais para a agricultura contemporânea, além de agrotóxicos e antibióticos que estão sendo produzidos muito mais do que a terra e a saúde humana podem aguentar.”
Características específicas do atual sistema de produção
O aumento e a melhora produtiva de alimentos na segunda metade do século 20, graças principalmente à Revolução Verde ocorrida, reduziu drasticamente a fome no mundo, entretanto, as bases para esse avanço estão esgotadas. “O avanço da oferta agropecuária se apoiou numa tríplice separação. A agricultura se separou da biodiversidade, a produção animal se separou da oferta dos alimentos para esses animais, por exemplo, o rebanho suíno da China é alimentado por algo que vem do outro lado do mundo, ou seja as funções ecossistêmicas que os animais preenchiam tradicionalmente deixam de ser preenchidas. E, em terceiro lugar, a alimentação se separou da saúde, com o avanço dos ultraprocessados. Isso implicou em uma tríplice monotonia do sistema agroalimentar”, ressalta o professor.

Desse modo, a produção agropecuária é concentrada em poucos produtos: apenas seis produtos respondem a 75% do consumo calórico da humanidade. Ocorre também uma monotonia na utilização de antibióticos para a produção animal: 70% dos antibióticos produzidos são destinados a animais, gerando uma resistência microbiana e um problema com as chamadas superbactérias.
A produção em larga escala de ultraprocessados, que são alimentos com diversos aditivos químicos e pouquíssimos valores nutricionais, também é outro fator que interfere na segurança alimentar da população mundial. “Estamos produzindo cada vez mais para uma população cujo consumo alimentar está na raiz das doenças que mais matam no mundo, que são as doenças não transmissíveis geradas fundamentalmente pelo avanço dos ultraprocessados. Então, essa é a ideia do excesso. Nós estamos gerando muito e usando técnicas de excesso de insumos, excesso de produção, mas que não geram abundância de vida.”
A contestação dessa monotonia
“O primeiro sinal de que esse sistema está sendo contestado é o fato de que as próprias organizações que estiveram na origem das tecnologias da Revolução Verde estão se dando conta de que esse modelo está esgotado. O Banco Mundial, o Grupo Consultivo da Pesquisa Agrícola Internacional, mas também organizações financeiras, como a organização Mitsubishi, que é o sétimo grupo financeiro do mundo. A Mitsubishi inclusive lançou recentemente um relatório mostrando como os ultraprocessados e o consumo em larga escala pelos animais de antibióticos são ameaças às próprias empresas, aos lucros das empresas.” O fato desta contestação estar partindo de grandes instituições e grupos financeiros, não apenas organizações ativistas, mostra como essa realidade pode se transformar.
Como o Brasil e a América Latina podem contribuir
A melhor forma de contribuição dos países latino-americanos para transformar essa realidade é através da agricultura tropical regenerativa, que utiliza de técnicas que prezam o bem-estar do solo e não uma produção agressiva em larga escala. “A ciência do século 21 valoriza muito o que está abaixo do solo, os microrganismos, os fungos, em comparação à ciência do século passado. E é nos trópicos que se concentra a maior densidade de vida do planeta, onde existe o maior potencial de desenvolvimento da agropecuária baseada numa ciência que valoriza a vida e não vê ela como inimiga”, finaliza Abramovay.
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