O trabalho foi liderado pelo Projeto Coral Vivo, com a participação de dezenas de pesquisadores, vinculados a 20 instituições — incluindo 15 universidades públicas brasileiras, três organizações não governamentais brasileiras, uma agência federal brasileira e uma universidade francesa. “A beleza desse trabalho, apesar de descrever algo muito triste, é o esforço que conseguimos fazer de juntar a comunidade científica brasileira em torno de descrever o que está acontecendo e de alertar a sociedade brasileira sobre o que está acontecendo”, afirma Mies, que é coordenador de pesquisas do Projeto Coral Vivo. Noventa pesquisadores assinam o artigo científico na Coral Reefs, sendo 32 deles da USP.
Os 18 pontos monitorados no estudo não são os únicos onde houve branqueamento nem mortalidade, mas servem como uma referência amostral daquilo que aconteceu em grande escala na costa brasileira em 2024. A heterogeneidade dos impactos do branqueamento, segundo os cientistas, é reflexo da condição dos ecossistemas recifais brasileiros, que são extremamente variados, tanto em termos de espécies, quanto das características ambientais e oceanográficas que os compõem. Os recifes do Nordeste são muito diferentes dos recifes de coral do Sudeste, por exemplo, e mesmo entre localidades geograficamente próximas podem haver diferenças significativas com relação à diversidade de espécies, tipo de substrato, profundidade, claridade da água e exposição a ameaças locais, como poluição, pesca predatória e turismo desordenado.
“Não tem como todos os corais do Brasil responderem da mesma forma [ao aquecimento], porque os recifes são diferentes”, resume Destri. Um cenário bem diferente do que ocorre na Austrália ou no Caribe, por exemplo, onde o gradiente latitudinal é muito menor e as condições ambientais são mais homogêneas entre os recifes.
Nos recifes do Sul e Sudeste, por exemplo, prevalecem espécies de corais mais robustas e habituadas a condições ambientais adversas, como turbidez elevada e variações constantes de temperatura da água; o que pode ajudar a explicar sua maior resiliência ao efeitos do branqueamento. Isso não significa, porém, que eles não possam sofrer mortalidade, também, em eventos futuros.
Considerando todas as áreas pesquisadas, a redução na cobertura de corais vivos como um todo foi de 5%. As espécies que apresentaram maior índice de mortalidade foram Scolymia wellsii (redução de 66%), Millepora alcicornis (54%) e Mussismilia harttii (28%), conhecidas genericamente como coral-esmeralda, coral-de-fogo e coral-vela. A primeira é preocupante, porque nunca havia branqueado antes; e as outras duas são particularmente preocupantes por serem peças fundamentais na complexidade estrutural dos recifes brasileiros, da qual centenas de espécies de peixes e invertebrados marinhos dependem para a sua sobrevivência. A extinção local de uma dessas espécies, portanto, pode comprometer gravemente a saúde do ecossistema, com consequências potencialmente severas também para a pesca e o turismo.



